Quase um milhão de brasileiros pediram ajuda. Nesta semana, alguém começou a escutar
Há menos de 15 dias, escrevi sobre as bets e sobre uma realidade que já não dá mais para ignorar
Quase um milhão de brasileiros pediram ajuda. Nesta semana, alguém começou a escutar
Há menos de 15 dias, escrevi sobre as bets e sobre uma realidade que já não dá mais para ignorar. Elas não vão desaparecer. Estão legalizadas, movimentam bilhões e já entraram na rotina de milhões de brasileiros. Estão no futebol, nas redes sociais, nas transmissões, nos aplicativos e, muitas vezes, dentro de casa. Por isso, a discussão não pode ficar apenas entre ser a favor ou contra. A pergunta que realmente importa é outra: quem protege o cidadão quando ele joga contra uma estrutura criada para fazê-lo continuar jogando?
Há duas semanas falei sobre três caminhos. O primeiro era proteger quem não pode jogar e acolher quem decidiu parar. O segundo era enfrentar a propaganda. O terceiro era fazer com que parte do dinheiro arrecadado por esse setor voltasse para a sociedade em forma de prevenção, cuidado e oportunidade. Nesta semana, um desses caminhos começou a andar. O Ministério da Fazenda anunciou novas regras para a publicidade das plataformas de apostas. Elas entram em vigor no dia 17 de julho.
A partir dessa data, toda propaganda de bet deverá trazer uma advertência clara: Apostar faz perder dinheiro; Apostar pode causar dependência; Aposta não é investimento. Pode parecer pouco, mas não é.Durante muito tempo, o que chegou ao público foi uma mensagem bem diferente. A aposta aparecia como entretenimento, renda extra, oportunidade e até como uma forma de mudar de vida.
A publicidade mostrava o ganho. Quase nunca mostrava a dívida, o salário comprometido, o conflito dentro de casa ou a tentativa desesperada de recuperar, em uma nova aposta, o dinheiro perdido na anterior. As novas regras também proíbem práticas usadas para empurrar o cidadão para o jogo. Não será mais permitido criar senso de urgência, apresentar aposta como investimento ou fonte de renda, exibir históricos de ganhos para atrair novos apostadores ou usar comentaristas esportivos para recomendar apostas durante as transmissões.
A publicidade voltada para crianças e adolescentes também passa a ser proibida, especialmente nas redes sociais. Esse ponto é importante. Uma criança pode não ter idade para abrir uma conta em uma plataforma legalizada, mas cresce vendo jogadores, times, influenciadores e transmissões esportivas cercadas por marcas de apostas.
A relação com o jogo começa a ser construída muito antes do primeiro cadastro. Por isso, proteger crianças e adolescentes não é apenas impedir o acesso. É também impedir que a aposta seja apresentada desde cedo como algo normal, simples e sem consequência. As regras também preveem punições. As operadoras poderão receber multas de até 20% do faturamento, ter a autorização suspensa por até 180 dias e, em casos graves ou de reincidência, perder a licença.
Veículos, influenciadores e outros responsáveis por publicidade abusiva também poderão ser responsabilizados. As multas podem chegar a R$ 14 milhões. Isso muda uma lógica que precisava mudar. A responsabilidade não pode terminar na empresa de apostas. Quem divulga, recomenda ou empresta a própria credibilidade para convencer milhares de pessoas a colocar dinheiro em uma plataforma também precisa responder pelo que faz.
No mesmo balanço, o governo informou que já retirou do ar 56 mil sites e aplicativos ilegais e quase mil perfis de influenciadores. Ainda há muito a fazer, mas é um começo. Quando falei sobre esse tema pela primeira vez, cerca de 700 mil pessoas já haviam solicitado a autoexclusão das plataformas de apostas. Agora, o número se aproxima de um milhão. Quase um milhão de brasileiros entraram em uma plataforma do governo e pediram para não conseguir mais apostar. É difícil olhar para esse número apenas como estatística.
Ali existem pessoas que perceberam que estavam perdendo o controle. Pessoas que perderam dinheiro, comprometeram relações, esconderam dívidas ou simplesmente entenderam que já não conseguiam parar sozinhas. Não conhecemos a história de cada uma delas. Mas sabemos que todas tomaram uma decisão difícil. Para mim, esse número fala de um pedido de ajuda. Também fala de coragem. Existe muita vergonha em torno desse assunto. Muita gente tenta esconder o problema, mente para a família e insiste em recuperar o prejuízo sem contar a ninguém. Por isso, pedir para sair não é fracasso. É reconhecer que existe um problema e tentar retomar o controle da própria vida.
