Recife 500 Anos

A cidade atropelada pela explosão populacional e pelo automóvel

Trânsito do Recife, primeira metade do século XX. - Museu da Cidade do Recife.

O Recife atravessou a primeira metade do século XX como uma cidade que procurou, com relativo sucesso, fazer o seu desenvolvimento urbano da forma mais planejada possível, remodelando seus bairros centrais e seguindo um plano de expansão que pudesse dar conta dos desafios da suburbanização puxada pelo crescimento populacional.
Todavia, o fenômeno da migração populacional do campo para a cidade vivido pelo país, fortemente intensificado após a 2ª Guerra Mundial, atingiu o Recife em cheio. Na condição de centro então mais desenvolvido do Nordeste, a cidade (como pode ser visto no gráfico a seguir), teve a sua população duplicada de 1950 (cerca de 500 mil habitantes) para 1970 (mais de 1 milhão de habitantes). Se considerados os números do início do século XX, a população quase que decuplica até 1970.
  Gráfico do crescimento populacional do Recife.
E, como se não bastassem os impactos dessa avalanche populacional da qual não escaparia incólume nenhuma cidade do país, muito menos uma que era a metrópole mais importante de uma região tão carente quanto o Nordeste, o Recife ainda foi atingido por outra avalanche na qual o Brasil mergulhou de cabeça, acompanhando uma irreversível tendência mundial: a invasão do veículo individual motorizado, o automóvel. Depois desse fenômeno, a cidade cresceu desmesuradamente sua malha viária, que cuidou de dificultar enormemente a chamada “mobilidade ativa” (não motorizada, feita por pedestres e ciclistas) e confinando o transporte público, feito predominantemente por ônibus, aos infindáveis engarrafamentos que tomaram as ruas do Recife.
Trânsito do Recife, primeira metade do século XX.
O Recife em processo de reinvenção
Vítima dos atropelos do fim do século XX, o Recife inicia o século XXI — momento em que Pernambuco passa por um novo processo de desenvolvimento acelerado, com atração de investimentos do porte dos estaleiros navais, da refinaria e da montadora de veículos, além dos inúmeros investimentos industriais — com uma estrutura urbana mais do que carente e uma quase completa ausência de planejamento estratégico de longo prazo, sofrendo, após o fim da ditadura militar, um processo de desmantelamento em nível nacional. Enfraqueceu-se o Ministério do Planejamento; desmantelou-se a Sudene; a Fundação de Desenvolvimento da Região Metropolitana do Recife (Fidem) entrou em decadência e foi fundida com o Instituto de Desenvolvimento de Pernambuco (Condepe), que teve um importantíssimo papel para o planejamento e o desenvolvimento do estado nas décadas de 1950 até 1970. Na Prefeitura do Recife, a estrutura de planejamento também sofreu desmantelamento estrutural, a despeito dos genuínos esforços de recuperação feitos pelos governos municipais eleitos democraticamente após o final da ditadura militar.
A deterioração urbana do Recife chegou a tal ponto que, no final da primeira década do século XXI, a cidade conquistou a triste marca de “capital mais violenta do país”. Foi então que se deu uma articulação da sociedade civil organizada, tendo como uma das principais referências a experiência de recuperação das cidades colombianas de Bogotá e Medellín, e foi criado o Observatório do Recife, que, na campanha municipal de 2012, com o apoio de diversas entidades da sociedade civil organizada, lançou o projeto O Recife que Precisamos e apresentou a todos os candidatos a prefeito uma sugestão de abordagem da problemática urbana partindo da retomada do planejamento estratégico de longo prazo para a cidade.
Essa retomada baseou-se no entendimento de que se faz necessária a construção de uma visão de cidade que incorpore a dimensão do sonho e compreensão mítica da cidade desejada. Um conceito que foi usado para ilustrar essa necessidade encontra-se expresso numa frase do sociólogo recifense Francisco de Oliveira, superintendente-adjunto da Sudene na gestão de Celso Furtado, possivelmente um dos frequentadores do Bar Savoy: “Uma cidade é sonhada, é mítica ou não é cidade”.
 
Projeto O Recife que Precisamos

Por mobilização do Observatório do Recife — movimento formado por militantes individuais e entidades da sociedade civil organizada, que havia sido criado em 2008 para estudar a situação de degradação do Recife por intermédio da coleta, sistematização e relacionamento dos indicadores principais da cidade —, foi montado o projeto O Recife que Precisamos para expor aos candidatos à eleição para a prefeitura o entendimento de diversos especialistas consultados.
 
