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Leishmaniose: conheça a doença e saiba como proteger o pet

Evolução no tratamento permite qualidade de vida

Lau foi resgatado em situação crítica e respondeu positivamente ao tratamento na clínica Unimev/Unipet, no Recife - Cortesia/Mariana Perylo

Há alguns anos, receber o diagnóstico de leishmaniose era o pior pesadelo para o tutor de um animal. Não que isso tenha se tornado algo bom - pelo contrário -, mas, hoje em dia, é possível vislumbrar possibilidades de tratamento, dando qualidade de vida aos animais. 

A mudança no cenário se deu porque foi liberado o uso de medicações voltadas para o controle da doença, fazendo com que o animal saia da condição de infectante para o posto de infectado. Na prática, significa que ele deixa de ser um reprodutor da doença no ambiente. 

Quando o tutor se compromete a realizar o tratamento de forma responsável, com visitas regulares ao médico veterinário e exames periódicos, o animal tem a chance de uma vida normal. 

Antes da autorização para utilizar esses medicamentos, um animal diagnosticado com leishmaniose era considerado risco comunitário e, por isso, era submetido à eutanásia. 

O que é a doença
A leishmaniose é uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero leishmania. O único vetor de transmissão é um mosquito hematófago do gênero lutzomyia. 

"Chamamos de flebotomíneos e, popularmente, de mosquito-palha”, diz a médica-veterinária da clínica Home Vet, do Recife, Manuela Passos, que acompanha alguns animais portadores de leishmaniose. 

A leishmaniose não é uma doença contagiosa entre cães e gatos. Ou seja, um pet infectado não vai passar a doença para outro. Para que aconteça a transmissão, o mosquito-palha precisa picar um animal ou ser humano infectado.

Ao sugar o sangue, ele se torna hospedeiro do protozoário e vira um vetor de transmissão. O tempo que um pet picado por um mosquito infectado levará para começar a desenvolver sintomas depende da resposta imune dele. 

"Geralmente é uma doença de progressão crônica. Pode levar semanas e até anos com o paciente assintomático ou em estado subclínico, com sintomas muito leves”, explica Manuela.  

"Os mamíferos, de uma forma geral, são vulneráveis à doença, mas os cães, na região urbana, e as raposas e marsupiais, no ambiente silvestre, são os reservatórios, os que mantêm a doença no ambiente”, completa. 

Animais domésticos
Em relação aos pets, a maior incidência de relatos de leishmaniose envolvem os cães. Mas os gatos também são susceptíveis, embora os casos sejam mais raros. 

GatoCasos em felinos são mais raros. Foto: Pexels 

Comparados aos caninos, os bichanos possuem uma resistência maior no organismo, dificultando a reprodução do protozoário. Neles, os sintomas costumam demorar mais a aparecer. 

Nos animais, é mais comum a manifestação da leishmaniose cutânea, que atinge mais a pele. Nódulos cutâneos, lesões de pele, crescimento das unhas, queda de pelos e feridas que não cicatrizam, principalmente nas pontas das orelhas, são os sintomas mais clássicos. 

A forma visceral, que atinge os órgãos internos, sobretudo baço e fígado, é mais severa. Os sintomas mais comuns são apatia, perda progressiva de peso, crescimento de baço e fígado, anemia e dores articulares. Em humanos, é mais comum a ocorrência da leishmaniose visceral. 

Independente dos sintomas apresentados inicialmente, a doença é uma só. Então, um animal com lesões de pele, se não tratado, pode evoluir para o comprometimento dos órgãos. 

Diagnóstico

Coleta para exame de sangueMaterial coletado para exame. Foto: Pexels 

Para fechar o diagnóstico, é necessário ao menos dois exames apontando a infecção. Existe uma série de testes que podem ser utilizados em casos suspeitos. Uns fazem pesquisa por antígeno e outros buscam anticorpos. 

Tratamento
O primeiro passo após o diagnóstico da doença é iniciar um ciclo de tratamento com Milteforan, medicação que vai diminuir a carga parasitária no organismo do animal. Isso é o que o fará perder a capacidade de infectar.

Antes, quando não havia autorização para usar o Milteforan em animais, era impossível matar os parasitas e, por isso, eles se tornavam fonte de disseminação da doença. 

"Com o Milteforan, a gente pode tratar tranquilamente. Mas continua sendo uma doença de notificação obrigatória. Eu tenho que notificar a Vigilância Sanitária, que vai até o endereço para se certificar que o tutor está realizando o tratamento e para tentar entender como pode ter acontecido a infecção”, explica Manuela. 

Medicação Milteforan, para tratamento da leishmaniose Foto: Divulgação/Internet

Essa preocupação sanitária com o compromisso do tutor em manter o tratamento corretamente tem motivo. O Milteforan é um medicamento de alto custo, chegando a passar de R$ 800. Mas é ele que determinará o futuro do animal infectado. 

