Minuto Geográfico: Uma Jornada Pelos Marcos Geopolíticos e Históricos da Cidade

por João Correia

Mapa da Cidade Maurícia, 1639. - Atlas de J. Vingboons/Acervo IAHGP.

Em  nosso livro, Inpiração Recife além de explorarmos histórias inspiradoras das empresas parceiras, também contamos com a ajuda de profissionais, históriadores e geografos para contar a história da nossa amada cidade. Desfrute agora do capitulo Minuto Geografico por João Correia

O Recife é uma cidade vibrante e multifacetada, isso todos seus cidadãos são capazes de apontar. O que muitos, todavia, olvidam é que também Recife teve, e ainda tem, grande importância geopolítica, e esta transcende seus limites territoriais ou sua condição de capital de um estado.
Costumo dizer que Recife foi palco, viu nascer e irradiou muitas das ideias que moldaram a formação econômica, política e territorial do nosso país, com destaque para o legado deixado por importantes intelectuais, alguns deles nascidos em outras cidades, mas que para cá vieram em busca ou por causa de um ecossistema intelectual favorável.
Os nomes não caberiam no espaço deste texto, mas apenas para exemplificarmos o quanto é amplo o espectro de ideias e áreas do conhecimento que tiveram na cidade do Recife seu centro irradiador, citamos o movimento filosófico-jurídico conhecido como Escola do Recife, cujo líder foi Tobias Barreto; o movimento abolicionista, com Joaquim Nabuco e João Alfredo Correia; na sociologia, Gilberto Freyre; na pesquisa histórica, José Antônio Gonsalves de Mello; na geografia, Manuel Correia de Andrade; na economia, Celso Furtado; nas artes, Ariano Suassuna.
Todos eles, e muitos outros, cujas ideias sacudiram o país e são, ainda hoje, incontornáveis em seus campos de conhecimento.
Então, caro leitor, podemos afirmar que a nossa cidade tem destaque para a história e a geopolítica do mundo. E, para enriquecer a nossa leitura, trago ainda alguns eventos históricos importantes, que contaram com a participação direta ou indireta de nossa cidade. 
Como um bom geógrafo, no entanto, eu prefiro começar situando-os no espaço, trazendo alguns dados sobre a nossa cidade. Simbora? O Recife é uma planície fluvio-marinha, ou seja, uma área formada pela sedimentação advinda do mar e dos principais rios que cortam a região: o Capibaribe e o Beberibe. A cidade é conhecida por sua localização pitoresca, onde esses dois rios se encontram com o Oceano Atlântico (e isso já nos rendeu excelentes histórias). Com uma posição estratégica ao longo do litoral, a cidade se desenvolveu como um importante centro comercial e cultural.

A proximidade do Equador confere à cidade uma constância climática: calor o ano inteiro e um período mais desafiador de chuvas, que segue entre os meses de abril e julho.  
Os manguezais do Recife são um destaque geográfico e ecológico particular. Eles formam um ecossistema frágil e vital que abriga uma diversidade de espécies marinhas, aves migratórias e flora endêmica. Os manguezais também desempenham um papel importante na proteção contra a erosão costeira e servem como berçários naturais para peixes e outros animais marinhos. São ecossistemas chamados de “ecótonos”, pois são responsáveis pela transição em zonas costeiras. Não podemos esquecer o papel do manguezal para nossa rica cena cultural, ainda mais a musical, mas este é tema que merece ser explorado e destacado noutro momento. 

Cartão postal do Forte do Picão, início do século XX.  

Com sua colonização portuguesa e subsequente ocupação holandesa no século XVII, o Recife absorveu uma mistura de influências que ainda são visíveis em seu patrimônio material e imaterial.

Tomada do Porto de Pernambuco pela Companhia das Índias Ocidentais, 1640.  


Para me fazer didático, vou seguir uma linha cronológica. Você já estudou sobre as relações entre o Recife, o Judaísmo e os Estados Unidos? Leia com atenção. 
A relação entre o Recife e a comunidade judaica é uma parte fascinante e significativa da história da cidade, que tece uma conexão rica, ligando Brasil, Europa e até mesmo Nova York. Reflete a cidade como um cruzamento de culturas, religiões e comércio internacional.
No século XVII, durante a ocupação holandesa do Nordeste brasileiro, o Recife tornou-se um refúgio para os judeus sefarditas que fugiam da perseguição na Europa. Maurício de Nassau, governador holandês da região, promoveu políticas de tolerância religiosa, atraindo judeus de lugares como Portugal e Espanha. Esses imigrantes desempenharam um papel vital na economia local, contribuindo para o desenvolvimento do comércio e da agricultura, particularmente na indústria açucareira.
A Sinagoga Kahal Zur Israel, localizada na Rua do Bom Jesus no Recife, é um testemunho desse período histórico. Fundada em 1636, ela é a sinagoga mais antiga das Américas e representa um marco da presença judaica no Novo Mundo. Hoje, a sinagoga é um museu e um local de peregrinação para judeus e não judeus interessados nessa história complexa e intrigante.

Atual Rua do Bom Jesus, século XVII.

Sinagoga Kahal Zur Israel.


