ESG: a nova filosofia do mundo corporativo

Camila Oliveira, Camila Haeckel e Tiago Lima - Divulgação

Camila Haeckel, da Editora Inspiração, parceira deste blog, entrevista nesta semana na Folha Finanças, os sócios da Queiroz Cavalcanti Advocacia Camila Oliveira e Tiago Lima. Na conversa, os parceiros falam sobre as práticas ESG, que tem tomado a pauta do mundo corporativo nos últimos anos. 

Camila e Tiago lideram, respectivamente, as áreas de direito empresarial e de direito ambiental e sustentabilidade no escritório em que são sócios. Juntos, coordenam a iniciativa ESG no Queiroz Cavalcanti, acreditando que a resiliência é a chave da sobrevivência das empresas nesse novo mundo.

Confira a seguir a entrevista com Camila Oliveira e Tiago Lima. 

Embora as práticas ESG tenham tomado a pauta do mundo corporativo nos últimos anos, muitas pessoas ainda desconhecem o significado da sigla. Você poderia explicar o que é?  

[Tiago Andrade Lima]
De modo geral, trata-se de um acrônimo que une iniciativas de caráter ambiental (environmental), social e de governança, em um conjunto de práticas que tem por objetivo principal o alcance da sustentabilidade. Assim, apesar de geralmente apresentado como um conjunto de critérios e métricas que tem passado a nortear os fluxos globais de investimentos, prefiro compreender o ESG (ou, em português, ASG) como uma nova forma de empreender, de trabalhar e, por que não dizer, de ver e viver o mundo. 

É uma agenda que, em sua essência, alinha-se à mudança cultural (também corporativa) que repudia o modelo do lucro “a qualquer custo” - ou do “lucro pelo lucro”, focado exclusivamente nos acionistas (shareholders), e valoriza a geração de valor, de forma sustentável, para colaboradores, clientes, fornecedores, concorrentes, comunidade local, governo, sociedade em geral e outras partes interessadas (stakeholders).

Sem querer ser reducionista, considero importante trazer alguns exemplos para melhor entendimento do significado de cada um dos pilares da ESG. No ambiental (o “A” ou, no inglês, o “E”, de environmental), são contempladas questões como gerenciamento dos resíduos, eficiência energética, riscos climáticos, consumo de água, desenvolvimento da bioeconomia e da economia circular, dentre outros. 

No social (o “S”), volta-se à proteção dos direitos humanos e trabalhistas, à segurança do ambiente de trabalho, à diversidade e à inclusão, à atração e retenção de talentos, ao marketing responsável, ao voluntariado, como exemplos. Por fim, no pilar da governança (o “G”), além de transparência, integridade, política anticorrupção, adoção de métodos contábeis confiáveis e conformidade regulatória, busca-se a efetiva e imediata atuação pautada nos fundamentos ESG, como na composição diversificada dos conselhos de administração.

A que você atribui o fato de as discussões sobre ESG estarem tão em alta?

[Camila Oliveira]
Primeiramente, deve-se registrar que nada disso é novo. Os princípios do ESG são antiquíssimos, e eram adotados pelos fundos de investimento há décadas, sob a terminologia do “investimento responsável”. Assim, os produtos criados com seus fundamentos têm décadas e a própria sigla já não é tão recente. Por outro lado, não se pode negar que, nos últimos anos, o assunto assumiu um novo patamar de relevância no Brasil. Eu atribuo o aquecimento do tema a, no mínimo, quatro fatores, dois globais e dois nacionais.

Como primeiro fator global, e talvez o mais importante deles, indico o atual contexto de urgência. Há um consenso de que as questões ambientais, especialmente as relacionadas à mudança climática, estão muito próximas a um ponto de não retorno. Também urgentes e insustentáveis se apresentam os reflexos da desigualdade social, extremamente agravados e evidenciados durante a pandemia, assim como o desrespeito e a intolerância às questões de gênero, raça e orientação sexual. Ações e políticas de longo prazo já não são suficientes para corrigir tais distorções. Requer-se ação imediata.

Também global é a mudança geracional. Os millenials e a geração Z são movidos por valores e propósito, inclusive quando os assuntos são carreira e dinheiro (ou seja, escolhas de investimento). A cada dia, novas pessoas dessa geração tornam-se consumidores, empresários, investidores, eleitores, políticos, etc. Está-se promovendo uma mudança de perfil gradual, tornando-se majoritária a representatividade daqueles que entendem importantes os princípios ESG.  

Pensando especificamente no Brasil, temos um elemento político. As políticas públicas estão pouco alinhadas aos princípios ESG, especialmente no que se refere ao ambiental e ao social. Por consequência, pressiona-se a iniciativa privada para a liderança de tal agenda, que, urgentemente, não pode esperar.

