[Entrevista] Pesquisas eleitorais são aliadas do eleitor

Ao finalizar a apuração das urnas no Recife, no segundo turno do pleito, o percentual de votos válidos de João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT) diferiu das projeções realizadas por quatro institutos de pesquisa na véspera do pleito. Enquanto os levantamentos apontavam 50% para cada candidato, os concorrentes à Prefeitura do Recife obtiveram, respectivamente, 56,27% e 43,73%. Em números de votos, o socialista teve 447.913 chancelas, contra 348.126 da petista, o que representa uma diferença de 99.787. A diretora do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe),  Marcela Montenegro, explica nesta entrevista o que acontece entre as projeções levantadas pelos estudos de intenção de voto e o que realmente o eleitor escolhe na hora em que está diante da urna. O Ipespe é o instituto responsável pelas pesquisas de intenção de voto divulgadas pela Folha de Pernambuco, durante as eleições. 

 

ual a importância das pesquisas para as eleições?
As pesquisas de opinião pública fazem parte do processo democrático das eleições. Elas levantam as opiniões e intenções de voto dos eleitores num dado momento e ao serem divulgadas municiam a sociedade com informações que se somam ao arsenal de outros elementos para fundamentar a decisão do voto. 

Os números deste ano, de vários institutos, mostravam um empate numérico no segundo turno no Recife. Resultado bem diferente do que as urnas mostraram. A que pode ser atribuído esse cenário?
Para entender a divergência entre os resultados das pesquisas de intenção de voto e as urnas é fundamental considerar alguns aspectos. O primeiro deles é que as pesquisas eleitorais correspondem a um retrato das atitudes dos eleitores, no caso, as intenções de voto, no momento da sua realização,  e não são prognósticos dos resultados eleitorais. Um segundo aspecto de ordem metodológica é o desvio de percepção pelo enfoque nos votos válidos que discrepam mais das pesquisas devido à margem de comparecimento. Assim, para analisar as eleições e seus resultados temos que comparar os totais. Em terceiro lugar, devemos chamar atenção para o papel decisivo da alienação que é o agregado da abstenção e mais os votos brancos e nulos. Essa taxa de não comparecimento foi recorde nessa eleição e nela reside, principalmente, a explicação das discrepâncias. Note-se que as pesquisas são representativas de todo o eleitorado e não conseguem captar a abstenção, na medida em que os respondentes se sentem intimidados a revelar um comportamento ilegítimo já que o voto no Brasil é obrigatório. 

A pesquisa vinha sinalizando uma tendência de crescimento nos votos brancos e nulos, o que se confirmou no resultado das urnas. Isso pode ter influenciado para a diferença de votos entre João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT) no resultado final?
Com certeza foi a alienação (abstenção + votos brancos/nulos) que definiu a disputa acirrada no segundo turno que as pesquisas retratavam. Nas últimas pesquisas divulgadas em Recife por exemplo, a “não resposta” que poderia indicar uma possível abstenção variou entre 2% e 4% entre os diversos institutos, e nas urnas a abstenção foi de 21%. Alguns especialistas estão comentando que isso pode significar, na prática, a adoção pelo eleitor do voto facultativo no país. Os institutos de pesquisa terão um grande desafio pela frente, para entender e conseguir mecanismos de mensuração dessa abstenção, e assim reduzir as discrepâncias entre os resultados, baseados no total do eleitorado. Este majoritariamente declara nas pesquisas a intenção de  comparecer para votar, mas o comportamento efetivo não confirma esse comparecimento. Mesmo nos Estados Unidos, onde o voto não é obrigatório, 13%, um em cada oito eleitores que dizem que irão votar, não compareceram. 

