Gula pantagruélica

Gula Pantagruélica - Greg

Contada a vida atribulada de Rabelais, no artigo anterior, cumpre agora dizer, mesmo em breves palavras, a história dos seus mais famosos personagens. Gargântua, pai de Pantagruel, nasceu com onze meses; e era um bebê tão grande que,  para ser amamentado, precisava diariamente do leite de 17.913 vacas. Filho de Grandgousier e de Gargamelle, acabou educado longe – por Ponócrates, “segundo os preceitos humanistas”. Findo os estudos, ao voltar para casa, foi recebido pelos pais com ceia – onde foram servidos 3 vitelas, 11 javalis, 16 bois, 32 bezerros, 63 cabritinhos, 95 carneiros, 140 faisões, 220 perdizes, 300 leitões, 303 abetardas (ave com pernas e pescoço longo), 400 capões de Loudunoys e Cornualha (muito apreciados pelo próprio Rabelais), 600 galinhas do mato, 700 galinholas, 1400 lebres, 1700 capões novos, 6000 frangos e outros tantos pombos torcazes (com pescoço verde e cortado por um colar branco). Também aves de rio, cercetas (ave parecida com o pato), alcavarões, maçaricos (tipo de ave), tarambolas (tipo de ave), francolinos (semelhante às perdizes), patos-marrecos, pavoncinhos, patos-reais, colhereiros, garças-reais, galinha de água, flamingos cor de laranja e galinhas-da-índia. Além de muito cuscuz (feito de farinha de sorgo, de arroz ou de trigo), mais grande quantidade de caldos e bebidas. E tanta fartura, como tanta gula, seria mesmo um prenúncio do seu próprio destino.

            Gargântua casa com Badebec, e a mulher morre durante o parto de Pantagruel. O nome do filho é explicado, pelo pai: “panta, em grego, é o mesmo que dizer tudo, e gruel é o mesmo que dizer sede na linguagem agarena” (moura). Pantagruel, como o pai, tem apetite proporcional ao seu imenso tamanho; e, mais, o dom de provocar sede em todos os que se aproximam dele. Ainda na infância “bebia, em cada refeição, o leite de quatro mil e seiscentas vacas”. Quando não lhe deixavam comer uma vaca inteira, vingava-se pondo um urso “em pedaços como a um frango, regalando-se, bem regalado, com tal jantar”. O pai o manda à escola, para “aprender a fazer-se homem”, por querer que se aprofunde nos estudos “das artes liberais, geometria, aritmética e música”. Também, “Que aprenda da astronomia todas as regras”, mas que ponha “de parte a astrologia divinatória”. Talvez por isso, e mesmo criticando horóscopos e profecias, foi homenageado pelos astrônomos – que deram seu nome a uma cratera de Mercúrio. Grande como o apetite dos personagens que criou.

Além desses dois gigantes, ainda se destaca no livro, Panurge – um amigo inseparável de Pantagruel e companheiro de todas as aventuras. Pantagruel “Ama-o por toda a vida”.  Esse amigo representa a fragilidade humana, com todas as suas incertezas, imperfeições, contradições, inseguranças; alguém que apenas queria ser feliz – amar, casar, ter belos filhos e ser respeitado e amado pela mulher.  Por tudo, então, sendo considerado o mais humano de seus personagens.

Rabelais em suas sátiras fala de amor, amizade e alegria – “Vendo o luto que vos desgasta e consome, melhor é escrever de riso que de lágrimas”. Dos personagens, desses livros, mais que outros, destacou-se Pantagruel e sua insaciável vontade de comer e beber. “Gula pantagruélica”, pois, é não apenas comida muita; mas, sobretudo, comida boa; a própria vida que se consome nos prazeres da boa mesa. Bebida também, claro, que “No vinho está a verdade escondida”. Dando-se por finda essa explicação com palavras do próprio Rabelais: “Sejam vocês mesmos intérpretes da vossa aventura”.

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