Vereadores do Recife repercutem a Chacina do Jacarezinho

Mauro Pimentel/AFP

As 28 mortes decorrentes de uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro no Jacarezinho, bairro da capital fluminense, foram repercutidas pelos vereadores do Recife, durante a reunião Ordinária remota da Câmara do Recife nesta segunda-feira (10). A operação na comunidade dividiu as opiniões dos legisladores recifenses.

A vereadora Dani Portela (PSOL) refletiu sobre o uso da chamada “guerra às drogas” como forma de o Estado justificar o assassinato de pessoas pobres e negras. “Em plena pandemia, embora o STF tenha suspendido desde junho de 2020 as operações policiais nas favelas do Rio de Janeiro, essa comunidade foi tomada por um trabalho – dito de inteligência – ordenado pelo governador [do Rio] Cláudio Castro”, lembrou Dani Portela ao comentar a chacina, ocorrida na última quinta-feira (6). “A operação, segundo a polícia, teria começado depois do recebimento de uma denúncia de que jovens daquela comunidade estariam sendo aliciados para o tráfico. Foram ao menos nove horas de terror, o que resultou em 28 mortos. Mortes realizadas na frente de crianças, familiares, amigos”.

A vereadora lamentou que a Polícia brasileira ocupe o topo do ranking das polícias do mundo que mais morrem e que mais matam. Ela frisou, ainda, que a morte não pode ser encarada como uma punição.

O vereador Marco Aurélio Filho (PRTB) disse que está preocupado “com a inversão de valores” diante da operação da Polícia Civil realizada na favela Jacarezinho. “Até agora, não vi a imprensa ou casas parlamentares como esta se colocando no lugar da polícia. Em nenhum momento vi ninguém fazendo a defesa da Polícia Civil”, reclamou, na reunião Ordinária virtual da Câmara do Recife nesta segunda-feira (10).

O vereador Dilson Batista (Avante) disse que estava feliz com as palavras de Marco Aurélio Filho. “Você demonstrou o que o cidadão deve sentir. Quando vi a repórter da CNN dizer que do lado de lá morreu só um policial e do lado dela, morreram vários, fiquei sem entender nada. O lado da repórter é o lado do marginal, do bandido. Os que morreram eram marginais. Não vou dizer que houve chacina, mas uma faxina, em Jacarezinho. Eram todos marginais que traficam droga e que atiraram na polícia. Atiraram a sangue frio no policial André Frias, que estava ali não só como um braço do Estado, mas para cumprir sua obrigação de segurança publica”.

O vereador Alcides Cardoso (DEM) também parabenizou Marco Aurélio Filho “pela posição em favor da nossa polícia”. Ele lembrou que, entre os suspeitos mortos, havia um que fez vídeo com armas na mão. “E eram  armas letais”. Alcides Cardoso também criticou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, que proibira operações policiais no interior das favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia. “Isso mostra que realmente os valores estão invertidos”, afirmou.

A vereadora Liana Cirne (PT) manifestou a sua preocupação como esse debate foi colocado “aqui na Câmara por alguns colegas”. Ela ressaltou que foi dita “a expressão faxina, no lugar de chacina, e que a operação só matou bandidos”. Cirne pediu para se refletir sobre “a gravidade do que foi colocado aqui”. Ela também abordou o ponto levantado por Alcides Cardoso, sobre Edson Fachin. “De que adianta um dia apresentar voto de aplauso para desembargadores e depois acusar o Judiciário? Vamos decretar o fechamento do Judiciário? As pessoas já estão condenadas antes de um julgamento?”. A vereadora questionou ainda: “Estão dizendo que eram todos bandidos. Será que só tinha um trabalhador, entre os mortos, que era o policial? Será que a polícia tem licença para matar só porque eram suspeitos? É isso que alguns colegas defendem aqui?”.

O vereador Ivan Moraes (PSOL) criticou a adjetivação de “faxina” em vez de “chacina”, que foi feita durante a discussão. “Aqui na Câmara há parlamentares que estão tratando esse caso como faxina, como limpeza. Mas, eu quero lembrar que nós, quando tomamos posse, juramos defender a Constituição. E quem a defende a Constituição tem que defender o Estado de Direito. Não podemos achar normal ou defender a execução sumária. O que houve foi execução sumária”. Ivan Moraes ressaltou que politicamente pode-se discutir o ocorrido pela ótica do racismo institucional. “As corporações policiais foram formadas para defender uma elite. Policiais negros são colocados em situação de perigo e lutam contra outros negros, que moram em favelas. A guerra contra as drogas é justificada para matar moradores da comunidade, bandidos, policiais e traficantes. Mas uma operação como aquela não ocorre no Leblon ou na Avenida Boa Viagem”.

A vereadora Cida Pedrosa (PCdoB), assim como Ivan Moraes, considerou que “no Jacarezinho houve uma execução sumária, promovida por policiais maus treinados. "Não se pode dizer que  foi uma ação com características de pena de morte. Até porque não temos pena de morte. Mas, até a pena de morte, exige um processo legal para evitar o autoritarismo do Estado”.

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