Medicina e fé: a busca pela imortalidade

A medicina moderna busca prolongar a vida humana, mitigando doenças e aumentando a vitalidade

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Para os cristãos, a Páscoa é uma das festas mais importantes e significativas do calendário religioso. Ela celebra a ressurreição de Jesus Cristo dos mortos, conforme descrito nos Evangelhos do Novo Testamento da Bíblia, oferecendo perdão e reconciliação aos seres humanos. Através dela, a humanidade é reconciliada com Deus e recebe a promessa da vida eterna. Essa ideia transcende o âmbito espiritual e se conecta de maneira interessante com a busca pela imortalidade na medicina contemporânea. Assim como a fé religiosa oferece uma visão de imortalidade através da ressurreição, a medicina moderna busca prolongar a vida humana, mitigando doenças e aumentando a vitalidade. Ambos os campos, de certa forma, aspiram à transcendência da mortalidade humana.

Nesse contexto, vale citar o transumanismo, movimento cultural, intelectual e filosófico que promove a utilização da tecnologia para aprimorar as capacidades humanas, tanto físicas quanto mentais com ideias e perspectivas que divergem das abordagens tradicionais religiosas. Para os transumanistas, a imortalidade humana não é vista como uma questão de fé ou transcendência espiritual, mas sim como um objetivo alcançável por meio do avanço da ciência e da tecnologia. Eles acreditam que, com o desenvolvimento de técnicas como a engenharia genética, a nanotecnologia, a inteligência artificial e a criogenia, será possível prolongar indefinidamente a vida humana ou até mesmo alcançar a imortalidade biológica.

Para além da questão biológica, já se fala em imortalidade digital, com a transferência da mente humana para substratos digitais, como computadores ou redes neurais artificiais, permitindo a continuidade da consciência e da identidade além da morte do corpo físico. Essa prática fez surgir a categoria dos neurodireitos, como forma de proteção da mente humana diante dos avanços da neurotecnologia, para garantir a autonomia, a privacidade e a dignidade das pessoas. 

Outras práticas como criogenia e ressuscitação, na qual os corpos são congelados após a morte na esperança de serem reanimados no futuro, quando a tecnologia permitir, também vêm sendo implementadas. E não pensem que é ficção: temos até julgados a respeito da temática no Brasil, como por exemplo, o Recurso Especial nº 1693718, do STJ, no qual se discutiu justamente a divergência entre filhos quanto ao sepultamento ou criogenia do corpo do pai para ressuscitação futura.

Na medicina, avanços significativos e investimentos bilionários têm sido feitos para estender a longevidade e melhorar a qualidade de vida. Desde tratamentos para doenças crônicas até terapias genéticas inovadoras, os cientistas estão constantemente desafiando os limites da mortalidade. 

Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), a população de centenários no planeta é de cerca de 722 mil pessoas, com a perspectiva de que esse número chegue até 4 milhões, em 2054. 
Para os pesquisadores que defendem a possibilidade da imortalidade, como o britânico Aubrey de Grey, os cem anos são apenas 10% do potencial de prolongamento da vida. Grey aposta em tratamentos com células-tronco e em técnicas de edição genética, como o sistema CRISPR, capaz de “editar” qualquer molécula de DNA em um local predeterminado, afastando “falhas” que possam interferir na longevidade. Ele não está sozinho. O professor de genética e pesquisador da Universidade de Harvard, George Church, o biólogo molecular William Andrews, fundador da Sierra Sciences e professor da Universidade de Boston, o ex-engenheiro do Google Ray Kurzweil defendem, respectivamente, que terapias genéticas, pílula da imortalidade e nanotecnologia serão capazes de consertar os danos celulares provocados pelo envelhecimento, tornando-nos imortais.

De outro lado, o neurobiologista e ex-presidente-executivo do British Medical Research Council Colin Blakemore não acredita nessa possibilidade e até a considera “um desastre para a humanidade e para o planeta”. Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Pesquisas sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP), expoente da genética mundial, considera promissoras as descobertas científicas para a longevidade humana, mas não entende que a busca da imortalidade deva ser a finalidade precípua da pesquisa, mas sim a qualidade de vida. Ela explica que a influência da genética na longevidade se torna mais evidente a partir dos 90 anos: antes disso, a questão do envelhecimento depende 80% do ambiente em que a pessoa está inserida. 

É crucial lembrar que essa busca desenfreada e relutância em aceitar a morte, pode levar à obstinação terapêutica, também conhecida como "futilidade terapêutica" ou "tratamento obstinado", que se refere a uma prática médica na qual são realizados procedimentos invasivos ou tratamentos intensivos em pacientes gravemente enfermos, mesmo quando esses tratamentos não oferecem benefícios significativos ou não têm chance razoável de sucesso. 

Além das questões científicas, a busca pela imortalidade médica levanta questões éticas complexas e dilemas filosóficos sobre a natureza da vida, identidade pessoal e o significado da existência. Enquanto a imortalidade de Jesus é fundamentada na fé e na esperança espiritual, a imortalidade buscada pela medicina é ancorada na ciência e na tecnologia. No entanto, ambas as perspectivas refletem um desejo humano profundo de transcender os limites temporais e desafiar a inevitabilidade da morte. 

É importante reconhecer que, apesar dos avanços na medicina, a imortalidade no sentido literal ainda é uma utopia. No entanto, a busca por uma vida mais longa e saudável continua a inspirar inovações e descobertas médicas que beneficiam a humanidade como um todo e que mostram como as nossas escolhas influenciam nesse processo. 

Em última análise, tanto a imortalidade espiritual quanto a busca pela imortalidade na medicina refletem a busca humana universal por significado, esperança e uma maneira de transcender nossa condição finita. A consciência da finitude da vida nos leva a valorizar cada momento presente e a viver com intensidade e gratidão, com o desafio de considerar o impacto que temos sobre o mundo e sobre aqueles que nos rodeiam. Ela nos motiva a buscar justiça, compaixão e amor ao próximo, sabendo que nossas ações têm consequências que reverberam além da nossa existência terrena. Portanto, mais importante que se preocupar com a imortalidade, é focar na qualidade das nossas ações e no propósito da vida finita que verdadeiramente enriquecem e dão sentido à nossa jornada terrena. 

Paz, amor, bem e fé em Deus! Feliz Páscoa!
 

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