Geralmente, são feitos 28 dias de uso de Milteforan, com um acompanhamento dessa carga parasitária. E, de acordo com os sintomas apresentados, outras medicações são associadas.

Essa medição da carga deve ser refeita regularmente em intervalos entre quatro e seis meses. Se houver aumento, é iniciado um novo ciclo com o Milteforan. “Tenho duas pacientes irmãs que uma fez somente um ciclo, enquanto a outra já fez vários”, conta a médica-veterinária. 

Expectativa de vida
Com as medicações certas, hoje é possível dar plena qualidade de vida para os animais infectados. É preciso realizar check-ups regulares e manter a imunidade em dia para evitar oscilações no organismo. A baixa na imunidade é um fator determinante nesse grupo. 

Evolução de Sansão, de oito meses, 20 dias após iniciar tratamento. Foto: Cortesia/Dra. Manuela Passos

“A gente faz o diagnóstico e gradua a doença. O estádio 1, por exemplo, é quando está infectado, mas não tem sintomas. O 2 é quando é positivo, tem alguns sintomas, mas não apresenta lesão renal. Os mais graves são os que têm comprometimento dos rins, porque as medicações usadas são nefrotóxicas. E aí eles terminam indo a óbito”, explica Manuela. 

"Se eu pego um animal em estádio 1, a expectativa de vida dele é normal, igual à de qualquer outro. Provavelmente vai morrer de qualquer outra coisa, menos da leishmaniose. Mas, quando a descoberta é feita já  muito avançada, ou quando o animal já tem alguma comorbidade associada, dificulta mais o prognóstico."

Prevenção é o melhor caminho
Existe uma vacina para os cães, a Leishtec, que tem 76% de eficácia no combate ao desenvolvimento da doença. 

“Sozinha, ela não vai garantir o efeito total de proteção. Animais que moram ou vão para áreas endêmicas (de maior incidência) têm que vacinar e usar produtos repelentes para que essa proteção aumente. O ideal era que o animal não fosse para áreas endêmicas, mas, se não tem outra opção, é associar ao máximo vacina e repelente”, indica Manuela. 

Cão com coleira repelente Coleiras repelentes têm, em média, de quatro a seis meses de eficácia. Foto: Pexels. 

Para vacinar o pet, no entanto, não é simplesmente chegar no consultório e pedir para o veterinário aplicar. Primeiro, o animal será submetido a um exame sorológico para checar se é ou não infectado. 

Esse resultado demora alguns dias e, somente a partir do laudo negativo, é que é iniciada a aplicação das doses. A primeira vacinação é feita em três doses, com intervalos de 30 dias. Depois é só fazer o reforço anual. Caso você perca o reforço, será necessário fazer todo o processo novamente. 

Com a evolução do segmento pet, é possível encontrar diversas opções de repelentes no mercado, desde as tradicionais coleiras (sendo seresto, leevre e scalibor as mais indicadas), passando por pipetas (vectra) até a opção em spray.  

Como os gatos não são hospedeiros comuns do parasita, não existe tanta necessidade de vacinação ou uso de repelentes nos bichanos. Para evitar riscos em casa, o tutor deve sempre procurar manter o ambiente limpo.  

LixoLixo acumulado pode ser ninho para o mosquito-palha. Foto: Pexels. 

Entulhos, sacos de lixo acumulados ou mesmo fezes dos animais expostas por longos períodos podem servir de ninho para a reprodução do mosquito-palha. 

Áreas endêmicas
No Brasil, os estados de Pernambuco e Minas Gerais são os que apresentam os maiores registros de casos de leishmaniose. Em geral, áreas litorâneas e de mata são os focos principais. No entanto, com as mudanças sociais, atualmente a doença se faz presente também em áreas urbanas. 

Em Pernambuco, aparecem como áreas de risco as praias de Itamaracá (Litoral Norte), Porto de Galinhas, Muro Alto, Barra de Sirinhaém e Carneiros (Litoral Sul), além de Gravatá (Agreste) e Camaragibe, com destaque para Aldeia (Região Metropolitana do Recife). 

Muro Alto, uma das praias mais conhecidas de Porto de GalinhasLitoral Sul de Pernambuco é área endêmica. Foto: Divulgação/Águila Comunicação 

“A maioria dos meus pacientes são ou foram para áreas consideradas endêmicas. Mas tenho pacientes em bairros da RMR também. Hoje os pets são parte da família. Muitos tutores vão para a casa de praia ou de campo e levam os cães. Os animais estão viajando mais e visitando áreas endêmicas com mais frequência. Além disso, o lixo urbano produzido contribui negativamente”, avalia a médica veterinária. 

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