"Defesa da língua portuguesa e da cultura" é uma das missões de Lecticia Cavalcanti na APL
Em discurso de posse, a nova vice-presidenta da Academia Pernambucana de Letras falou também sobre a honra de assumir o cargo
Segunda-feira passada, tomou posse na Academia Pernambucana de Letras a nova diretoria. Com muita honra assumo a vice-presidência, com Margarida Cantarelli na presidência. Atendendo a pedidos, publico hoje, parte do discurso que proferi naquela ocasião.
Pertencer a esta Casa é honra e privilégio. Mas, também, grande responsabilidade. Por termos a relevante missão de “velar pelo passado literário, estimular seu estudo e lutar pela preservação das suas obras”, como está em nossos Estatutos. E, mais, trabalhar na “defesa da língua portuguesa e da cultura”. São dois belos compromissos. Que defender a cultura é compreender a importância dos conhecimentos produzidos e transmitidos pelos homens, enquanto valorizar a língua significa não apenas entender o conjunto de símbolos que se articulam para produzir uma ideia. É ir além.
É aceitar novas formas de expressão em permanente processo de mudança, nos seus ambientes próprios – música, dança, canto, sabores, maneiras de fazer, que devem todos ser compreendidos como linguagem, no tanto em que expressam a própria identidade dos povos a que pertencem. Revelando tradições. Mediando hábitos. Transmitindo valores de natureza variada – econômicos, sociais, políticos, religiosos, estéticos, étnicos, éticos.
Bom lembrar que o gosto pelas academias vem da Grécia, por volta do século IV a.C., quando Platão passou a reunir discípulos no bosque sagrado da Akademus (herói ateniense da guerra de Troia, que revelou onde Teseu mantinha Helena prisioneira). Sendo sua escola filosófica conhecida, por isso, como Akadêmia. O nome passou a identificar, desde então, grupos reunidos em volta de atividades específicas – científicas, físicas, filosóficas, literárias. Assim surgiu, em 1635, a Academia Francesa. No Brasil, primeiro nasceu a Academia Cearense de Letras, em 1894.
E, três anos depois, a Brasileira, pelas mãos de Machado de Assis. Foi quando pernambucanos que faziam parte daquela Casa – Joaquim Nabuco, Medeiros e Albuquerque, Oliveira Lima, Silva Ramos, sugeriram que aqui na província seguíssemos pelo mesmo caminho. Sendo criada então, em 26 de janeiro de 1901, a Academia Pernambucana de Letras. Estamos celebrando hoje, portanto, seus 125 anos. Uma data muito expressiva.
Nosso primeiro presidente, Carneiro Vilela, disse no discurso inaugural: “É preciso que Pernambuco possa atestar ao resto do Brasil sua vitalidade literária, mostrando e demonstrando que não se deixa atrofiar pelo desanimo, que não sucumbe sob a inércia”. E assim foi desde aqueles primeiros dias, reconhecemos com orgulho.
Também lembrou que “As Academias são agentes ativos no processo global do desenvolvimento da comunidade”. E a Pernambucana segue nessa trilha. Concede prêmios a jovens escritores. Oferece cursos, palestras e Rodas de Conversa. Participa de Festivais de Literatura. Homenageia movimentos culturais importantes – como a Semana de Arte Moderna e o Movimento Regionalista. Celebra indistintamente romancistas e poetas, eruditos e populares. De Manuel Bandeira ou João Cabral de Melo Neto a Zé Dantas ou Miró da Muribeca.
O Dia do Escritor, por exemplo, foi comemorado aqui, com os cantadores Ivanildo Vila Nova, Oliveira de Panelas e mais, claro, José Paulo (grande apologista – como é conhecido nas rodas de cantoria de pé- de-parede. Para os que não sabem ele tem importante disco de cantoria, com 244 páginas de versos por ele escritos). A primeira reunião desse ano será em 9 de fevereiro, não por acaso Dia do Frevo, quando será homenageado o Maestro Duda.
Não podemos deixar de lembrar a Campanha do livro solidário, que arrecadou 50 mil títulos logo distribuídos às Escolas públicas. E esperem mais. Muito mais. O que não falta a Margarida Cantarelli são ideias, planos e projetos. Conte com todos os acadêmicos nessa missão, amiga.
Aqui estão (ou estiveram) representantes da sociedade pernambucana. Advogados, atores, críticos de cinema, cronistas sociais, educadores, jornalistas, historiadores médicos, professores. Todos, conscientes da dimensão transformadora da educação no desenvolvimento de uma comunidade – como lembrou Margarida, em recente discurso na UNICAP.
Nada é mais importante e necessário. Nada é mais novo e democrático. Nada é mais urgente, modernizante e revolucionário. Só com educação de qualidade converteremos o indeterminado cidadão comum em alguém livre, protagonista da história do país. Quando um homem consegue ler a bula de um remédio e saber como dá-lo a um filho, interpretar a notícia, ler livros e se comover com as imagens que vão se formando em sua consciência, ele troca de patamar na escala social.
Passa a ser alguém capaz de ver o mundo com os próprios olhos. De entender a realidade com que interage. De compreender, mais claramente, a dimensão cruel da apartação social. Da injustiça. Do preconceito. Capaz, sobretudo, de escolher seu Destino. Essa Academia, importante se diga, está fazendo a parte que lhe cabe. E está legitimada para cobrar da sociedade, e sobretudo dos nossos homens públicos, que pensem, com mais generosidade, no futuro grandioso do Brasil. (Continua na próxima coluna, 14 de fevereiro)



