Aceno de Márcio França a Bolsonaro ameaça hegemonia de Pernambuco

Paulo Câmara e Márcio França - Divulgação

Ainda que o PSB dispute a Prefeitura de São Paulo, tendo como cabeça de chapa o ex-governador Márcio França, o Recife figura ainda em primeiro lugar nos planos da direção nacional, relativos ao xadrez eleitoral deste ano. E não é à toa. Desde 1990, o partido é comandado, nacionalmente, por representantes da ala de Pernambuco e essa hegemonia é um reflexo também do potencial eleitoral das lideranças do Estado. Hoje governado por Paulo Câmara, Pernambuco detém a maior bancada na Câmara Federal, ultrapassando São Paulo nessa conta. Historicamente, esses dois polos da legenda, Pernambuco e São Paulo, vivem numa linha tênue de equilíbrio, que, por vezes, dá espaço a uma disputa interna de poder já não tão discreta. Não por acaso, a direção nacional da legenda trabalhou com afinco para que o PT apoiasse o projeto majoritário de João Campos no Recife e o insucesso dessa negociação gerou reação dura por parte do presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira. A disputa na Capital pernambucana pode significar um "tudo ou nada" para ala do Estado: se vencer, mantém a hegemonia local e nacional. Se perder, pode perder tudo. Ontem, Márcio França, em entrevista publicada pelo jornal Valor Econômico, informou que vai buscar o voto "FrançaNaro" ou "BolsoFrança", argumentando ser "super compreensível" uma pré-candidatura do PSB ter pontos de afinidade com o presidente Jair Bolsonaro. Segundo socialistas relatam, Márcio, em reuniões internas, já atribuiu a derrota na corrida pelo Governo de São Paulo, em 2018, à comunhão nacional entre PSB e PT. Márcio teve 48% dos votos válidos e o atual governador, João Doria, que apoiou-se no voto "Bolsodoria", venceu com 51% dos votos do eleitorado paulista. A posição de Márcio, hoje, é diametralmente oposta ao que defende a direção nacional do PSB. Carlos Siqueira, ao criticar o PT por "dividir as esquerdas", fez questão de sublinhar que partido faz isso "no momento em que o País está vivendo imensas dificuldades, inclusive, de ameaça à democracia" e defendeu que o ideal seria que as esquerdas se unissem no combate ao governo Jair Bolsonaro. Essas divergências, agora escancaradas por Márcio França, compõem o pano de fundo de um cabo de guerra interno. Uma vitória de Márcio em São Paulo pode resultar em novo embate pelo comando nacional da sigla e isso botaria em xeque a hegemonia pernambucana na legenda.

 

Resolução do PSB veda
Cabo de guerra interno à parte, a posição que Márcio França passa a defender, hoje, abertamente, no bojo de seu projeto para concorrer à Prefeitura de São Paulo, esbarra na própria resolução nacional do PSB deste ano, que veda a defesa do atual governo federal.

Contrariando > O texto da resolução de 2020, no seu artigo 2º, em parágrafo único, diz o seguinte: "Fica terminantemente vedado a possibilidade de apoio a candidaturas e/ou candidatos que defendam o atual governo. De igual modo, não terão legenda para disputar qualquer cargo pelo PSB aqueles que defendam o bolsonarismo/extrema direita". 

Fogo amigo > No Twitter, o deputado federal Orlando Silva, do PCdoB, pré-candidato à Prefeitura de São Paulo, atacou Márcio França: "Saiu a fumaça branca: Bolsonaro já tem um candidato em São Paulo. Quem estava costeando o alambrado, agora, resolveu vestir a camisa do bolsonarismo. Triste fim...".

Leve dOIS > Prefeito de Jaboatão e candidato à reeleição, Anderson Ferreira diz que o PL, partido que preside, vai "caminhar junto com o PSC numa decisão no Recife". O PSC é presidido por André Ferreira. Leia-se: os dois partidos apoiarão a mesma pré-candidatura