Centenário do Congresso Regionalista do Nordeste
Segundo José Lins do Rego, foi a partir do Congresso Regionalista que o “Nordeste se descobriu como pátria”
A Academia Pernambucana de Letras celebrou, na segunda feira passada, os 100 anos do Congresso Regionalista do Nordeste – organizado por Gilberto Freyre. Por compreender a grande importância daquele Congresso, para a nossa cultura. Desde seus primeiros escritos, Freyre chamava atenção para a importância de preservar as tradições regionais herdadas das culturas que formaram nossa identidade, todas fortemente ameaçadas pela descaracterização.
Com riscos na arquitetura, na pintura, no vestir, na música, na culinária. “Toda essa tradição está em declínio, ou pelo menos em crise no Nordeste”, disse no seu Manifesto Regionalista. Aos 18 anos, foi estudar nos Estados Unidos. Quando voltou, em 1923, passou a defender os valores regionais. Com unhas e dentes. Como um “missionário de certo regionalismo ao mesmo tempo tradicionalista e experimentalista, modernista e brasileirista” escreveu em Vida, forma e cor. Pouco depois de sua volta criou o Centro Regionalista do Nordeste junto com outros intelectuais – Alfredo Freyre, Antônio Inácio, Moraes Coutinho, Odilon Nestor.
As reuniões, todas as terças-feiras, se davam na casa de Odilon Nestor (poeta, ensaísta, professor de Direito Internacional), “em volta da mesa com sequilhos e doces tradicionais da região”. Passaram a estudar juntos os problemas econômicos, sociais, políticos e culturais do Nordeste. Foram muitas vezes chamados de separatistas. Freyre revidou em artigos de jornal, “Regionalismo não é separatismo. Regionalmente é que deve o Brasil ser administrado. Mas administrado sob uma só bandeira e um só governo”.
Os resultados desses encontros logo se fizeram notar. Em 7 de novembro de 1924, tivemos o Livro do Nordeste. Organizado e coordenado por Freyre, vale a lembrança. E com trabalhos de intelectuais importantes como Oliveira Lima, Júlio Bello, Mario Melo, Manuel Bandeira (com um dos mais conhecidos de seus poemas, Evocação do Recife) e do próprio Freyre, com três artigos (Vida Social do Nordeste, A Pintura do Nordeste e A Cultura da Cana de Açúcar).
Segundo José Lins do Rego, foi a partir dele que o “Nordeste se descobriu como pátria”. As atividades do Centro não ficaram por aí. Em 7 de fevereiro de 1926, realizou o Primeiro Congresso Regionalista do Nordeste. Nele, Freyre explicitou “a defesa da culinária e da doçaria tradicionais da região; a defesa dos jogos e brinquedos regionais; a defesa das artes populares, inclusive mamulengo e o bumba meu boi e a renda do Ceará” (em Alhos e Bugalhos). Ainda chamando atenção para a necessidade de serem todos defendidos pela gente da região. Foi a partir desse Congresso que passamos a compreender, valorizar e defender a nossa cultura.
A verdade é que Freyre tinha muito orgulho de sua região. Para ele, não havia lugar que excedesse “o Nordeste em riqueza de tradições ilustres e em nitidez de caráter. Vários de seus valores regionais tornaram-se nacionais depois de impostos aos outros brasileiros menos pela superioridade econômica que o açúcar deu ao Nordeste durante mais de um século, do que pela sedução moral e pela fascinação estética dos mesmos valores” (em Gilberto Freyre, Coleção Encontros). Nem lugar com povo mais forte e mais altivo. Viva Gilberto Freyre! Viva o Congresso Regionalista!



