Qua, 18 de Fevereiro

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Duda Menezes

Muita leitura, pouca interpretação e a pressa que nos adoece

Mais do que nunca é necessário repensar como consumimos o que lemos

Duda Menezes

Nunca se leu tanto. É estranho dizer isso. Basta avaliar o tempo de uso de nossos celulares e às vezes o susto vem forte. Não me refiro a livros, mas ao bombardeio de notícias, posts , vídeos legendados e mensagens que constantemente trocamos, uma relação muitas vezes disfuncional com nossos aparelhos móveis.

É comum ver matérias com comentários questionando coisas que foram ditas, escritas e destacadas no texto em si. A pressa e quantidade de informações a que somos submetidos todos os dias vêm criando uma espécie de leitura dinâmica por parte das pessoas: o texto é lido, mas não absorvido. A leitura é feita, mas não interpretada. 

Em entrevista recente ao Joe Rogan Experience, o ator e roteirista Matt Damon compartilhou sobre uma nova diretriz da Netflix para filmes no streaming: repetir três, quatros vezes o enredo da trama através de diálogos expositivos, pensando no público que assiste aos filmes enquanto usa seus celulares. Indo além, seria necessário uma cena impactante nos primeiros minutos de filme para não dispersar a atenção.

A necessidade de receber tudo mastigado e a falta de paciência em ler um texto completo também refletem a baixa procura por literatura no Brasil e explica porque livros de colorir ou aqueles considerados funcionais (sobre desenvolvimento pessoal, religião, entre outros), estão entre os destaques mais vendidos no país. É a literatura considerada perda de tempo ou relegada a falta de tempo.

Mais do que nunca é necessário repensar nossas relações sobre o que consumimos, como consumimos, e os ciclos viciosos que vão sendo formados. Quando nossa mente não consegue desacelerar e a produtividade é exigida como norma, até como cobrança pessoal, sacrificamos a qualidade do nosso tempo, raciocínio e lazer. Estamos moldando nossas relações com a mídia, leitura e entretenimento. Nunca se leu tanto, mas com tão pouca atenção.

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