[Opinião] Bolsonaro relativiza a ditadura. A história não permitirá

Alex Ribeiro - Divulgação Facebook

Por Alex Ribeiro, doutorando em História Política pela Universidade Federal da Bahia, cientista político pela UFPE, e jornalista.

Aos 98 anos, Elzita Santa Cruz foi aplaudida de pé durante a sessão da Comissão Estadual de Memória e Verdade Dom Helder Câmara (CEMVDHC) realizada em agosto de 2012, no Recife.

O encontro era para discutir o caso do desaparecimento dos estudantes Fernando Santa Cruz, filho de Elzita, e Eduardo Collier, que foram militantes da Ação Popular (AP), organização de resistência armada ao regime militar. A ditadura, apreciada pelo presidente Jair Bolsonaro, ocorreu no Brasil entre os anos de 1964 e 1985.

O pernambucano Fernando Santa Cruz desapareceu no dia 23 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro, um sábado de carnaval. Segundo o livro Direito à Memória e à Verdade, lançado pelo Governo Federal em 2007, ele foi preso, torturado e assassinado pelos membros da ditadura aos 25 anos recém-completados, deixando um filho de um ano e oito meses, o atual presidente da Ordem de Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz.

O ativista político tinha endereço e emprego fixo e, ao contrário de uma das versões da época, ele não atuava na clandestinidade. O Estado brasileiro não reconheceu a sua prisão no período e o caso nunca chegou a ser concluído. Elzita Santa Cruz acabou falecendo em 2019, aos 105  anos. Sua procura incessante sobre o filho rendeu o livro “Onde Está Meu Filho?”, lançado em 2011.

Diante das investigações que perduraram por quatro anos, a Comissão da verdade revelou, fortalecido pelo depoimento do ex-delegado Cláudio Guerra, que o corpo de Fernando foi incinerado na Usina Cambahyba, em Campo dos Goytacazes, no Rio de Janeiro.

Para Jair Bolsonaro, a própria Ação Popular foi culpada pelo desaparecimento do filho de Elzita. Segundo ele, a esquerda executava aqueles que não tinham mais sua confiança. O presidente afirmou que colheu essas informações com militares da época. Detalhe: ele só tinha 18 anos quando Fernando Santa Cruz desapareceu.

Em contraponto as declarações de Bolsonaro, um relatório da Marinha de 1993 foi entregue ao então ministro da Justiça Maurício Corrêa confirmando que Fernando Santa Cruz estava sob custódia do Estado até o seu desaparecimento. Em outro documento, o relatório secreto RPB 655, do comando Costeiro da Aeronáutica, atesta que o estudante foi preso pelo regime militar em fevereiro de 1974.

Ou seja, Bolsonaro cria versões, narrativas, para defender o regime militar que sempre
exaltou. Para ele, a esquerda é tão culpada quanto os militares pelos assassinatos e
desaparecimentos que ocorreram no período. Usando o velho discurso de “terroristas contra o Brasil”, o presidente “esquece” que o Estado é que agia como terrorista ao censurar, prender, torturar e matar seus opositores, qualquer um que o seja, sendo comunista ou de qualquer tipo de movimento contra a ditadura.

Bolsonaro também ataca a credibilidade da Comissão da Verdade, atrelando a sua existência a ex- presidente Dilma Rousseff, uma das pessoas presas no período ditatorial. Sua tática agora é substituir membros da Comissão Especial sobre Mortes e Desaparecidos Políticos pelo Governo Federal. O colegiado que foi criado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1995, agora conta até com apreciadores do Coronel Alberto Brilhante Ustra, um dos principais responsáveis pela tortura e morte de opositores ao regime militar.

O método adotado por Bolsonaro, sendo proposital ou não, provoca e ataca seus opositores com provocações, atrelando a estes o “lado errado da história”. Palavras como terroristas, inimigos da nação e subversivos são utilizadas aos seus críticos. Os admirados do presidente compartilham sua opinião e acaba fortalecendo seu discurso. Para Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de “Como as democracias morrem”, essas afirmações polarizam a sociedade e criam um clima de desconfiança mútua.

Apesar das várias versões inventadas, a ciência escancara quem as tenta corromper. E
relativizar a ditadura, feito por alguns analistas e apreciadores do presidente, só confirma que o conhecimento histórico esclarece os erros da memória, principalmente diante daqueles que a querem deturpar.