[Opinião] O PT não é o “pai” de Bolsonaro

Alex Ribeiro - Divulgação Facebook

Por Alex Ribeiro, doutorando em História Política pela Universidade Federal da Bahia,
cientista político pela UFPE, e jornalista.


O debate anti-pt tomou conta das discussões políticas. A criminalização da considerada esquerda e até a ascensão de figuras ligadas a extrema direita, como a eleição do presidente Jair Bolsonaro, são jogadas no colo do Partido dos Trabalhadores.

No entanto, é preciso ir além do senso comum e analisar a origem desse discurso. Como e onde as pessoas formaram opinião no atual cenário nacional? Quais são as redes de relações que foram reproduzidas e absolvidas por boa parte da população? Entre esses mecanismos podemos citar o crescimento dos evangélicos na política; a Operação Lava Jato; o papel dos militares; e a atuação das mídias sociais desde as manifestações de 2013 até as eleições de 2018.

O primeiro ponto é sobre a Bancada Evangélica que ganha cada vez mais protagonismo
no cenário político. Além de estar à frente de algumas Casas Legislativas e prefeituras espalhadas pelo país, o grupo conseguiu eleger 91 congressistas na eleição de 2018, 16 a mais que o pleito anterior, em 2014. O levantamento foi feito pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) com base nos dados disponíveis no portal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Atores políticos evangélicos estão sempre presentes nas comunidades. Sem uma política
inclusiva estatal abrangente, os parlamentares deste segmento ingressam nesses locais
tentando resolver os problemas infra estruturais e sociais. Além disso, os eleitores deste
grupo são movidos pela motivação bíblica pregada, sobretudo, nos cultos e até “o medo
de desagradar a Deus” por não escolher um representante religioso. E a preferência dos
evangélicos por Bolsonaro ganhou força nesses espaços. Lideranças religiosas apontaram o atual presidente como um aliado de Deus, da preservação da família que
estava ameaçada por conta do “perigo do comunismo”.

O segundo ponto são os vazamentos de diálogos revelados pelo Intercept, a chamada
Vaza Jato, comprovando que a Operação Lava Jato tinha como principal alvo o PT. O
grupo foi responsável por mobilizar organizações como o Vem Pra Rua até contra o
Supremo Tribunal Federal. O VPR abrigou discursos de extrema direita. Os dois, Vem
Pra Rua e Lava Jato se tornaram aliados. E o principal líder desses magistrados, o então
juiz Sérgio Moro, virou ministro de Jair Bolsonaro. A soma e o resultado são simples de
entender.

O método da Lava Jato foi um dos principais fatores para o atual presidente ganhar mais
força e chegar ao Palácio do Planalto. A Vaza Jato mostra que a não apreensão do celular do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ator político responsável pela abertura do processo do impeachment de Dilma Rousseff (PT); os vazamentos seletivos do ex-ministro Antonio Palocci contra o PT, principalmente durante a eleição de 2018; o veto a entrevista do ex-presidente Lula, que se encontra preso em Curitiba, durante o mesmo pleito; e até da divulgação ilegal de conversa entre o próprio Lula e Dilma foram instrumentos imprescindíveis para a derrocada do Partido dos Trabalhadores e, por consequência, do sentimento de criminalização da esquerda.

Vale lembrar que a Vaza Jato não deve ser remetida apenas ao Intercept. Este possuí parceria com outros veículos como a Revista Veja, o El País, a Folha de São Paulo e o Portal UOL, o que enfraquecesse a narrativa de mensagens adulteradas dos diálogos no aplicativo Telegram entre os representantes da Lava Jato. Só se apostar que quase toda a imprensa atua a favor da corrupção, o que não é difícil diante da aversão duvidosa e sem critério aos meios de comunicação.

O terceiro ponto é a volta dos militares a cena política. Nos últimos anos este grupo saiu
dos quartéis para expor suas opiniões contra governantes como os ex-presidentes Michel Temer (PMDB), Dilma e Lula. A possibilidade de soltura moveu membros das Forças Armadas. Pelo discurso da ordem até contra os “comunistas”, este grupo esteve em evidência e com um certo apelo público. Tanto é que em alguns protestos ocorridos após as manifestações de 2013 o grito pelo retorno dos militares estava presente, mesmo que quase silenciosamente.