Como último fator, a pressão internacional via canais de investimento. O acesso ao capital está cada dia mais relacionado e condicionado à sustentabilidade e à adoção de práticas ESG.

Como o ESG pode impactar nos negócios?

[Camila Oliveira]
Embora o caminho ainda seja longo, a consciência da importância do ESG já chegou às empresas, aos consumidores e ao mercado financeiro. Ou, melhor dizendo, ao mercado financeiro, aos consumidores e às empresas. 

Inverti porque é evidente a força que os bancos e os fundos de investimento detêm para, por meio do direcionamento de seus recursos, influenciar, ou mesmo moldar, uma sociedade. E eles a têm usado para o desenvolvimento de uma sociedade ESG. Seja por convicção (os bancos, com base em seus indicadores, perceberam que as empresas com melhores índices ESG representam menor risco e maior chance de retorno), seja porque não mais conseguem acessar a recursos estrangeiros sem que observadas tais premissas, eles não somente estão sensíveis à agenda, como a lideram.

O mercado consumidor, por sua vez, especialmente quando se trata dos Millenials e gerações posteriores, têm exigido, das marcas que consomem, uma conduta socioambiental sustentável. Não querem mais fazer negócios com quem oferece o que eles precisam com o menor preço e a maior “qualidade”, mas com aqueles que acreditam no que eles acreditam. E, mais, “cancelam” os não aderentes, exigindo posicionamento semelhante de patrocinadores e outros integrantes da cadeia de valor de tais empresas. Os exemplos estão aí nas redes e nos jornais.

Nesse contexto, não há como o tema não chegar pela porta de entrada nos conselhos de administração das empresas, que inclusive já têm fixado bônus e remunerações de performance de seus executivos a indicadores ESG.  

Os impactos, assim, são evidentes. Empresas não aderentes aos princípios ESG, além de terem menor acesso a recursos (mais caros), correrão o risco de atrair, nem reter talentos, ter suas marcas depreciadas, serem alijadas da cadeia de valor das que são engajadas, ter seus produtos ou serviços rejeitados pelo mercado consumidor, dentre outros reflexos. Não se trata, portanto, de um diferencial competitivo, mas de uma condição para a perenidade.

Não por outra razão, práticas ambientais, sociais e de governança inadequadas têm sido cada vez mais precificadas. Elas efetivamente representam risco para o negócio. A aderência aos critérios ESG, por outro lado, é compreendida como elemento mitigador de riscos e fomentador de uma melhor performance.
 
Em curto prazo, quais as tendências de investimento ESG?

[Tiago Andrade Lima]
Muito já se tem falado sobre isso, principalmente em virtude dos gaps que foram aprofundados durante a pandemia, especialmente, como falamos anteriormente, nos âmbitos social e ambiental. A tendência é que os investidores considerem ainda mais os fatores ESG na busca por preencher tais lacunas. Sob a perspectiva social, é provável que sejam observadas, além de questões relacionadas à desigualdade social, inclusão e diversidade, a abordagem humana e prioritária dos funcionários. Sob o pilar ambiental, acredito que a mudança climática continuará como tema principal, promovendo-se o crescimento do mercado de finanças sustentáveis.

Existe inclusive um fórum do qual faço parte, o Laboratório de Inovação Financeira (LAB), que foi criado pela Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que reúne representantes do governo e da sociedade exatamente com o objetivo de promover e potencializar taxonomias, estudos, normas para as finanças sustentáveis no país.

Como a temática ESG se conecta com diversidade e inclusão?

[Camila Oliveira]
Métricas relacionadas à diversidade e inclusão estão incluídas nos pilares S (social) e G (governança) do ESG. E não é à toa a sua previsão. Além de promoverem justiça social, a diversidade realmente rima com perenidade e sustentabilidade. São muitas as evidências práticas e acadêmicas que demonstram os benefícios da diversidade. Eu gosto muito de citar um estudo da Mckinsey & Company sobre diversidade corporativa na América Latina, de julho de 2020, o Diversity Matters: América Latina, realizado com 700 empresas localizadas no Brasil, Chile, Peru, Argentina, Colômbia e Panamá.  Ele aponta que aquelas que adotam diversidade são mais saudáveis, felizes e rentáveis. Tendem a superar outras empresas em inovação, criatividade e colaboração, além de apresentarem ambientes de trabalhos mais felizes e uma maior retenção de talentos. Claro que isso se converte em resultado e saúde organizacional. 

Ainda de acordo com a pesquisa, essas empresas têm probabilidade significativamente maior de alcançar uma performance financeira superior à daqueles que não o fazem. Diversas outras pesquisas e estudos ratificam tais conclusões.

