Sex, 09 de Outubro

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Fábio Silva

Escola Zero quer preparar líderes sociais para transformar propósito em impacto que permanece

Iniciativa da Rede Muda Mundo aposta na formação de quem já atua nos territórios

Escola Zero quer preparar líderes sociais para transformar propósito em impacto que permaneceEscola Zero quer preparar líderes sociais para transformar propósito em impacto que permanece - Divulgação

Quase nenhum projeto social começa com um plano estratégico embaixo do braço. Geralmente começa porque alguém viu um problema de perto e decidiu fazer alguma coisa: junta gente, procura apoio, mobiliza a comunidade, ocupa um espaço, improvisa o que falta e começa, muitas vezes com muito pouco. Depois o projeto cresce. Chegam mais pessoas, parceiros, equipe, contas, responsabilidades, e aquilo que nasceu de uma urgência passa a exigir organização. Esse é um ponto que conheço bem: há projetos que crescem antes que seus próprios líderes tenham tido tempo de aprender a administrar o tamanho que eles alcançaram.

A Escola Zero nasce olhando justamente para isso. Há algum tempo venho defendendo que uma das nossas missões precisa ser transformar lideranças sociais em empreendedores de impacto, e sei que essa expressão pode gerar algum ruído. Não estou falando em transformar uma organização social em empresa, muito menos em importar para o terceiro setor uma lógica que não combina com ele. Estou falando de outra coisa: quem lidera uma iniciativa social precisa saber cuidar do propósito, mas também precisa saber cuidar da organização que sustenta esse propósito. Gestão, planejamento, comunicação, captação de recursos, indicadores, formação de equipe, governança e sustentabilidade também são impacto.

Conheci ao longo dos anos muitas lideranças extraordinárias, gente que conhece o território de verdade, que sabe quem precisa ser ouvido, onde estão os problemas, como mobilizar uma comunidade e como construir soluções em lugares onde muitas instituições sequer conseguem chegar. Só que quase ninguém ensinou essas pessoas a administrar uma organização. Muita gente aprende orçamento quando precisa pagar a primeira conta, aprende prestação de contas depois de conseguir o primeiro recurso e descobre a importância dos indicadores quando alguém pergunta, pela primeira vez, quantas pessoas aquele projeto alcançou e o que efetivamente mudou depois da intervenção. Vai aprendendo no caminho.

Não vejo isso como falta de capacidade. Pelo contrário: é impressionante o que essas lideranças conseguem construir mesmo sem acesso a boa parte das ferramentas que outros setores consideram básicas. O problema aparece quando o projeto cresce, porque propósito mobiliza mas não fecha fluxo de caixa, e boa vontade não substitui planejamento. Uma excelente liderança comunitária não deveria precisar descobrir tudo sozinha, muitas vezes depois de errar, perder oportunidades ou chegar perto do limite.

Esse é um ponto importante para entender a Escola Zero: ela não nasce para ensinar impacto social a quem nunca esteve em contato com ele. Muitas pessoas que chegam a esse universo já sabem muito. Sabem mobilizar, escutar, criar vínculo, encontrar soluções e lidar com problemas complexos no cotidiano. O que muitas vezes falta é transformar essa experiência acumulada em método: dar nome aos processos, organizar aquilo que já funciona, entender o que pode ser replicado, o que precisa ser medido, onde existem riscos e como uma iniciativa pode depender menos da presença permanente de seu fundador.

A formação entra nesse lugar, não para ensinar uma liderança social a conhecer sua comunidade (ela provavelmente conhece muito mais aquele território do que qualquer especialista vindo de fora), mas para oferecer repertório que ajude essa mesma liderança a fazer seu trabalho ganhar estrutura, escala e continuidade.

A Escola Zero também faz parte de um desenho maior que estamos construindo dentro da Rede Muda Mundo. Na Casa Zero trabalhamos com inovação social, cultura, inclusão produtiva, formação e desenvolvimento de territórios, e ao longo dessa experiência uma coisa ficou cada vez mais clara para mim: não adianta construir oportunidades sem fortalecer as pessoas que vão liderá-las.

É aí que a Escola Zero entra. Enquanto a Casa Zero atua diretamente na criação de possibilidades dentro dos territórios, a Escola Zero olha para quem está conduzindo essas transformações. São duas frentes diferentes, mas profundamente ligadas, e agora começam a caminhar juntas também na expansão da Rede. São Paulo está entre os próximos passos.

Estamos nos aproximando de pessoas e instituições que compartilham essa visão e construindo articulações com gente ligada à educação, à inovação e ao impacto. Entre essas conversas estão nomes como Tsugu Martins, presidente do InsperEdu, Nicole Mattar e EC Peixoto, presidente do Comitê de Educação. Não me interessa simplesmente chegar a uma nova cidade e colocar uma placa na parede. Quero chegar reunindo gente boa, boas ideias e experiências que possam se conectar, porque rede, para mim, só faz sentido quando produz alguma coisa que ninguém conseguiria construir sozinho.

O que acontece depois que um projeto dá certo? Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes do terceiro setor hoje. Falamos muito sobre criar projetos, sobre inovação, impacto, transformação e novas soluções, mas ainda falamos pouco sobre o que acontece quando uma dessas iniciativas começa a funcionar. Como ela cresce sem perder sua identidade? Como deixa de depender exclusivamente da pessoa que a criou? Como constrói sustentabilidade financeira sem passar o ano inteiro tentando sobreviver ao próximo edital, transforma experiência em metodologia e mede resultado sem transformar pessoas em números? E, talvez mais importante, como prepara novas lideranças para assumir responsabilidades e fazer aquele trabalho continuar?

Essas perguntas aparecem justamente quando um projeto começa a amadurecer, e é nesse momento que gestão deixa de ser uma preocupação administrativa e passa a ser parte do próprio impacto. Uma organização social pode realizar um trabalho extraordinário e ainda assim ser frágil, pode transformar muitas vidas e continuar dependendo de uma única liderança, pode ter reconhecimento público e não conseguir pagar as contas daqui a seis meses, pode conhecer profundamente seu território e ainda ter dificuldade para explicar, em números e evidências, o tamanho da transformação que produz.

Precisamos falar sobre isso sem constrangimento. O terceiro setor não perde humanidade quando se profissionaliza, não perde propósito porque aprende gestão, não deixa de ser social porque começa a pensar em sustentabilidade. Na verdade, acontece o contrário: quanto mais preparada estiver uma organização, maiores são as chances de o trabalho continuar quando o entusiasmo inicial passar, quando o primeiro recurso acabar ou quando a pessoa que começou tudo já não puder carregar aquilo sozinha.

O Brasil não precisa apenas de novas boas ideias. Já existem milhares delas acontecendo agora, muitas vezes longe dos grandes centros de decisão. Precisamos também cuidar melhor das ideias que deram certo, dar repertório a quem já tem coragem, dar método a quem já tem experiência e construir condições para que impacto social não seja apenas algo que começa. Precisa ser algo que permanece.

Fábio Silva CEO da Rede Muda Mundo

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