O sucesso dos livros de cura em tempos de produtividade excessiva
A literatura de cura vem como um respiro necessário, empático e otimista
Em 2024 eu comecei a ler de forma despretensiosa um livro chamado Bem-vindos à livraria Hyunam-dong, da autora sul coreana Hwang Bo-Reum. Era um grande best-seller desde o lançamento e eu queria uma leitura levinha para passar o tempo. Foi uma surpresa. O livro dialogou muito comigo, disse coisas que eu precisava ler, internalizar e levar pra vida, favoritei de cara. E descobri a literatura de cura.
O que o termo significa? Popularizado do inglês “healing fiction” e adotado no Brasil, são livros de ficção em sua essência acolhedores, focados numa busca pelo bem estar psicológico e emocional, e no exercício da empatia em histórias que priorizam a calmaria pós tempestade. Aquele leve toque de drama faz parte, os personagens passam por momentos difíceis e seguem em frente com alguns aprendizados pelo caminho.
O gênero se popularizou especialmente com livros escritos na Coreia do Sul e Japão, não à toa países conhecidos pelo ritmo acelerado de trabalho, carga horária excessiva e a exigência padrão de uma produtividade do indivíduo que se intensificou ainda mais nos tempos atuais. O burnout é um tema recorrente, assim como recomeços profissionais, maior conexão com nosso entorno e sobretudo um convite à desaceleração.
Qual foi a última vez que você fez algo por si mesmo(a)? Sem maiores exigências ou finalidade específica, apenas puro lazer e contentamento? Esse tipo de literatura não ignora as exigências dos tempos modernos, trabalhos e obrigações, mas tenta ressignificar pequenos momentos do nosso dia e tirar aquele peso da cobrança que muitas vezes vêm de nós mesmos. É impossível dar conta de tudo. Sentar num café e olhar a paisagem não vai resolver os problemas, mas ser gentil consigo mesmo é internalizar que não somos uma máquina e precisamos do famigerado ócio, tão demonizado hoje em dia, ainda que por alguns minutos.
É fácil ignorar os alertas da saúde mental e igualmente fácil comparar nossas vidas com a de outras pessoas, sempre tão conectados. A literatura de cura vem como um respiro necessário, empático e otimista. Seja através dos dramas individuais em títulos como Chocolate-quente às quintas-feiras, de Michiko Aoyama, ou traumas profissionais e segundas chances como em A inconveniente loja de conveniência, de Kim Ho-yeon, são livros leves que podem até não mudar sua vida (ou talvez possam?), mas oferecem uma nova perspectiva das batalhas humanas que vivenciamos em conjunto de formas tão solitárias.



