Qual é exatamente a diferença entre ser sócio ou dono de uma empresa familiar?

Empreendedorismo - arquivo

Continuamos em nossa série abordando algumas temáticas fundamentais neste tempo de grandes mudanças aceleradas pela pandemia COVID19 como: Gestão de Riqueza, Filantropia de Impacto, Responsabilidade Social Corporativa - Corporate Social Responsibility (CSR)/Governaça Socioambiental - Environmental, Social, and Governance (ESG), Governança e Sucessão Familiar e finalmente Internacionalização de Start-ups .

Convidamos o consultor Thomas Lanz*, que tem larga experiência nacional e internacional para conversamos sobre estes temas.
 
Qual é exatamente a diferença entre ser sócio ou dono de uma empresa familiar? 

Thomas Lanz: Imaginemos um empreendedor que a partir de uma ideia de um produto ou serviço monta o seu próprio negócio. No início, talvez a própria casa será a sede da empresa que, ao longo do tempo, irá crescer. No começo há grande sobreposição entre o que é particular, familiar e a empresa. O caixa, por exemplo, pode ser único. O negócio não paga aluguel para o próprio fundador pelo espaço ocupado e assim em diante. Aos poucos, a empresa vai crescendo, alguns funcionários são contratados e o fundador, de forma intuitiva, vai administrando a atividade.

Tudo ainda corre dentro de uma certa informalidade. O empreendimento carece de relatórios e o termômetro do andamento da atividade empresarial é medido pelo saldo de caixa. Este, em geral, regula o que pode ser ou não pode ser gasto para manter o todo funcionando e crescendo. Este mesmo caixa sustenta os gastos familiares. O carro do dono também é utilizado para o negócio, insumos podem ser utilizados para fins particulares e assim por diante. Não existe uma divisão entre o particular e o empresarial. As coisas se entrelaçam tanto para o fundador como para seu cônjuge e filhos. Para eles, também é natural usufruir das coisas da empresa como se fossem suas.  

A empresa vai crescendo e o fundador precisa agora departamentalizar o negócio, criar cargos e responsabilidades com níveis de autoridade bem definidos, administrar por processos etc.
 
O caixa por exemplo não pode mais ser único. No momento que o relatório da movimentação financeira mostrar que recursos são destinados a gastos ou investimentos familiares, o dono da empresa irá perceber que aquilo que é destinado à família deverá se originar de honorários ou distribuição de lucros. O veículo da empresa também não deverá mais ser utilizado pela família e assim por diante.

Aos poucos a pessoa jurídica que há muitos anos não funciona mais na casa da família, irá impor os seus limites e as regras de convivência entre família e empresa.  Regras de funcionamento   entre família, negócio e propriedade precisam ser criadas.  Talvez seja o momento apropriado de se buscar auxílio externo e desenvolver protocolos que irão disciplinar o relacionamento entre família e a pessoa jurídica da qual o fundador é cotista. Por exemplo, protocolos que estabelecerão regras de distribuição de lucros, remuneração de sócios e seus familiares ou utilização de bens e serviços da empresa demarcarão exatamente o que é permitido ou não. Se as regras forem seguidas e respeitadas pelos membros da família, estaremos falando de sócios, que se respeitarão entre si e seguirão o que combinaram em conjunto quando criaram os protocolos. 

Podemos traçar um paralelo com a profissionalização de uma empresa. No momento em que os membros de uma família agem como sócios do negócio respeitando - o como uma pessoa independente podemos tranquilamente dizer que a empresa está profissionalizada.  
Infelizmente temos observado muitas empresas familiares onde os sócios e suas famílias se consideram simplesmente donas de seu negócio.  Regras não são obedecidas e respeitadas gerando conflitos e desordem; empresas são descapitalizadas em prol do enriquecimento particular em prejuízo dos negócios;  busca-se fortalecer a imagem da família por pura vaidade em detrimento do fortalecimento da imagem institucional: a estrutura organizacional não é respeitada havendo intromissão de familiares alheios ao negócio em sua gestão. 

Cabe ao fundador da empresa ter por objetivo estratégico transformar sua família em sócia do negócio que fundou. Isto requer disciplina e respeito às regras de jogo semeadas ao longo dos anos. Cabe ao Conselho, no presente ou no futuro quando for criado, dar continuidade a esse processo. Sem isto, a empresa pode desaparecer.

Veja também

Senado: Flávio Bolsonaro representa contra Kajuru no Conselho de Ética
Atrito

Senado: Flávio Bolsonaro representa contra Kajuru no Conselho de Ética

UFPE publica edital de matrícula relativo ao SISU 2021 com novo cronograma
Graduação

UFPE publica edital de matrícula relativo ao SISU 2021 com novo cronograma