Operação Ratatouille investiga 25 pessoas ligadas à gestão de Vado

Polícia Civil detalha Operação Ratatouille - Ed Machado/Folha de Pernambuco

Deflagrada nessa quarta-feira (21), a primeira parte da Operação Ratatouille investigou 25 pessoas ligadas à gestão Vado da Farmácia na Prefeitura do Cabo de Santo Agostinho, Região Metropolitana do Recife, entre 2013 e 2016. Ex-secretários, filhos, servidores da prefeitura e até a ex-mulher foram alvos da operação.

Tudo começou em 2017, quando a Promotoria do Cabo começou a receber denúncias anônimas de cidadãos que indicavam superfaturamento de contratos e enriquecimento ilícito do prefeito e de alguns secretários. Essas queixas foram encaminhadas à Polícia Civil, que passou a realizar um trabalho conjunto com o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE).

“Ele assumiu a prefeitura declarando ao Tribunal Eleitoral que tinha um total de zero bens. E ao longo da gestão foi adquirindo inúmeros bens que ele utilizava mesmo estando em nome de terceiros”, afirmou a delegada Patrícia Domingos, titular da Delegacia de Crimes Contra a Administração e Serviços Públicos (Decasp) - responsável pelo inquérito. “É um crescimento patrimonial incoerente com o salário de prefeito e com as verbas que ele declarava ao Imposto de Renda”, complementou. Vado teria adquirido duas casas de praia, dois jet-skis, dois quadriciclos, um carro importado e uma moto esportiva, de acordo com a delegada.

Desconfiança
Durante seis meses, as autoridades começaram a investigar contratos e licitações. O primeiro a chamar a atenção da Polícia Civil foi o vinculo da prefeitura com a empresa Casa de Farinha, fornecedora de alimentos para as secretarias municipais de Educação, Saúde e Assistência Social. “O TCE verificou inúmeras irregularidades, como fornecimento de alimentos estragados, carnes de péssima qualidade e o não-fornecimento de merenda ou fornecimento abaixo do estipulado em contrato”, explicou a delegada Patrícia.

O TCE também estranhou o cachê pago pela Prefeitura do Cabo a um show do cantor gospel André Valadão, no valor de R$ 200 mil, pagos a empresa Amando Vidas Produtora e Gravadora. “A prefeitura não pagou por uma apresentação, e sim pela gravação do CD e DVD do artista. O TCE verificou que o mesmo cantor fez shows em datas próximas cobrando cerca de R$ 70 mil. É como se tivessem doado o dinheiro para o cantor, o que, em tese, se caracteriza crime de desvio de verbas ou rendas publicas”, comentou.

Quando aos indícios de superfaturamento, a delegada da Decasp apontou que duas empresas - Esfera Construções Ltda e C A Construções Civis Ltda - receberam pagamento por obras que não foram executadas ou foram avaliadas por um valor diferente do contratado. Ambas já estavam sendo observadas pela Polícia Civil na Operação Tupinambá, que apura fraudes semelhantes às praticadas no Cabo, mas em contratos realizados em São Lourenço da Mata.

Patrícia Domingos afirmou, ainda, que existe a investigação de lavagem de dinheiro. “A quantia desviada desses contratos foi para alguém. E a pessoa que teve o maior crescimento patrimonial foi o Vado. Ontem a gente achou uma quantidade de dinheiro de ultrapassou os R$ 2 milhões em espécie, ato típico do crime de lavagem de dinheiro”, apontou. O dinheiro foi localizado na casa de Paulino Valério da Silva Neto, que foi secretário executivo de Logística do Cabo durante a gestão de Vado da Farmácia. Atualmente, o homem é secretário da Prefeitura de Ipojuca.

Realizada através de uma parceria da Polícia Civil com o Tribunal de Contas do Estado (TCE) e o Ministério Público (MPPE), a operação Ratatouille terá outros desdobramentos. Mesmo com as apreensões, nenhum mandado de prisão ou acusação formal a qualquer um dos investigados foi expedida pelas autoridades. “Não foi pedida a prisão porque não havia indicativos concretos para isso, como destruição de provas ou tentativa de fuga. Entendemos que ainda não seria o momento de tomar uma medida dessa. Não está excluída a possibilidade (de prisão dos envolvidos), mas vai depender das investigações”, justificou a promotora de Patrimônio Público do Cabo, Alice de Oliveira Morais.