Acuado, Jair Bolsonaro reage contra CPI da Covid

Nesta semana, a CPI da Covid no Senado tomou o controle da narrativa política em Brasília e deixou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) acuado. Como é habitual do chefe do Executivo em contextos desfavoráveis, a retórica se tornou uma arma de tentativas de demonstração de poder e de criação de cortinas de fumaça. Numa de suas declarações inflamadas, sugeriu, na última quinta, que a China criou a Covid-19, que poderia se tratar de uma “arma biológica”. No mesmo dia, ele negou que tenha se referido ao país asiático, mas o estrago diplomático causado pelo episódio fez com que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), tivesse que agir como bombeiro, uma vez que a China fornece matéria-prima para produção da Coronavac, imunizante mais difundido no País até o momento. Ontem, o democrata convidou o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, para uma visita ao Senado “para adensar a parceria estratégica global entre os nosso países”. 

“Com declarações assim, Bolsonaro se capitaliza diante da sua militância orgânica. Ele usa uma tática assertiva negativa, para uma audiência faz um discurso, à tarde nega que tenha falado da China. É um cinismo próprio dos políticos”, afirma o cientista político e professor da Faculdade Damas Elton Gomes, frisando que a declaração contra a China desgasta o presidente, mas estrategicamente também desgasta o governador de São Paulo, João Dória (PSDB), viabilizador da produção da Coronavac pelo Instituto Butantan. 

Também na quinta, o presidente afirmou, em recado ao presidente do TSE, ministro Roberto Barroso, que sem voto impresso não haverá eleição em 2022, retomando a prática de colocar em xeque por antecipação o formato eleitoral que já o elegeu em 2018. "É uma agenda dos apoiadores dele, mas o voto impresso não é uma prioridade para o País, racionalmente não faz sentido. Mas agora ele traz novamente, quer colocar em xeque, desde já, a legitimidade do processo", interpreta Priscila Lapa, cientista política e professora da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda. 

A CPI que já interrogou o atual e dois ex-ministros da Saúde tem incomodado o presidente. Ontem, ele pediu que a comissão “não encha o saco”, em referência aos questionamentos em torno da cloroquina. A instabilidade ainda foi incrementada pelo vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), figura que já há algum tempo não conta com a confiança do núcleo bolsonarista, que afirmou, ontem, que o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, "não pode se furtar a comparecer" na CPI. Ele ainda acrescentou que a escolha do general da ativa por Bolsonaro para ser ministro da Saúde "foi uma decisão de risco". Ainda no contexto da CPI, o governo recorreu à Abin para investigar adversários políticos em diversos estados, reforçando a intenção do Planalto de antagonizar as acusações contra o Governo Federal com investigações contra governadores e prefeitos.

Impacto incerto

No entendimento do cientista político Alex Ribeiro, a conjuntura geral leva a gestão de Bolsonaro a ficar contra a parede. "O governo está em turbulência. E outras mais devem ocorrer no decorrer da CPI. Como as negociações com membros independentes da CPI não vingaram e o prosseguimento da crise econômica e sanitária, é possível considerar que o governo está acuado", avalia.

Priscila Lapa pondera que a CPI tem durabilidade de impacto na agenda política ainda incerta. “Algumas falas da CPI mostram que a centralidade do processo é Bolsonaro, por mais que ele tente mostrar que não está no centro do debate. Porém, qual a perspectiva de durabilidade? As pessoas cansam de temas e há interesse dos oposicionistas de esticar a corda, estender a CPI o máximo possível, uma vez que os acontecimentos da CPI podem afetar as alianças para 2022. O depoimento de Pazuello nesse sentido é decisivo, pode comprometer demais o governo”, sublinha.

Já para Elton Gomes, a comissão não tem capacidade de trazer implicações eleitorais definitivas ao presidente. “A CPI é um processo eminentemente político, disputa de narrativas entre governo e oposição. De modo geral, a menos que surja um fato político extremamente grave, isso não tende a desequilibrar a relação de força que já existe. O governo se desgasta, mas não perde sua militância orgânica, o eleitor mediano não se deixa influenciar pelos resultados da CPI”, acrescenta Gomes.

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