A conexão com Nova York vem com a expulsão dos holandeses do Brasil pelos portugueses em 1654. Com a retomada do controle português e a reinstauração das restrições religiosas, muitos judeus foram forçados a fugir novamente. Alguns deles se estabeleceram em Nova Amsterdã, que mais tarde se tornaria Nova York. Esses imigrantes foram entre os primeiros colonos judeus na cidade, estabelecendo a primeira congregação judaica, a Shearith Israel, em solo americano.
Essa interação histórica entre o Recife, a comunidade judaica e Nova York reflete um período de troca, tolerância, perseguição e resiliência. É uma janela para um tempo em que Recife era um caldeirão de culturas e um centro de comércio internacional, com uma posição geopolítica de destaque. Também ressalta o papel da cidade na formação de outras comunidades ao redor do mundo, como Nova York.
A conexão entre Recife e Nova York, através do êxodo de judeus, é um capítulo pouco conhecido, mas essencial na história global, e uma ilustração do papel do Recife como um elo vital na rede de migração, religião e comércio internacional.

Embarcação comum nas expedições ao longo dos séculos XVII e XVIII.  


Vamos seguir? Recife foi de fato palco de duas importantes revoluções na história do Brasil: a Revolução Pernambucana de 1817 e a Confederação do Equador, em 1824. Esses eventos são emblemáticos da luta pela autonomia, liberdade e reforma na região e no país como um todo, o que por si só já demonstra a importância histórica e geopolítica da cidade. 
A Revolução Pernambucana de 1817 foi um movimento insurgente que teve suas raízes nas frustrações econômicas, políticas e sociais que permeavam a sociedade pernambucana na época. A região estava insatisfeita com a alta carga tributária, a falta de representação política e a concentração de poder nas mãos da elite do Rio de Janeiro. Atores importantes dessa revolução incluem nomes como Domingos José Martins, Pedro Pedroso e Antônio Carlos de Andrada que foram figuras-chave na liderança e organização do movimento.

Bandeira da Revolução Pernambucana de 1817.
A Confederação do Equador, em 1824, foi outra revolta importante, uma resposta à imposição da Constituição outorgada por D. Pedro I, que consolidava o poder centralizado. Esse movimento exigiu uma constituição mais democrática e foi liderado por pessoas como Frei Caneca e Manuel de Carvalho Paes de Andrade. Infelizmente, o movimento foi brutalmente reprimido, mas deixou uma marca indelével na história de luta por direitos civis e autonomia regional.
Recife foi crucial para esses eventos por várias razões. A cidade era um centro econômico, político e cultural, com uma população diversificada e cosmopolita. As tensões sociais, a presença de intelectuais e militares descontentes e a necessidade de reformas econômicas criaram um ambiente propício para a insurgência. A localização estratégica do Recife também facilitou a comunicação e coordenação entre diferentes grupos envolvidos.
Para aqueles interessados em visitar locais relacionados a esses eventos no Recife, o Forte das Cinco Pontas é uma parada obrigatória. Construído pelos holandeses e posteriormente utilizado pelos portugueses, ele desempenhou um papel nas duas revoluções e hoje abriga o Museu da Cidade do Recife. A Praça da República é outro local histórico que foi palco de muitos eventos importantes, e o Teatro de Santa Isabel também tem ligações com essa época. Além disso, a visita ao Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano pode oferecer insights adicionais sobre esses eventos cruciais.

 Museu da Cidade do Recife.


E, se formos até o século XX, qual evento histórico moldou aquele tempo colocando o mundo perto de um fim? Acertou se pensou na Segunda Guerra Mundial. Pois bem. Você sabia que o Recife desempenhou um papel importante como base para as operações aliadas no Atlântico Sul? Pode acreditar! 
Em 1942, os Estados Unidos estabeleceram uma base naval no Recife, conhecida como U.S. Naval Air Station Recife, ou NAS Recife. A base era parte da estratégia aliada para combater os submarinos alemães que atacavam os navios no Atlântico.
As operações a partir do Recife permitiram a patrulha do Atlântico Sul e ajudaram a proteger as rotas marítimas cruciais. A presença norte-americana influenciou a cultura local e trouxe benefícios econômicos durante um período crítico.
O prédio da antiga base ainda existe e está situado no Recife Antigo, servindo agora como sede da Marinha do Brasil.


Panfletos que circularam no Recife durante a Segunda Guerra Mundial alertando o risco de ataque à cidade, década de 1940. Panfletos que circularam no Recife durante a Segunda Guerra Mundial alertando o risco de ataque à cidade, década de 1940

A presença americana durante a Segunda Guerra Mundial e a subsequente cooperação na Guerra Fria mostram como o Recife foi inserido em uma rede global de alianças e estratégias. Para enriquecer ainda mais: o Consulado Geral dos Estados Unidos no Recife, estabelecido no ano de 1815, é o posto de representação diplomática dos EUA mais antigo no Brasil.
Recife não é apenas uma cidade; é um ecossistema das dinâmicas globais, refletindo e contribuindo para as tendências históricas, culturais e políticas que moldam nosso mundo. Seu legado, desde o período colonial até sua posição na era moderna como um centro de inovação, oferece uma visão única da interseção entre o local e o global. A riqueza da história do Recife, sua influência geopolítica e seu espírito inovador o tornam um ponto de referência essencial no mapa do mundo, um lugar onde o passado encontra o presente e aponta para o futuro. A cidade permanece um símbolo vivo da capacidade de transcender as fronteiras locais e se engajar com as questões e oportunidades globais, reafirmando sua relevância e destaque.


 

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