Pandemia: um ano de caos e o risco de um colapso

Pascal Guyo/AFP

Exatamente um ano depois do anúncio do primeiro caso oficial de Covid-19 do Brasil, o País registrou 1.582 mortes em 24 horas, recorde desde o início da pandemia, de acordo com o consórcio de veículos de imprensa. Neste cenário, doze estados, além do Distrito Federal, estão com mais de 80% das UTI’s lotadas e alertam que episódios de colapso sanitário, como o ocorrido em Manaus (AM), em janeiro, tendem a se repetir. 

O governador da Bahia, Rui Costa (PT), foi enfático: “A saúde vai colapsar e o Brasil mergulhará no caos em duas semanas”. Em Santa Catarina, comunicado da Secretaria de Saúde aos prefeitos alerta que o estado “está entrando em colapso”. No Paraná, de acordo com a pasta da Saúde, o “colapso é iminente”.

Arita Bergmann, secretária de Saúde do Rio Grande do Sul, disse estar “enxergando o pico do Everest”, em referência ao número de casos. O temor traz de volta medidas similares às implementadas no começo da pandemia. O estado da Bahia aplica lockdown neste final de semana e há “toque de recolher” em estados como São Paulo, Piauí e Pernambuco. O "paciente zero" foi o primeiro marco de uma lamentável escalada de infectados e mortos. 

Em maio, o Brasil atingiu o seu primeiro pico, ultrapassando a marca de mil óbitos diários pela primeira vez. Evento que se tornou corriqueiro. O número total de óbitos ultrapassa 250 mil, equivalente a 10% das mortes geradas pela pandemia no mundo. Neste cenário, a imunização, em ritmo vagaroso, não alcançou ainda 4% dos brasileiros. 

Filipe Prohaska, infectologista do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, frisa que é justamente ela que pode amenizar o cenário. “Acredito que vai haver uma aceleração na imunização grande e vai ter impacto positivo. Em setembro e outubro podemos ter melhoras nos números diários e talvez começar 2022 numa situação melhor do que começamos 2021”, avalia.

Ele acrescenta que um dos motivos para o cenário atual foi o “total ostracismo à ciência”, gerado pela ausência de termos de condutas bem solidificadas “de cima para baixo”, começando na OMS e passando pelo Ministério da Saúde e conselhos de medicina. “Se deixou de lado a ciência e mistificou a situação, na crença de que vai ter solução milagrosa. O que a gente precisa hoje é muito mais consolidar protocolos rígidos de segurança, somados aos protocolos clínicos para os pacientes que estão com a doença”, pontua.

“Várias pessoas-chave desse processo, desde presidente da República até médicos, não encamparam o combate à pandemia. Não vestiram a camisa do combate”, sublinha o cientista e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Jones Albuquerque. Ele vaticina que o mundo como conhecíamos mudou de forma definitiva. “Existe o mundo antes do corona e depois do corona. Outro mundo. Nesse novo mundo temos que nos antecipar ao vírus, mas ele ainda está muito mais rápido que a gente. Temos mais variantes do que armas de combate”.

Crescimento contínuo

O número de casos, em Pernambuco, de síndrome respiratória aguda grave apresenta tendência de aumento, de acordo com a Fiocruz, que coloca o estado com percentual entre 75% e 95% de chance de crescimento de casos. Ontem, o secretário estadual de Saúde, André Longo, destacou que Pernambuco “permanece com um quadro de estabilidade, com tendência de crescimento”.

“Vemos uma aceleração lenta, mas ainda em níveis altos e preocupantes. E mais que isso, observamos, ao longo da última semana, uma pressão maior sobre a rede de saúde”, disse, frisando que, em alguns momentos do dia, regiões pernambucanas, como o Agreste, atingem a ocupação total de leitos. Na rede estadual, a ocupação chega a 90%.

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