Entidades mobilizadas pelo Observatório do Recife no desenvolvimento do projeto O Recife que Precisamos em 2012.
 
Além da participação na campanha eleitoral de 2012, o projeto O Recife que Precisamos foi reeditado nas campanhas de 2016 e 2020. Na versão 2020, participaram, como promotores das apresentações e discussões com os candidatos, além do Observatório do Recife, o Iperid, a Rede Gestão e a revista Algomais.
 
O Recife que Precisamos em 2012.
 
Então, foram apresentados aos candidatos a prefeito do Recife as prioridades: (1) O futuro (Planejamento de longo prazo); (2) A cidade (Controle Urbano); (3) O caminho (Mobilidade); (4) A história (Centro da Cidade); (5) O Rio (Rio Capibaribe); e (6) O mundo (Diplomacia).
 
  Prioridades do projeto O Recife que Precisamos na versão 2021.
 
Ao longo do tempo em que tem atuado como “provocador” de temas fundamentais para o presente e o futuro do Recife, O Recife que Precisamos ajudou a pautar projetos de grande importância para o Recife, como é o caso: (1) do Plano Recife 500 Anos, que retoma o planejamento de longo prazo tendo como alvo o ano de 2037, quando o Recife será a primeira capital brasileira a completar 500 anos (uma descoberta do projeto O Recife que Precisamos); (2) do projeto urbanístico Parque Capibaribe, resultado de uma pesquisa aplicada de sete anos realizada em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); (3) do projeto Recentro, cujo objetivo é recuperar o Centro do Recife; e (4) da Coleção Recife 500 Anos, realizada em parceria entre a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) e a UFPE, que registra na forma de livros o que vai sendo produzido pelo esforço de reinvenção do Recife.
 
Três livros da Coleção Recife 500 Anos, que sistematiza os pilares da reinvenção do Recife.
 
Parque Capibaribe e a reinvenção urbanística do Recife
A pesquisa que resultou no projeto urbanístico Parque Capibaribe teve tão grande importância que chegou a indicar os caminhos da necessária reinvenção urbanística do Recife como uma cidade-parque tendo o Rio Capibaribe como um importante vetor dessa reinvenção.
 
O Parque Capibaribe caracteriza-se pela criação de uma Zona Parque em torno do Rio Capibaribe, desde sua entrada no Recife, no Bairro da Várzea, até sua chegada ao Oceano Atlântico, no Centro da Cidade, com a transformação de suas margens (15 quilômetros de cada lado) num sistema de parques capaz de integrar todas as áreas verdes da cidade.
  Zona Parque em torno do Rio Capibaribe conformando o Parque Capibaribe.

 
O projeto Parque Capibaribe foi concebido com base no conceito que se poderia chamar de “urbanismo Lego” ou “urbanismo quebra-cabeça”, que permite a construção de trechos alternados ao longo da bacia do rio no âmbito de um desenho geral do que é pretendido. Assim, foi lançada a “pedra fundamental” do Parque, com o Jardim do Baobá, em Ponte d’Uchoa; em seguida, a Praça Otávio de Freitas, no Derby, e o Parque das Graças, peças montadas do “quebra-cabeça” final.
 
Jardim do Baobá e do Parque das Graças. Jardim do Baobá e do Parque das Graças.
 
 
Recife Cidade Parque

A pesquisa urbanística aplicada do Parque Capibaribe, além do plano urbanístico elaborado, produziu também o conceito do Recife Cidade Parque, atrelado aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e à Nova Agenda Urbana (NAU).
A transformação do Recife numa cidade-parque, conforme apontado na pesquisa que produziu o Parque Capibaribe, requer, assim como foi feito com a Bacia do Rio Capibaribe, o estudo e a proposição de diretrizes urbanísticas e paisagísticas também para as bacias do Rio Beberibe, a norte, e do Rio Tejipió, a sul da cidade, além do Parque Marinho correspondente a toda a borda costeira atlântica da cidade. Tudo de modo a que, em 2037, quando o Recife será a primeira capital brasileira a completar 500 anos, estejam lançadas as bases para a materialização dos princípios essenciais da cidade-parque, que deve ser: (1) inclusiva; (2) saudável; (3) próspera; e (4) pacífica.
 