O crescimento da autoexclusão mostra duas coisas. A ferramenta está chegando às pessoas. E o problema é muito maior do que parecia. A Plataforma Centralizada de Autoexclusão está disponível em: gov.br/autoexclusaoapostas O serviço é gratuito e digital. O acesso é feito por meio de uma conta gov.br de nível prata ou ouro. A pessoa pode escolher um bloqueio de um a 12 meses ou por tempo indeterminado. Depois do pedido, o CPF fica bloqueado em todas as casas de apostas autorizadas no país. Não é possível criar novos cadastros, acessar as contas já existentes nem continuar recebendo publicidade direcionada.
As empresas têm até 72 horas para efetivar o bloqueio e devem devolver os valores que ainda estiverem disponíveis nas contas. A plataforma também oferece um autoteste e indica serviços do SUS para atendimento em saúde mental. Também existe o Disque 136, do Ministério da Saúde, para orientação. É importante lembrar que a autoexclusão vale apenas para as plataformas legalizadas, aquelas cujo endereço termina em .bet.br. Os sites ilegais ficam fora do sistema. É por isso que retirar essas plataformas do ar também é uma medida de proteção.
Não adianta alguém pedir ajuda e, logo depois, encontrar uma nova casa ilegal pronta para recebê-lo. A autoexclusão é importante, mas não resolve tudo. Quem pede para sair precisa conseguir fazer isso sem burocracia e precisa encontrar apoio depois. Porque o acesso pode ser bloqueado, mas as consequências continuam. Continuam as dívidas. Continuam os conflitos familiares. Continuam a culpa, a ansiedade e o medo de contar o que aconteceu.
Não basta tirar alguém da plataforma e deixá-lo sozinho com tudo isso. É preciso ter acolhimento em saúde mental, orientação financeira, apoio às famílias e acesso a serviços que ajudem essa pessoa a reconstruir a própria vida. Dependência não se enfrenta apenas com bloqueio. Enfrenta-se com cuidado. Existe outra pergunta que precisa ser feita.
O setor de apostas movimenta bilhões de reais. As empresas pagaram milhões pelas licenças e recolhem impostos todos os meses. Quanto desse dinheiro está voltando para cuidar das pessoas atingidas por esse mercado? Quanto vai para prevenção?Quanto chega ao SUS? Quanto é investido em educação financeira, saúde mental e apoio às famílias? Quanto chega aos territórios onde o desemprego, a baixa renda e a falta de oportunidade tornam a promessa de ganhar dinheiro rápido ainda mais sedutora?
Essa destinação não pode ser simbólica. Não pode ser tratada como sobra. E não pode depender apenas da boa vontade das empresas. Precisa fazer parte da política pública. É fácil olhar para quem aposta e dizer que foi uma escolha individual. Mas a realidade não é tão simples.
Muita gente começa a jogar porque o salário não chegou até o fim do mês, porque a dívida venceu, porque o emprego não apareceu ou porque a promessa de “virar o jogo” surgiu justamente quando não havia outra perspectiva. Isso não retira a responsabilidade de quem aposta. Mas ajuda a entender por que a aposta encontra tanta força em determinados lugares. Falar sobre bets nunca foi apenas falar sobre jogo. É falar sobre trabalho, renda, desigualdade, educação, saúde mental e futuro.
Escolhi falar sobre esse tema publicamente sem defender uma proibição geral e sem transformar quem aposta em culpado. Não acredito que julgar ou humilhar alguém ajude a resolver o problema. Dependência não é falha de caráter. Escolhi falar porque informação pode evitar que uma pessoa perca mais. Pode ajudar uma família a entender o que está acontecendo.
Pode fazer alguém perceber que precisa parar.Pode mostrar que existe uma saída. Quem ocupa um espaço de liderança também precisa falar sobre os problemas que atravessam a vida real das pessoas. Liderar não é apenas apresentar resultados, inaugurar projetos ou falar sobre inovação. Também é perceber quando um problema está crescendo e decidir não olhar para o outro lado.
Nesta semana, o cidadão brasileiro ficou um pouco menos desprotegido. Ainda é pouco diante de quase um milhão de pedidos de ajuda.Mas é um passo.Agora é preciso garantir que as regras sejam cumpridas, que a autoexclusão funcione e que o cuidado chegue a quem precisa. As bets não vão desaparecer. Mas a publicidade sem limite pode diminuir. A exposição de crianças e adolescentes pode ser enfrentada. E quem pede ajuda pode deixar de ser abandonado.
Essa é uma disputa que vale a pena enfrentar.



