Saída de comandantes das Forças Armadas deixa relação estremecida, mas sem rompimento

Em um movimento inédito, os três comandantes das Forças Armadas entregaram os seus cargos por não concordarem com o presidente da República. O Atrito com Jair Bolsonaro por conta da demissão do general da reserva Fernando Azevedo e Silva da Defesa - que resistia em alinhar as Forças Armadas à defesa política do governo. Em reunião, ontem, com o novo ministro da Defesa, general Braga Netto, foram informados que já estariam demitidos por ordem de Bolsonaro, culminando na maior crise na Defesa desde a demissão do então ministro do Exército, Sylvio Frota, em 1977, pelo presidente Ernesto Geisel. 

Para o cientista político Elton Gomes, professor da Faculdade Damas, a crise chegou a esse nível por Bolsonaro insistir no erro de tratar os militares como um partido da base de apoio ao seu governo.

“Os militares foram agraciados com vários cargos no governo. Há militares na Sudene, na Fiocruz, no MEC. Havia até pouco tempo um general da ativa, Eduardo Pazuello, na pasta de maior orçamento, a Saúde. Mas o presidente cometeu um erro de tratar as Forças Armadas como partido político, como se por ter cargos, os militares devessem sair em defesa do governo, dar declarações públicas de apoio”, afirma. Gomes acrescenta que o general Edson Pujol, até ontem comandante do Exército Brasileiro, sempre fez de tudo para impedir que essa lógica esperada por Bolsonaro ocorresse. 

“A relação de Bolsonaro com as Forças Armadas é unilateral. Bolsonaro deu poder e cargos aos militares, mas as Forças Armadas não puderam dar o poder que ele queria, que é de tê-las como garantidoras do governo”, acrescenta. 

O cientista político Alex Ribeiro sublinha que o presidente tentou aprofundar os laços políticos com as Forças Armadas como forma de sobrepor as perdas “de apoios do empresariado e de parte do ‘olavismo’”. “Bolsonaro buscou apoio irrestrito, o que não ocorreu”, avalia.  As movimentações, entretanto, não acarretam crise entre o presidente e as Forças Armadas, na avaliação de Elton Gomes. “Bolsonaro segue com apoio militar expressivo, mas esse apoio não se traduzirá em uma base política de militares”, afirma. 

As movimentações dos militares e de Bolsonaro não sugerem ruptura democrática, crê Alex Ribeiro. Ele aponta que intervenções militares historicamente no Brasil são construídas com sinalizações dos próprios fardados. “Não houve aceno para intervenção (por parte dos militares) mesmo com discursos de Bolsonaro e seus filhos nesse sentido, então é algo que se torna muito improvável”, pontua, ponderando que, apesar de não contar com apoio irrestrito das Forças Armadas, o presidente “tem amparo de policiais militares em diversas partes do País”, mas ainda sem força para partir para o radicalismo.

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