Seg, 14 de Setembro

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Duda Menezes

A urgência em salvar os livros

A destruição em massa de livros físicos e raros

Foto: Duda Menezes

“É o nosso esforço para escanear de forma destrutiva todos os livros do mundo (…) não queremos que saibam que estamos trabalhando nisso”. Parece uma frase de distopia clássica, mas é pura realidade e já está sendo feito. A declaração foi encontrada nos arquivos vazados do Projeto Panamá e veio à tona no caso da Anthropic, uma das maiores empresas de inteligência artificial do mundo, com total capacidade de colocar a ameaça em prática.

Para treinar sua IA, foram comprados milhões de livros, incluindo volumes únicos, raros e antigos. O volume foi tão alto, e as compras tão fora do comum, que acenderam alertas em livreiros ao redor do mundo. Os livros foram escaneados e destruídos. Antes disso acontecer, a empresa já havia sido condenada na justiça norte-americana em um processo bilionário por baixar milhões de exemplares em sites pirata para treinar o Claude, seu assistente virtual.

Conhecimento é poder, e grandes empresas sabem disso. Em Fahrenheit 451, clássico distópico de Ray Bradbury, os livros são destruídos em massa, e só foi possível por aceitação tácita. A sociedade perdeu o interesse aos poucos pela leitura e não percebeu o que estava acontecendo até ser tarde demais. Soa mais real do que nunca.

Com o advento da IA, o perigo é ainda maior. Quando os grandes detentores do poder se voltam para livros físicos como ferramenta de ensino com credibilidade, especialmente com a falta dela em vários textos pela internet, e deliberadamente escolhem destruir sigilosamente os traços físicos daquilo, eles passam a obter o controle da informação.

Lombadas rasgadas, livros escaneados e descartados. A sensação é que falhamos como sociedade e o futuro não parece promissor. Ao cidadão comum resta o ato de resistência, falar sobre livros, celebrar livros, comprar livros, apreciar livros, colocá-los no pedestal a qual pertencem, gritar para o mundo sua importância vital. “Deve haver algo nos livros, algo que não podemos imaginar, que faça uma mulher permanecer em uma casa em chamas”, talvez essa cena imaginada por Ray Bradbury sobre um mundo sem livros não soe tão impossível como antes.

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