Sabores da Independência (2ª. Parte)

Sabor da independência - Arte: Greg / Arte Folha

A viagem da família real portuguesa ao Brasil não foi agradável. Por 64 dias as embarcações sofreram com a inconstância dos ventos. Uma epidemia de piolho obrigou muita gente a raspar a cabeça. A água era cuidadosamente armazenada em pipas e fiscalizada, durante a viagem, pelo “fiel da aguada” - um título que ainda existe, hoje, na Marinha do Brasil. Mas essa água, no fim da viagem, era já pouca e ruim. O cozinheiro de bordo preparava as refeições com ingredientes que pudessem resistir à longa travessia - carne seca salgada, chouriço, galinha, paio, peixe em salmoura, porco, presunto, toucinho. Como tempero alho, alecrim, cebola, pimenta, sal, azeite e vinagre. Mais ameixas em conserva, azeitonas, biscoitos, cereais, confeitos, fartéis, marmelo, mel, queijo do Alentejo e vinho.  Finalmente, em 8 de março de 1808, chegaram ao Rio de Janeiro. A cidade era suja, malcheirosa e descuidada. “Que horror. Antes Luanda, Moçambique ou Timor”, disse a princesa Carlota Joaquina. Ficaram a princípio no Paço do Vice-Rei. E, depois, na Quinta da Boa Vista - ofertada por Elias Antonio Lopes, um rico traficante de escravos. Para alojar os outros viajantes, cerca de duas mil casas foram requisitadas e seus moradores desalojados. Sobre as portas eram então marcadas as letras P.R. (de Príncipe Regente), que a irreverência carioca logo traduziu para “propriedade roubada”.

Dom Pedro e seu irmão, Dom Miguel, cresceram soltos pelo Rio de Janeiro.  Dizem até que Dom Miguel não era filho de D. João, mas fruto de um (entre tantos) dos amores escusos de D. Carlota com o Marquês de Marialva - um nobre famoso pelos banquetes exagerados que oferecia em Lisboa. Não só ele. Também outros quatro, dos nove filhos de D. João, seriam ilegítimos. Todos nascidos em Portugal. Inclusive D. Antonio, que morreu antes de ter a família real chegado ao Brasil. Mas essa também é outra história. Certo é que Dom Pedro andava nas ruas com roupas de algodão e chapéu de palha, tomava banho nu na praia do Flamengo e brincava com outras crianças. Adorava andar a cavalo e caçar. Tocava clarinete, cravo, fagote, flauta, trombone e violino, além de instrumentos menos nobres, como lundu e violão - que aprendera na Taverna das Cornetas, à rua das Violas. Tinha também grande talento como marceneiro e ferreiro - atividades consideradas, à época, mais próprias para escravos. No físico herdara “os lábios grossos do pai, os olhos vivos da mãe e um robusto braço plebeu capaz de derrubar touros no picadeiro”, assim o descreveu Pedro Calmon (em O Rei Cavaleiro, 1933).  

Com a queda de Napoleão, já não valia a desculpa usada pela corte para se manter no Brasil. E assim, na madrugada de 25 de abril de 1821, partiram o agora rei Dom João VI, a rainha D. Carlota Joaquina, o filho D. Miguel, as 6 princesas, os restos mortais de sua mãe louca; mais quatro mil cortesãos, parte do Tesouro Real e 50 milhões de cruzados sacados do Banco do Brasil. Até consta que, ao pôr os pés no navio, D. Carlota teria batido um sapato no outro dizendo “nem nos calçados quero como lembrança a terra do maldito Brasil”. Bastava-lhe, no rosto, as marcas da bexiga e, segundo cronistas da época, vistosas barbas.

(Continua na próxima coluna) 

RECEITA: FRANGO NA PÚCARA (prato típico da região de Estremaduras)

INGREDIENTES:
1 frango pequeno
100 g de presunto cortado em cubos
4 tomates sem pele e cortado em cubos
10 mini-cebolas
2 colheres de sopa de manteiga
1 colher de sopa de mostarda
2 dentes de alho picados
1 cálice de vinho do Porto
1 cálice de aguardente
200 ml de vinho branco seco
Passas
Sal e pimenta

PREPARO:
Tempere o frango com sal e pimenta. Coloque na púcara (panela de barro com tampa). Junte todos os outros ingredientes. Tampe a púcara e leve ao forno bem quente.
Quando o frango estiver cozido, retire a tampa e deixe no forno até que doure.
Leve à mesa a púcara tampada. Sirva com batatas fritas.

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