A santa gula

Os hábitos alimentares papais nem sempre foram austeros - Greg/Arte Folha de Pernambuco

Gula é um dos sete pecados capitais; junto com soberba, avareza, luxúria, inveja, ira e preguiça. Tudo por determinação do papa Gregório I, em 590, inspirado no monge beneditino Evágrio Pôntico, que dois séculos antes já referia os “oito males do corpo” – os mesmos soberba, avareza, luxuria e ira; e mais, aborrecimento, tristeza, vangloria e  gastrimargia (“loucura do ventre”) – convertido em gula. Dizia o tal monge: “Quem domina o próprio estômago, diminui as paixões, e quem é subjugado pela comida, aumenta os prazeres”. Muitos outros seguidores do Cristo também condenaram essa gula. Santo Agostinho dizia “não temer a impureza da comida, mas a do apetite”, recomendando “ingerir os alimentos com se tratasse de remédios”. São Francisco de Assis chegava ao exagero de temperar com cinzas sua própria comida para eliminar qualquer sabor que pudesse ter. Nada a estranhar em quem sentia prazer em dormir sem roupas (“nu como Cristo”, dizia), apesar do frio europeu, num chão de pedras. Para as santas Catarina, Clara e Verônica, “o estômago cheio prejudica a mente”; e tanto sofreram, em jejuns prolongados, que chegaram a ser severamente advertidas pela própria Igreja – do perigo de incorrerem em outro pecado capital, a soberba, que decorreria do “heroísmo” dessa penitência. São Tomás de Aquino, considerado o “mais sábio dos santos e o mais santo dos sábios”, foi mais longe e enumerou cinco formas distintas de se cometer essa gula: “praepropere” (comer antes da hora), “laute” (gastar muito para comer), “nimis” (comer demais), “ardenter” (comer com muita ansiedade) e “studiose” (comer com excesso de refinamento). 

Mas a teoria nem sempre funcionou, na prática. Os mosteiros se tornaram grandes laboratórios gastronômicos, berço de muitas receitas requintadas. Havia neles fartura de tudo, em razão das heranças deixadas por famílias ricas ou por pecadores interessados na redenção de suas almas. Dada tanta opulência, ou pela origem nobre de freiras educadas no requinte da corte, nesses mosteiros havia banquetes que em nada lembravam o rigor próprio das regras monásticas. O mesmo ocorria no Vaticano; em que os hábitos alimentares papais, nem sempre foram austeros. Clemente V, por exemplo, morreu comendo esmeraldas em pó – para tentar curar seus tormentos estomacais. Clemente VI esbanjou muito dinheiro na mesa – com louças requintadas, talheres de ouro e prata, comida muita e muita bebida. Para o banquete de sua coroação, foram convocados os cozinheiros de todos os cardeais, para colaborar com os 14 que já trabalhavam no palácio papal. Do cardápio pontifício constaram 1.023 carneiros, 914 cabritos, 118 bois, 101 vitelos e 60 porcos. Considerando ser ainda pouca, tanta comida, providenciaram também 7.048 frangos, 3.043 galinhas, 1.146 gansos, 1.500 capões, 300 lúcios e 15 enormes esturjões. Mais 15.000 tortas de frutas que consumiram, no seu preparo, muitos quilos de amêndoas, 3.250 ovos e 36.100 maçãs. 

Depois veio a Idade Media. Um tempo, na Igreja, de jejum e abstinência. Só que, para alguns religiosos, esse período não foi tão severo assim. Nas suas mesas não havia carne, é certo; mas, em compensação, sobravam favas cozidas em leite de vaca, lampreia com molho verde e sobremesas variadas – arroz doce, cerejas frescas, tortas, pastéis doces ou salgados. Os pratos preferidos de Inocêncio IV, por exemplo, eram assados, caldos gordurosos, mingaus de cereais, cozidos de legumes e carnes, arenques grelhados, aves, porco salgado, embutidos. E baleia assada. Vendeu tanta indulgência, para custear esse luxo, que se os papéis valessem mesmo no paraíso, ninguém do seu tempo iria para o inferno. Mais tarde, no Renascimento, o Vaticano continuou no vício da boa mesa. O papa Paulo III, famoso por comer e beber com refinamento, adorava grandes assados (temperados com canela, cravo da Índia, noz moscada, pimenta do reino e gengibre), capões recheados, caças de pena, aves domésticas, massas recheadas e strozzapreti (“estrangula padre”, em referência à gula dos sacerdotes). Para todos esses, o caminho do céu passava pela boca. Assim foi, até que, aos poucos, os exageros foram ficando para trás. 

Complicado, em relação a cozinheiros (sobretudo católicos), é não ser possível exercer a profissão sem praticar o doce pecado da gula. O mesmo se dando com todos os que apreciam os bons sabores. Certo dia, quando moramos em Brasília, José Paulo manifestou a Dom Luciano Mendes de Almeida (então presidente da CNBB), sua insatisfação eclesiástica com o fato de gula ser pecado. E capital. Ele então respondeu: “Mas você não conhece a santa gula?” E explicou: “Quando se come, sem se importar com os outros é o pecado da gula. Mas quando desejamos que todos comam é uma gula santa”. Que assim seja, pois, até o fim dos séculos, Amém.
 

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