O Carnaval de volta às raízes do engajamento

Protestos contra a corrupção, o governo e as questões sociais que marcaram desfiles no sambódromo remetem a raízes milenares da folia

Mais incisiva, Paraíso do Tuiuti fez referência explícita ao governo TemerMais incisiva, Paraíso do Tuiuti fez referência explícita ao governo Temer - Foto: Mauro Pimentel/AFP

Tempo de folia e de brincadeiras, Carnaval também é palco para manifestações políticas. Em pleno ano eleitoral o tema, esquecido nos últimos anos, voltou a ganhar um protagonismo maior no sambódromo. Cinco das 13 escolas de samba do Rio de Janeiro trouxeram, neste ano, um protesto contra corrupção, o Governo Federal e questões sociais.

Entre as que se destacaram, a Beija-flor de Nilópolis, que apostou em um desfile inspirado em Frankenstein e comparou políticos a ratos; a Paraíso de Tuiuti, que trouxe a imagem de Drácula caracterizada de terno e faixa presidencial, em referência ao presidente Michel Temer (MDB); e a Mangueira, que representou o prefeito da cidade, Marcelo Crivela, como “o Judas do Carnaval”. As três voltam a desfilar neste sábado, no desfile das campeãs, e trazem o tom do que pode vir nas eleições.

Consagrada como campeã, a Beija-flor levou para a avenida a Ala dos Roedores dos Cofres Públicos e a Ala dos Lobos em Pele de Cordeiro, em alusão aos políticos. As denúncias de fraudes na Petrobras também fizeram parte do protesto representadas em fantasias com barris de petróleo na cabeça. Um carro retratou o edifício sede da empresa, atrás de um grande rato. A segundo lugar, a Paraíso Tuiuti, foi mais enfática ao tratar da escravidão desde a antiguidade e mirar na crise política do País.

Outra ala, Guerreiros da CLT, reforçou as críticas ao fazer referência ao trabalho precário em fazendas e confecções. O tema teve repercussão no País com a reforma trabalhista, aprovada em julho de 2017 e muito criticada pelas centrais sindicais, que alegaram que a lei “tira direitos e precariza a relação entre capital e trabalho”. Mais recentemente, o tema voltou a entrar nos holofotes com a tentativa de dar posse à deputada federal Cristiane Brasil (PTB-RJ), condenada a pagar R$ 60 mil por dívida trabalhista. Um outro veículo da escola de samba trouxe mãos manipulando pessoas vestidas com camisas da seleção brasileira de futebol e patos amarelos, símbolos das manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2015.

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Como desfecho do que aconteceu no País depois do impedimento da petista e posse do presidente Temer, o último carro alegórico chegou à Marquês de Sapucaí com um navio negreiro contemporâneo, em que o destaque era o Drácula com faixa presidencial e notas de dólares no colarinho. Nas entrelinhas, a escola de samba fez uma crítica às medidas adotadas pelo governo do chefe do Executivo Nacional. Temer foi denunciado, por duas vezes, pela Procuradoria-Geral da República, por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça. As acusações, no entanto, foram barradas na Câmara dos Deputados. Já a Mangueira, quinta colocada, ironizou o corte nas verbas destinadas às escolas executado pela Prefeitura do Rio.

De acordo com o especialista político José Nivaldo, as manifestações políticas são retradas desde a Idade Média nas folias. “Quando se vê registros de 1,5 mil anos atrás já se observava que o Carnaval ridicularizava o poder. Duas coisas sempre o acompanham: a sátira e uma certa libertinagem dos costumes”, disse.

Durante a ditadura, afirmou Nivaldo, as festas de Momo eram voltadas, sobretudo, à crítica política. A Beija-flor, na época chegou a trazer carnavalescos fantasiados de mendigos. Segundo ele, nos últimos anos, porém, os protestos políticos perderam a força por causa dos patrocínios governamentais.

“O que aconteceu nos últimos anos foi que as escolas de samba, beneficiárias de patrocínios, se transformaram em instituições chapas brancas enquanto os desfiles na rua estavam esculhambando o poder. Este ano, com a falta de verba e o corte de recursos, algumas escolas redescobriram na política uma forma de fazer um Carnaval sintonizado com as ruas”, avaliou o especialista. O impacto disso, frisou, é a identificação com a sociedade que faz crítica política nas redes sociais.

Para o doutor em ciência política e professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) Guilherme Simões Reis, o desfile da Paraíso do Tuiuti teve importância histórica ao fazer referência explícita ao governo Temer e aos atores que defenderam o impeachment de Dilma como forma de combate à corrupção. “A Paraíso atacou as medidas neoliberais e Temer e sua impopularidade”, destacou Guilherme para acrescentar que a Beija-flor, no entanto, protestou de forma genérica. “A escola fez um desfile despolitizante. Mostrou a indignação com corrupção, mas ao mesmo tempo reiterou alguns preconceitos arraigados, colocaram como vilão os impostos, que é uma velha bandeira conservadora. Foi uma crítica genérica e reiterou uma série de estigmas”, opinou o cientista.

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