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Saudades de Rubem Alves

Rubem Alves foi um dos maiores pensadores do seu tempoRubem Alves foi um dos maiores pensadores do seu tempo - Arte/Folha de Pernambuco

Rubem Alves (15 de setembro de1933 –19 de julho de 2014) foi, com rigorosa certeza, um dos maiores pensadores do seu tempo. Escritor, filósofo, psicanalista, teólogo.

E, sobretudo, educador. Ensinar, segundo suas próprias palavras, “deve ser um ato de alegria, um ofício que deve ser exercido com paixão e arte”.

Por isso era permanentemente preocupado com a qualidade de nossa educação.

“Há escolas que são gaiolas e escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar”. Gostaria de ter sido muitas outras coisas. Acontece que “a vida é curta e as artes são muitas. Gostaria de ser pianista, jardineiro, artista de ferro e vidro, e talvez monge. E gostaria, sobretudo de ser um cozinheiro”.

Como dizia, “É que tenho um fascínio enorme pelas panelas, pelo fogo, pelos temperos e por toda a bruxaria que acontece nas cozinhas”.

Teve até um restaurante, em Campinas. Mas chegou a conclusão de que “Era mais competente com as palavras do que com as panelas”.

Por isso, “Tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de culinária literária”.

Escreveu sobre quase tudo. Cebolas (para Neruda, “rosa d’água com escamas de cristal”), nabos, ora-pro-nobis, pepinos. Também “Pimentões brilhantes, lisos, vermelhos, amarelos e verdes; ainda hei de decorar uma árvore de Natal com pimentões”.

Pratos como bacalhoada, churrascos, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, sopas, suflês. E até pipoca: “Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira”. Em homenagem a esse grande pensador, reproduzo aqui trechos de Cozinha – um belo artigo seu publicado no Correio Popular (em 19 de março de 2000).

“Qual é o lugar mais importante da sua casa? Eu acho que essa é uma boa pergunta para início de uma sessão de psicanálise. Porque, quando a gente revela qual é o lugar mais importante da casa, a gente revela também o lugar preferido da alma. Nas Minas Gerais, onde nasci, o lugar mais importante era a cozinha. Não era o mais chique e nem o mais arrumado.

Lugar chique e arrumado era a sala de visitas, com bibelôs, retratos ovais nas paredes, espelhos e tapetes no chão. Na sala de visitas as criança se comportavam bem, eram só sorrisos e todos usavam máscaras. Na cozinha era diferente: a gente era a gente mesmo, fogo, fome e alegria ...

“A alma mineira vive de saudade. Tenho saudades do que já foi, as velhas cozinhas de Minas, com seus fogões de lenha, cascas de laranja secas, penduradas, para acender o fogo, bule de café sobre a chapa, lenha crepitando no fogo, o cheiro bom da fumaça, rostos vermelhos. Minha alma tem saudades dessas cozinhas antigas ... 

“Fogo de fogão de lenha é diferente de todos os demais fogos. Veja o fogo de uma vela acesa sobre uma mesa. É fogo fácil. Basta encostar um fósforo aceso no pavio da vela para que ela se acenda. Não é preciso nem arte nem ciência. Até uma criança sabe. Só precisa um cuidado: deixar fechadas as janelas para que um vento súbito não apague a chama. O fogo do fogão é outra coisa.

Bachelard notou a diferença: ‘A vela queima só. Não precisa de auxílio. A chama solitária tem uma personalidade onírica diferente da do fogo na lareira. O homem, diante de um fogo prolixo pode ajudar a lenha a queimar, coloca uma acha suplementar no tempo devido. O homem que sabe se aquecer mantém uma atitude de Prometeu, Daí seu orgulho de atiçador perfeito...’

Fogo de lareira é igual ao fogo do fogão de lenha. Antigamente não havia lareiras em nossas casas. O que havia era o fogo do fogão de lenha que era, a um tempo, fogo de lareira e fogo de cozinhar...

“Já se disse que o homem surgiu quando a primeira canção foi cantada. Mas eu imagino que a primeira canção foi cantada ao redor do fogo, todos juntos se aquecendo do frio e se protegendo contra as feras. Antes da canção, o fogo. Um fogo aceso é um sacramento de comunhão solitária. Solitária porque a chama que crepita no fogão desperta sonhos que são só nossos. Mas os sonhos solitários se tornam comunhão quando se aquece e come...

“Nas casas de Minas a cozinha ficava no fim da casa. Ficava no fim não por ser menos importante mas para ser protegida da presença de intrusos. Cozinha era intimidade. E também para ficar mais próxima do outro lugar de sonhos, a horta-jardim. Pois os jardins ficavam atrás. Lá estavam os manacás, o jasmim do imperador, as jabuticabeiras, laranjeiras e hortaliças. Era fácil sair da cozinha pra colher chuchus, quiabo, abobrinhas, salsa, cebolinha, tomatinhos vermelhos, hortelã e, nas noites frias, folhas de laranjeira para fazer chá ...

“Sinto-me feliz cozinhando. Não sou cozinheiro. Preparo pratos simples. Gosto de inventar. O que mais gosto de fazer são as sopas. Vaca atolada, sopa de fubá, sopa de abóbora com maracujá, sopa de berinjela, sopa de mandioquinha com manga, sopa de coentro...

Você já ouviu falar em sopa de coentro? É sopa de portugueses pobres, deliciosa, com muito azeite e pão torrado. A sopa desce quente e, chegando no estômago, confirma ... A culinária leva a gente bem próximo das feiticeiras. Como a Babette (em Festa de Babette) e a Tita (em Como água para chocolate)...” 

Pouco antes de morrer (em 19 de julho de 2014), há exatos 12 anos, cansado de escrever como um dever todas as semanas, fez uma crônica de despedida.

“A velhice é o tempo do cansaço de todas as coisas. Estou velho. Estou cansado. Já escrevi muito. E como acontece com as estrelas, há sempre a obrigação de brilhar.” Só que, para seus leitores devotos, ele será para sempre uma estrela brilhando. Nos lembrando, com palavras, a beleza da vida. Viva Rubem Alves! 

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