Isso porque, quão mais diversos for o corpo de colaboradores de uma empresa, nos seus diferentes níveis hierárquicos, em gênero, idade, raça, conhecimentos, experiências, comportamentos e culturas, maior perenidade e sustentabilidade tende a apresentar a empresa. E isso se apresenta ainda mais relevante nos cargos de liderança. As decisões e avaliações estratégicas adotadas por pessoas com formação, pensamentos, trajetórias e perspectivas parecidas tendem a deixar de considerar aspectos importantes, melhor conhecidos por aqueles que, por serem diferentes, têm visões complementares. 

A similaridade, muitas vezes cega, é míope. Larry Fink, CEO da BlackRock, uma das maiores gestoras de ativos do mundo, reconhece que empresas com conselhos e líderes com um mix de gênero, etnias, experiências de carreira tem, como resultado, um mindset mais diversos e atento. Defende que elas conseguem identificar melhor as oportunidades que geram crescimento de longo prazo.

Ocorre que, apesar de todas essas estatísticas e experiências, os números ainda são alarmantes sob todos os recortes (equidade de gênero, racial, orientação sexual e pessoas com deficiência), sendo necessário adotar medidas imediatas para promover diversidade e inclusão no ambiente de trabalho. E aqui, vale um registro, não basta contratar, há que se oferecer condições reais de desenvolvimento e crescimento para tais grupos considerados minoritários. E isso requer liderança inclusiva, justa e inspiradora.
 
As empresas que têm buscado internalizar à sua governança padrões ESG têm encontrado como desafios a identificação de parâmetros e métricas. O que fazer?

[Tiago Andrade Lima]
A ausência de padronização e sistematização de critérios é, de fato, um desafio. Um estudo promovido em 2020 pelo MIT Sloan School, intitulado “Aggregate confusion: the divergence of ESG ratings”, analisou seis empresas de rating ESG, com uma base comum de 924 empresas. A correlação entre as médias apresentadas foi de apenas 54%.

Não há um protocolo ou certificação que permita uma avaliação unificada das empresas. E nem poderia. Isso porque, considerando as diferentes realidades geográficas, econômicas, sociais, e outras, existentes no mundo, a padronização dos critérios trataria de forma igual os desiguais.

Considero, portanto, salutar o desenvolvimento de várias métricas e metodologias ESG, haja vista que aumenta a possibilidade de se considerar os fatores locais, no processo de identificação de uma prática ESG.

Embora seja um dificultador, a ausência de uma métrica unificada não deve desestimular a implantação de práticas ESG. Isso porque os modelos criados têm base em premissas consistentes e coerentes. No caso do Brasil, o Banco Central publicou recentemente uma consulta pública para o aprimoramento das suas normas regulatórias, em especial a Resolução que trata da Política de Responsabilidade Social, Ambiental e Climática (PRSAC), prevendo as seguintes revisões: a) inclusão do conceito de risco climático; b) aprimoramento da definição do risco socioambiental; e c) inclusão dos requisitos aplicáveis a todos os tipos de risco - declaração de apetite por riscos - testes de estresse - plano de continuidade de negócios e governança. Essa norma deverá impactar, em médio prazo, as métricas ESG no Brasil que passarão a seguir as diretrizes adotadas nessa nova norma.

Assim, o que se sugere é que seja escolhida uma métrica, como referência, mais adaptada à realidade local da empresa. No caso de a pretensão ser de captar recursos, que se busque a métrica do investidor alvo.

Como começar?

[Camila Oliveira]
As práticas ESG são acessíveis a todas as empresas, independentemente do seu tamanho. Algumas ações inclusive podem gerar economias em curto prazo, a exemplo das medidas de eficiência energética.

No entanto, a adoção dos critérios ESG não pode ser vista como uma medida isolada. Tem que necessariamente se tornar uma prática internalizada por todo o corpo de funcionários da empresa, iniciando-se, esse movimento, da alta direção. Analisar os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU e incorporá-los ao dia a dia das empresas pode se traduzir em um bom caminho para se buscar um futuro reconhecimento de que determinada empresa é sustentável.

[Tiago Andrade Lima]
Adicionalmente ao que Camila acrescentou, encerro dizendo que nessa jornada ESG que estamos atravessando, uma palavra tem bastante relevância: “resiliência”. Em um mundo global em profunda e constante modificação, a capacidade de adaptação será essencial para a sobrevivência das empresas, sejam elas pequenas, médias ou grandes. Portanto, tornar uma empresa ESG, significa transformá-la em uma empresa inclusiva, diversa, sustentável, mas, principalmente, preparada para os novos desafios globais que estão por vir.  
 

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