Revisita (virtual) à Miolo

Estamos vivendo um momento muito diferente, não é leitor? Distância passou a ser um importante meio de sobrevivência. Estranho, muito estranho. Que normalmente a proximidade era desejável. Até na medicina. Hoje, ironicamente recomendamos distanciamento. E ainda há os que decantam o tal novo normal. Inferindo que um tanto desses hábitos vai persistir. Quem sabe tem alguma verdade nisso. Se assim for, talvez um deles sejam as “lives”, febre do momento. Há para todos os temas e gostos. Até para degustar vinhos. Dias atrás participei de um agradável “encontro desencontrado”, com colegas e amigas, sob batuta da sommelière Duda Figueiredo, cada um em sua casa e com sua garrafa de um saboroso cru bourgeois de Médoc, Château Vieux Robin. Não é que foi esquisitamente muito bom? Aí, semana atrasada, participei de outra degustação virtual. A convite da Miolo, tomamos a safra 2019 do Miolo Reserva Syrah, com seu novo e elegante rótulo. Éramos uma dúzia de amantes de vinhos, além de experts da vinícola gaúcha. Gaúcha? Ora, esse vinho é um nordestino da gema, pois a Syrah é oriunda do Vale de São Francisco, na vizinhança de Pernambuco.

Lembrando que outro tinto desta uva, o Testardi, também produzido no braço baiano do grupo Miolo, foi eleito melhor vinho do Brasil, anos atrás. Para reavivar sua memória, amigo, essa cepa de uva alcança seu auge na região do Rhône, França e na Austrália. Todos que degustamos este Reserva Syrah concordamos se tratar de um tinto ainda jovem, que precisa de um tempo de aeração - recomendo até que seja decantado. Portanto, companheiro, não seja avexado. Abra a garrafa, decante, aguarde uns bons 15 minutos para que ela desabroche., revelando um vinho de cor violácea, nariz frutado e apimentado, com paladar persistente. Fruto de sua longa extração e de 12 meses fermentando em carvalho. Em consonância com o modismo atual, ele é elaborado seguindo conceitos veganos - tenho uma amiga que se souber disso, compra o estoque todo - alegadamente, hipoalergênico. Acho que ele se mostrará um bom acompanhamento para carnes, leitor. Outra importante qualidade é o preço, em torno de R$50. Aliás, eu que já tanto bati no relativo alto custo dos vinhos brasileiros, aproveito para elogiar o presente trabalho dos vinicultores nacionais, tentando ajudar nosso bolso! Ainda sobre a Miolo, merece destaque o lançamento da linha “Sete Lendários”.

Tirando proveito da boa safra 2018, a vinícola deu esse nome à coleção de seus maiores ícones, produzidos em diferentes regiões e “terroirs” do Brasil. Miolo Merlot Terroir, Testardi Syrah, Quinta do Seival Cabernet Sauvignon, Miolo Lote 43, Quinta do Seival Castas Portuguesas, Sesmarias e Vinhas Velhas Tannat formam esse time de tintos nobres (pela atual legislação nacional, vinhos com graduação alcoólica de 14,1% a 16,0%), com bom potencial de guarda. Quiçá para serem comparados, daqui a uns anos, com os “Sete Lendários” 2020 (novo lançamento da coleção), fruto de outra ótima safra no Brasil. E foi assim, leitor, que revisitei a Miolo. Virtualmente. Porém, anseio e confio no fim dessa tenebrosa pandemia. Que fiquem de herança as “lives”, mas que volte o velho normal das viagens e visitas presenciais aos lugares bonitos e gostosos do mundo. Tim, tim, brinde à vida.