A torcida é o maior ativo do Santa Cruz
Todas as vezes que eu indagava o mestre Adonias de Moura sobre o comportamento da torcida do Santa Cruz, ele me respondia com a célebre frase do filósofo francês Blaise Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”. Nada melhor para traduzir este fenômeno comportamental que é a torcida tricolor, vista por muitos como exemplo de lógica emocional.
Quem conhece a história do Santa Cruz tem a impressão de que, durante os seus 112 anos de existência, o clube mais popular do futebol pernambucano deu um giro de 360 graus em torno do seu próprio eixo sem sair do lugar: veio do nada, se agigantou e retornou ao nada. Seria assim caso não existisse uma torcida cujo amor incondicional mantém o “gigante” vivo, com o coração pulsando a espera de um antídoto. A fórmula mágica já foi “vendida” diversas vezes frustrando sonhos e ilusões. Mas há sempre uma esperança no ar. Afinal, foi esta torcida, que um dia foi apelidada de poeira, que construiu o seu Mundão, tijolo por tijolo contrariando à lógica, que para muitos era o impossível.
Dias atrás circulou, nas redes sociais, uma foto do saudoso Aristófanes de Andrade acompanhando representantes da CBD em visita às obras do Estádio José do Rego Maciel, no início dos anos 70, no século passado. A imagem do sonho sendo transformado em realidade levou muitos tricolores a lembrar a força motriz que transportou o homem do pensamento para a ação. Sábado, logo após o jogo – Santa Cruz 0x1 figueirense – assisti um vídeo do tetracampeão Ricardo Rocha, um dos maiores zagueiros da história do futebol brasileiro, que desabrochou vestindo a camisa do Santa Cruz, dando um grito de alerta sobre o atual momento do Clube das Multidões, ao mesmo tempo em que deixava no ar um fio de esperança.
Sem revelar o projeto no qual aposta todas as fichas, mas com a certeza de que a resposta será positiva, Ricardo, igual a todos os outros que já passaram e venderam sonhos no Arruda, se esforçava no sentido de assegurar aos 27.393 tricolores presentes a Arena Pernambuco que existem meios de o clube sair do caos. “O clube que tem uma torcida dessa só precisa se organizar”, disse Rocha sob aplausos dos torcedores que lhes cercavam.
Acompanhei, de perto, como repórter, o trabalho da Comissão Patrimonial do Santa Cruz a partir de 1975. A grande diferença, do ontem para o hoje, está no discurso, e na atitude dos homens. Um ex-presidente, em recente bate papo, me disse que não existe diferença. “Os sentimentos são iguais, o que existe é indiferença”. Demorei a captar sua mensagem, mas todas as vezes que passo pela Avenida Beberibe e observo o Estádio do Arruda interditado, fico mais descrente com os vendedores de sonhos. Sigo no aguardo de uma unidade prometida, mas que só é concreta nas arquibancadas. Assim é o Santa Cruz com o seu passado de glórias e um futuro cada vez mais incerto.