 Quadros-síntese indicando as bacias do Capibaribe, do Beberibe e do Tejipió e o Parque Marinho. Quadros-síntese indicando as bacias do Capibaribe, do Beberibe e do Tejipió e o Parque Marinho.
 
Imagem: Perspectiva do Parque Capibaribe com as infiltrações que configuram a cidade-parque.
 
 
Conclusão
“Uma cidade sem projeto de futuro é uma cidade sem esperança.”
Roberto Montezuma
 
A observação dos fenômenos intensificados no século XXI e sumariamente descritos neste texto induz ao entendimento de que pelo menos três instâncias de articulação, como atores relevantes, estão no cerne do processo de mudança a ser perseguido e aperfeiçoado no caminho da reinvenção necessária: o incremento da cidadania ativa pela intensificação da mobilização cidadã; a qualificação do poder público municipal e sua permeabilidade com as demandas da cidadania; e a integração e o desenvolvimento do conhecimento científico gestado sobretudo nas universidades, que devem estar o mais integradas possível às demandas atuais da sociedade urbana. O esquema abaixo tenta caracterizar essa articulação essencial e regenerativa no caminho da indispensável reinvenção do Recife.
 
Esquema da articulação das dimensões essenciais à reinvenção do Recife.
 
Em relação à cidadania ativa, a mobilização cidadã se manifesta essencialmente pela via da internet, seja por intermédio de manifestações mais ou menos espontâneas, seja por intermédio das novas associações de bairro, ou seja, por intermédio da articulação da chamada “sociedade civil organizada”.
 
Já no que diz respeito à qualificação e à permeabilidade do poder público, seja o Executivo ou o Legislativo municipais, seja nas demais instâncias federativas (estadual, federal e mesmo metropolitano e regional), é fundamental que ele aprenda a ser permeável às influências da mobilização cidadã e aperfeiçoe sua capacidade de intervenção eficaz na esfera pública, seja em relação à prestação dos serviços essenciais que são de sua responsabilidade (como saúde, educação e segurança, por exemplo), seja em relação à sua capacidade de intervenção de qualidade no espaço público, por exemplo.
No que diz respeito à universidade, como produtora de conhecimento por intermédio da pesquisa, da extensão e do próprio ensino, parece ser indispensável que ela se disponha a interagir o mais possível, tanto com as crescentes demandas da cidadania urbana quanto com o poder público, para o qual pode e deve ser repositório e instância de construção e interação do conhecimento necessário às mudanças requeridas.
Olhando sob uma perspectiva otimista, o processo que se desenrola no Recife nas primeiras décadas do século XXI permite a conclusão de que se podem identificar ingredientes de uma mudança que seja boa para a cidade tendo em vista o seu aniversário de 500 anos, em 2037. Todavia, uma mudança positiva nas condições de vida urbana não se dará sem que seja construído um projeto de cidade que conte com a participação ativa da sociedade. A novidade é que talvez na história do Recife nunca tenha havido condições tão propícias para isso, conforme se pode deduzir da observação das forças que se movem e articulam no ambiente urbano.
Esse condicionante se coloca com clareza na atual quadra da história da cidade. Centro regional econômico e cultural de um vasto território no Nordeste brasileiro, o Recife tem indiscutivelmente conteúdo histórico para isso. Vale dizer, tem potencial de sonho e de mobilização mítica para dar uma “virada” no processo de degradação de que foi vítima junto com as grandes cidades brasileiras. Resta mobilizar “produtivamente” os ingredientes que se colocam atualmente para a construção de um projeto que seja de fato coletivo, justo e tecnicamente capaz de reinventar a cidade com a mobilização da necessária esperança na construção de um Recife que os recifenses precisam e merecem. Com um tema e um horizonte ideal para isso: o de cidade-parque, como o Parque Capibaribe mostrou ser possível.
Afinal, como a história urbana da cidade mostra à exaustão, o futuro é sempre um campo aberto de possibilidades, e, como já se disse, a melhor forma de antecipá-lo é construí-lo. Na atualidade, a cidade parece estar, justamente, preparada para uma construção competente, conduzida em estreita articulação entre a sociedade civil, o poder público e a academia. O importante é que, no que nos diz respeito, apoiemos e nos engajemos, pessoal e coletivamente, nesse esforço de reinvenção. Afinal, a cidade não só precisa, como, por sua rica história, merece. Mentes e mãos à obra, portanto!
 

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