O maior exemplo ocorreu na greve dos caminhoneiros em 2018 quando não existia mais
o receio de levantar faixas em prol dos militares no poder. Isso refletiu na eleição do mesmo ano. Pessoas que se declaravam membros das Forças Armadas, sendo da ativa, reserva ou reformados, mais que dobraram sua participação no Congressos. O número em 2014 era de 10 membros, em 2018 chegou a 22. Sem contar, a presença deste grupo em outras Casas Legislativas do país. O apreço de parte da população fica evidente quando 45% dizem “confiar muito” nos militares, segundo pesquisa do instituto Datafolha, divulgada em abril de 2019.

O último ponto é sobre as redes sociais. Nestes espaços os ataques à esquerda são ainda
maiores. Apostando em notícias dúbias, duvidosas e teorias de conspiração sem sentido,
os argumentos são sempre de associar a corrupção a “esquerda”, colocando no mesmo
conjunto petistas, “socialistas” e “comunistas”. O argumento de “expulsar os vermelhos
do país” feito por Bolsonaro não foi à toa durante a campanha de 2018. Ainda neste mês
de agosto o presidente discursou afirmando que vai “varrer os comunistas do Brasil”.

Essa associação proposital vai ao ataque também de personagens que sequer são citados em investigações. Serve para qualquer um que for considerado de esquerda, seja Jean Wyllys, o deputado David Miranda, casado com o editor do Intercept Gleen Greenwald, e até a Marielle Franco, morta provavelmente por milicianos e repudiada por qualquer grupo e pessoas de extrema direita.

A guerra nas redes se tornou ódio de classes atingindo até professores que tecem críticas
ao governo. Essa prática de linchamento virtual ganhou força ainda em 2012 quando Jair Bolsonaro espalhou vídeos acusando falsamente professores considerados de esquerda de distribuir “kit gays” nas escolas para converter as crianças a homossexualidade. Com isso, o atual presidente descobriu o caminho para conseguir ter mais popularidade. As mídias são a causa do seu sucesso pelas suas declarações polêmicas, e que devem continuar por todo o seu mandato.

Essas reproduções do presidente Bolsonaro nas redes foram ajudadas por algoritmo do
Youtube. Segundo o jornal norte-americano New York Times, esta ferramenta foi a responsável pela disseminação da ideologia da extrema-direita no Brasil o que levou a
eleição do social-liberal. Nela surgiram grupos, como o Movimento Brasil Livre (MBL), que tinham como um dos seus objetivos deturpar fatos e de condenar pessoas e grupos ligados a esquerda.

As atitudes de Bolsonaro foram levadas aos meios televisivos ainda quando era deputado federal. Programas de caráter humorístico podem até ter tido a intenção de
trazer à tona um personagem jocoso, mas o atual presidente se tornou a saída para a moralização da política e o fortalecimento do discurso a favor da valorização dos costumes e do conservadorismo.

Esses exemplos podem ser considerados dispositivos que se configuram como consideráveis centros de produção de sentido. É aqui que as representações sociais de aversão a esquerda marcam o pensamento social e atingem boa parte da população. É só ligar os pontos: grupos da Lava Jato são ligados a grupos de direita, que vão as ruas desde 2013 e tiveram como principal alvo a presidente Dilma. E com a saída da petista, outros grupos ganharam protagonismo contra a corrupção como os militares e
evangélicos.

Foi a tempestade perfeita que ajudou no crescimento da extrema direita, na qual a
atuação do PT pode ter ajudado – com o petrolão, mensalão, e a política econômica
frágil -, mas diante da ordem do discurso não pode ser considerada protagonista, e
muito menos a vítima de todo o processo de construção que levou a extrema direita ao
poder.

Em todo caso associar o PT ao autoritarismo é negar que esses mecanismos citados não
ajudaram a eleger Bolsonaro. É como se os discursos políticos realizados pelo Partido dos Trabalhadores também não fizessem parte de outras legendas no decorrer da história da redemocratização do país. É como se outras siglas não tivessem personagens
investigados em casos de corrupção, como se tivesse num segundo grau de importância.

A responsabilidade do extremismo da direita é de diversos grupos sociais que utilizaram
estratégias para se tornarem os protagonistas na cena política. E agora a máquina de
ódio é a reprodução do poder do Brasil.