Criação de comitê visa dar recado político diante da crise da Covid-19

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou a criação de um comitê para coordenação de ações de enfrentamento à pandemia da covid-19. O informe aconteceu logo após a realização da reunião entre a cúpula de poderes convocada pelo presidente e realizada no Palácio da Alvorada na manhã desta quarta-feira (24).

Estavam presentes os presidentes da Câmara e do Senado, respectivamente Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG), ministros, governadores e representantes de outros poderes. O objetivo era discutir ações de enfrentamento à pandemia da Covid-19. De acordo com o cientista político e professor da Faculdade Damas, Elton Gomes, o encontro desta quarta acontece num contexto político ao qual o ex-presidente Lula (PT) tem sua imagem fortalecida para a disputa pela presidência em 2022. Além disso, o agravamento da crise sanitária, epidemiológica e econômica também tem contribuído para que Jair Bolsonaro adote um discurso mais enfático de enfrentamento ao vírus.

Gomes lembra que é natural que o discurso de líderes "populistas" seja regularmente modificável para acenar ambiguamente ao seu eleitorado e à sua base política. "Esse diálogo que o presidente estabelece com os poderes é fundamental. Apesar de ter vindo atrasado, é o que pode propiciar algum tipo de coordenação política para que o governo dê uma resposta à crise pandêmica. Veremos se isso será suficiente e se essa estratégia do presidente de ganhar tempo enquanto o auxílio emergencial ajuda os informais e o aumento da produção local de vacinas faz com que tenhamos o achatamento da curva de contágios e de óbitos. E aí a gente vai ver se isso dá ou não dá ao presidente condições políticas mais favoráveis porque hoje, diante do número recorde de mortes, das recentes decisões da suprema corte, que declararam não apenas a nulidade do processo, como também a suspeição juiz Sérgio Moro, também o presidente sofreu algumas derrotas políticas importantes diante dessas novas circunstâncias", analisou o especialista sobre a mudança de postura do presidente.

Na avaliação da cientista política Priscila Lapa, a realização da reunião desta quarta foi o resultado da pressão política sobre o presidente. "Ele literalmente foi conduzido e não conduziu esse processo. A realidade, sim, se impôs de forma muito dura. A pressão foi muito além da opinião pública. Veio dos setores produtivos, das instituições, da base governista no Congresso. O presidente está visivelmente acuado. Apesar disso, não deixa de ser um passo importante", avalia Lapa.

Ainda de acordo com a cientista política, o presidente deve agir para reverter sua imagem sobre a gestão da pandemia no Brasil. "O centrão tem colocado como a última chance porque de fato não há mais tempo e espaço para erros e negacionismo, dada a gravidade da crise. No final, a linha de raciocínio dos governadores se mostrou a única possível. Ele pode reverter ganhos políticos em cima disso, mas os resultados na ponta precisam aparecer. E rápido", concluiu.

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