Gula pantagruélica (Parte I)

Expressão “gula pantagruélica” começou com François Rabelais - Greg/Arte Folha de Pernambuco

A expressão “gula pantagruélica” vem de longe. Tudo começou com François Rabelais – que foi médico, advogado, professor, viajante, pesquisador; além de frade franciscano e monge beneditino, apesar de sua precária vocação religiosa. É que buscava, naquela conturbada Igreja do séc XVI, ter estabilidade econômica, conhecer novos lugares e sobretudo poder frequentar às cobiçadas bibliotecas conventuais. Mas essa vida monástica não era para aqueles que, como ele, sonhavam com um convento “ao contrário de todos os outros, governado pela ordem do bom senso e não pelo som de um sino”. Acostumado aos prazeres da vida, o pobre Rabelais nunca entenderia por que os frades “se afastam das boas companhias e fogem do mundo. Eles desfiam muitos padres-nossos entremeados de longas ave-marias, sem pensar ou perceber tais orações. Mas os ajude Deus, se é que rezam por nós e não por medo de perderem os seus nacos de pão e as suas sopas”. E bem fez, ao trocar algumas rezas por papéis; que logo alcançariam fama com sátiras inspiradas na tradição oral e nos romances de cavalaria. Nelas, em linguagem simples, criticava a autoridade abusiva dos governantes ou a limitação dos educadores, juízes corruptos, teólogos de pouca fé, fanáticos, intolerantes e fracos.

Ocorre que desafiar instituições (especialmente a Igreja), naquele tempo, exigia coragem e/ou insensatez. Um de seus amigos, Etienne Dolet, apenas por publicar uma tradução de Platão, chegou mesmo a ser enforcado e queimado. Assim, por prudência ou medo, Rabelais assinou seus primeiros livros como Alcofribas Nasier – um anagrama do próprio nome. Sem que isso o impedisse de ser perseguido pela Igreja (acusado de ser herege) e pela Universidade de Paris (acusado de ser obsceno). A venda de seus livros acabou proibida pelo Index Librorum Prohibitorum. E só escapou da fogueira da Inquisição graças à proteção de amigos importantes – o cardeal J. Du Bellay e o próprio Francisco I, rei da França.      

Os livros que publicou não obedecem a uma ordem cronológica, própria das idades dos personagens. Primeiro (em 1532) contou a saga de um filho – “Os horríveis e apavorantes feitos e proezas do mui renomado Pantagruel, rei dos dipsodos, filho do grande gigante Gargântua”; e, só dois anos depois, a do pai – “A vida mui horrífica do grande Gargântua, pai de Pantagruel”. Os dois, Pantagruel e Gargântua, eram gigantes bondosos e comilões exagerados, que “viviam com paz, alegria e saúde, e a comer sempre à farta”. Em seguida vieram: “O Terceiro Livro dos Feitos e Ditos Heróicos do Bom Pantagruel” (1546), “O Quarto Livro dos Feitos e Ditos Heróicos do Bom Pantagruel” (1552) e o “Quinto e Último Livro dos Feitos e Ditos Heróicos do Bom Pantagruel” (1564), publicado 11 anos depois de sua morte – segundo as más línguas, e numa prática usual à época, escrito por terceiros. Rabelais se definiu, no prólogo do Quarto Livro, como um homem “Sadio, alegre, perfeitamente são e disposto a beber se você quiser”. E era mesmo natural que, com esse espírito, criasse os famosos gigantes Gargântua e Pantagruel – dos quais falaremos, na próxima coluna.    
 

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