Em reunião da Alepe, especialistas dizem que faltam evidências para uso da hidroxicloroquina

Questões dos parlamentares a respeito de tratamentos e protocolos de prevenção referentes ao novo coronavírus foram respondidas, nesta quarta (20), por dois especialistas do Instituto Aggeu Magalhães/Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Pernambuco. Os pesquisadores participaram da reunião virtual da Comissão de Saúde da Alepe. Segundo eles, faltam evidências científicas fortes para qualquer remédio, e o uso de algumas substâncias – entre elas, a hidroxicloroquina – não é recomendado por sociedades médicas do Brasil e dos Estados Unidos.

O médico Paulo Sérgio Ramos, que também é chefe do setor de Infectologia do Hospital das Clínicas (HC), criticou a recomendação do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina pelo Ministério da Saúde (MS), divulgada hoje. “Para a surpresa de toda a comunidade científica, o órgão indicou o medicamento não só em hospitais, mas em ambiente ambulatorial, para casos leves. Isso é muito preocupante”, acredita. “Apesar de essas substâncias serem empregadas há mais de 80 anos para tratar malária, lúpus e artrite, não são isentas de risco.”

“Todo médico infectologista tem um ou mais casos para contar de pacientes sem histórico de problema cardíaco que tomavam hidroxicloroquina em hospitais e tiveram morte súbita. No grupo de 130 infectologistas de que faço parte, e é a referência no Estado, nenhum deles prescreveu esses remédios para a Covid-19”, prosseguiu Ramos. De acordo com o médico, o acompanhamento e o pronto atendimento dos pacientes, principalmente em UTIs, é a melhor abordagem no momento.

O especialista em virologia Lindomar Pena, por sua vez, destacou documento elaborado por três entidades médicas (Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Sociedade Brasileira de Infectologia e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia) sobre os tratamentos disponíveis para a Covid-19. “Elas são contra o uso rotineiro da cloroquina e da hidroxicloroquina, tanto isoladas como associadas à azitromicina, pois não há evidência científica concreta de benefícios”, ressaltou. Os organismos também não recomendam outros remédios, como o lopinavir/ritonavir.

O pesquisador da Fiocruz Pernambuco informou, ainda, que o uso de cloroquina e hidroxicloroquina também não foi indicado pelo National Institutes of Health (NIH), agência governamental de pesquisa do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. Além das considerações técnicas, Pena lembrou que há um risco comportamental na orientação do MS: “A propagação ilusória de que seriam eficazes pode fazer com que as pessoas saiam às ruas”.

Para ele, há linhas de pesquisas mais promissoras de tratamento que deveriam ser avaliadas, como a utilização do plasma de pessoas que já foram infectadas pelo vírus. “Tem sido eficiente para outras doenças e não apresenta muitos efeitos colaterais. Ainda não há estudos bem controlados para esse tratamento, mas alguns resultados foram promissores”, frisou. “Tendo uma empresa como a Hemobrás em Pernambuco, essa é uma opção para a qual deveríamos nos mobilizar a fim de termos disponível”, sugeriu.

Pena registrou que a equipe da Fiocruz Pernambuco conseguiu desenvolver testes para o vírus da zika por apenas R$ 1 a unidade. “Temos capacidade técnica de desenvolver exames de baixo custo para o coronavírus. Mas precisamos de mais apoio, tanto da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado como da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)”, prosseguiu o virologista.

Os deputados Isaltino Nascimento (PSB) e Antonio Fernando (PSC) sugeriram que a Comissão de Saúde convide representantes de instituições como o Lafepe e a Hemobrás para discutir a possibilidade de parcerias em pesquisas. Atualmente, a capacidade de testagem oficial em Pernambuco é de sete mil testes por semana, segundo informou o infectologista Paulo Sérgio Ramos.

Contágio
Outro ponto levantado por Lindomar Pena diz respeito a pesquisas divulgadas na revista The Lancet apontando risco de transmissão pelo coronavírus por até 20 dias após o paciente contrair a doença. “A partir desse estudo, acredito que deveríamos aumentar o tempo de isolamento de 14 dias, como é recomendado hoje pela Organização Mundial da Saúde, para 20 dias”, ponderou. “Isso também precisa se refletir nos atestados médicos, principalmente para profissionais de saúde, e em todo o planejamento, tanto para um lockdown como para uma possível reabertura de comércio no futuro.”

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