Há como ser mensurada a mudança de intenção de voto do eleitor na última semana antes de um pleito?
As pesquisas medem “atitudes” e “intenções”; as mudanças nisso podem e são mensuradas nas pesquisas sim. Mas o que as pesquisas não conseguem captar, obviamente, são as mudanças de comportamento que só se revelam no voto depositado nas urnas. A pesquisa do Ipespe, por exemplo, se deu antes do Debate, a dois dias da eleição. Como comentado acima, a candidata Marília Arraes foi mais prejudicada pela abstenção no segundo turno do que João Campos. A análise dos dados das pesquisas no cotejo com os resultados eleitorais possibilita afirmar que muitos eleitores de “direita” (que votaram em Mendonça e Delegada Patrícia no primeiro turno) não confirmaram nas urnas a “hipótese de voto” na candidata petista, prevalecendo o antipetismo sobre o antigovernismo. Lembrar inclusive que na véspera da eleição houve uma intensa campanha nas redes sociais por parte de lideranças do centro-direita incentivando o voto branco/nulo e a abstenção.  
Com isso constatamos que a votação de Marília foi praticamente igual à de João Paulo (PT) no segundo turno de 2016. 30% dos votos totais nos dois momentos. Ela teve agora 348 mil votos, ao passo que João Paulo obteve 334 mil. Ela só conseguiu acrescer 14 mil votos. Ou seja, um ponto percentual do total de votos. No segundo turno eleitores da direita em grande medida engrossaram a “alienação”, que chegou no Recife a inéditos 31%.

Mendonça Filho e Patrícia Domingos defendem que pesquisas não possam ser divulgadas 15 dias antes da eleição. O que acha dessa posição?
Concordar com essa posição seria suprimir o direito do eleitor de se informar e ter elementos para refletir e discutir sobre pontos fundamentais nas eleições, como as intenções de voto, o nível de rejeição, o conhecimento e a avaliação do plano de governo dos candidatos, entre outros. Lembrar que candidatos e partidos fazem pesquisas até as últimas horas antes da votação. Por que subtrair aos eleitores o direito de ter acesso também a essas informações? 

As pesquisas que deram empate entre João e Marília nas vésperas do segundo turno foram feitas de forma diferente, por telefone ou presencialmente. Qual a diferença entre essas duas formas de coleta de dados?
As diferenças entre as metodologias não devem afetar os resultados, dentro das margens de erro, pois existem as cotas pré-definidas e eventuais distorções na representatividade amostral são corrigidas através de algoritmos de ponderação que reequilibram o perfil da amostra proporcionalmente ao universo do eleitorado (com base em dados oficiais do TSE e do IBGE). As pesquisas do Ipespe foram telefônicas, consideradas as mais adequadas a esse momento da pandemia, e com checagem das entrevistas em tempo real. As entrevistas são realizadas com abordagem através de telefones fixos e celulares, possibilitando o acesso a pessoas de diferentes idades, classes socioeconômicas, residentes em casas e apartamentos, e áreas de mais difícil acesso. Nos EUA foram realizadas este ano centenas de pesquisas sobre a eleição presidencial. Nenhuma, repetindo, nenhuma foi presencial.
 
A margem de erro e o percentual de confiança traduzem o quê em uma pesquisa?
As margens de erro significam que os resultados, de acordo com as faixas dos percentuais e com o tamanho das amostras, podem variam alguns pontos para mais ou para menos em relação aos números verificados. Os resultados de uma pesquisa devem ser interpretados dentro de um intervalo de confiança que estabelece limites em torno da estimativa obtida, sendo o mais usual de 95%. Significa dizer que, considerando o mesmo modelo amostral, se 100 amostras forem extraídas da população, em pelo menos 95 delas o índice deste candidato deverá variar dentro de uma faixa, nos limites das margens de erro, mas em 5 os resultados serão diferentes deste intervalo. Esses princípios, derivados da Teoria da Probabilidade e da Lei dos Grandes Números, são utilizados em todo o amplo leque de pesquisas cientificas nas mais diversas áreas. Exemplo: testagem de remédios em animais ou seres humanos seguem esses mesmos princípios.

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