A evolução da medicina pernambucana e os 165 anos do RHP por Dr. Guilherme Robalinho

Dr. Guilherme Robalinho

          Nos anos 1600, a Província de Pernambuco era a maior e a mais rica área de produção de açúcar do mundo. A companhia das Índias Ocidentais com sede na Holanda buscou se apropriar deste rico território.
           O historiador Evaldo Cabral de Melo demonstrou que os holandeses tiveram suas forças enfraquecidas por uma constante guerra de guerrilhas. Na batalha dos Guararapes, unidos, portugueses, mestiços brasileiros, índios e negros cativos e alforriados venceram.  Para muitos estudiosos, aí ocorreram os primeiros passos da consolidação do Brasil como uma Nação.
           No século dezoito, os limites de Pernambuco, com a anexação das capitanias vizinhas, iam do Ceará a atual divisa dos Estados da Bahia com Minas Gerais, nas margens oeste do São Francisco. 
           A insatisfação dos pernambucanos, com a grande taxação dos impostos sobre a sua rica produção de açúcar e algodão e ainda amargurados com o não reconhecimento por parte da coroa portuguesa do seu esforço na Restauração Pernambucana e agravado, a partir de 1808, com o aumento dos impostos para manter Dom João VI e a corte, no Rio de Janeiro, fez surgir um clima propício para o sentimento republicano, que culminou com os vários movimentos separatistas da primeira metade do século XIX.  Os principais foram: a revolução de 1817, a Confederação de Equador e a última delas a Praieira, que foi de 1848/1850.
            Em 1855, Pernambuco de Frei Caneca era uma província muito menor em área, desde que mais da metade do seu território tinha sido retirado pelas coroas portuguesa e brasileira, como punição pela sua rebeldia.  Mesmo assim, o Recife era a segunda cidade do Brasil, onde os seus 60.000 habitantes estavam inseguros com a anunciada e possível epidemia do cólera, que havia chegado ao Brasil por Belém do Grão-Pará e entusiasmados com o lançamento da pedra fundamental, da ferrovia que a ligaria as margens do rio São Francisco, infelizmente até hoje inconclusa, onde milhões foram consumidos inutilmente. De novo, só o nome pomposo de Ferrovia Trasnordestina, sempre prometida e nunca concluída.
  A colônia portuguesa, reunida no Gabinete Português de Leitura, em 16 de setembro, por sugestão do seu Presidente, o médico José de Almeida Soares de Lima Bastos, resolve fundar e manter um Hospital para atender principalmente aos necessitados, vítimas da epidemia do cólera.
  O Hospital foi instalado, inicialmente, de maneira provisória, no bairro da Boa Vista, em 16 de novembro, numa sessão solene, que teve como orador o General Abreu e Lima, um dos heróis pernambucanos, que havia sido indultado, após passar mais de três anos preso em Fernando de Noronha, por sua participação na Praieira.
  Os primeiros anos da segunda metade do século XIX foram muito inovadores para a medicina. A partir desta época, os hospitais, que eram estigmatizados e vistos como a antessala da morte, passam a ser locais de esperança, cura e renascimento.
  Lister, em Glasgow, Edimburgo e Londres, divulga suas experiências e consegue convencer seus pares das noções básicas de assepsia e da importância de lavar as mãos. Pasteur, em Paris, prova que as infecções eram causadas pelas bactérias, enquanto em Edimburgo, Simpson, introduz a anestesia nas intervenções cirúrgicas.
  A medicina começa a caminhar lado a lado à ciência. Os avanços ocorrem numa dimensão extraordinária, surgem novos meios de diagnósticos e terapêuticas.
 Doenças são vencidas.  
   Nestas primeiras décadas do século vinte e um, a genética, a inteligência artificial, a tecnologia da informação, a biotecnologia e a imunologia nos faz sonhar, na medicina, com soluções impensáveis, pelos pesquisadores, em passado, recente.
  Em 1860, a direção do hoje Real Hospital Português de Beneficência em Pernambuco dá um passo definitivo para fazer desta Instituição o maior e o mais completo Centro Hospitalar do norte, nordeste e centro oeste brasileiro ao adquirir, na então periferia do Recife, o Sitio Cajueiro.
  Com seus “bons ares e boas águas”, o sitio vem fazer parte do patrimônio do Hospital, de “porteira fechada”, com suas benfeitorias, escravos, vacaria e estribaria.
  Lentamente, passo a passo, onde terminava a pequena Avenida Portugal, com seu belo portão de ferro batido, sempre aberto, descortinando, a praça dos leões em mármore branco, preservando a fachada da casa grande, o Hospital vai ganhando forma, acompanhando os avanços da medicina, que são marcantes, a partir da segunda metade do século XX.
  Entre 1970/1980, o Hospital que estava “sonolento, meio anestesiado”, acorda.
 Novos tempos surgem, a Avenida Agamenon Magalhães, ligando Olinda a Boa Viagem, é concluída. O Hospital cede uma grande parte do seu terreno para a conclusão desta obra. Poucos sabem, os seus limites iam até a outra margem, do canal Derby/Tacaruna, onde hoje existe a pista, no sentido Recife/Olinda.
  Os cirurgiões cardíacos Carlos Moraes e Mauro Arruda e os cardiologistas clínicos Edgar Victor e Ivan Cavalcanti migram com o seu Instituto de Doenças do Tórax, do Hospital Barão de Lucena, para o Português.
    Tem início uma nova era.
    Os primeiros passos são dados e surge a moderna cardiologia do RHP, que, além de o transformarem no maior centro de cirurgia cardíaca do Estado de Pernambuco, estimulam os novos médicos, fermentando a criação de vários grupos cardiologicos que, hoje, enriquecem aquela casa, onde foi realizado o primeiro transplante de coração em Pernambuco, em agosto de 1991.
 Lá eles encontraram William Stanford, que foi o idealizador da primeira UTI do Estado e que, como chefe de equipe, também realizou, em fevereiro de 1976, o primeiro transplante renal, ocorrido em Pernambuco e o primeiro, dos 1920 realizados, no RHP, até hoje.
   Encontraram também os Professores Marques: Silvio, Romero e Arnaldo, que continuaram a saga desta família de médicos.  O pioneiro foi  Arnobio Marques,  cirurgião chefe do Hospital, desde os primeiros anos 1900.  Saulo Suassuna na urologia; o Professor Manuel Caetano na neurocirurgia. Djair Brindeiro e Ângelo de Abreu e Lima na ginecologia e obstetrícia.
  Nesta época, uma nova liderança surge na comunidade portuguesa, que, ao lado da junta governativa, idealizou o novo Hospital Português, voltado para a Avenida Agamenon Magalhães, o hoje Provedor Alberto Ferreira da Costa, que, nas suas sucessivas gestões, construiu os edifícios Egas Muniz, Real Hospital do Coração, João de Deus, Santo Antônio, Maria Fernanda e o Edifício Garagem.
  Equipado com os mais modernos equipamentos para diagnóstico e terapêutica, com um corpo clínico de excelência, com aproximadamente 118.000 metros quadrados de área construída, onde seus mais de 7.000 colaboradores cuidam com exigência e protocolos da higienização ao robô da Vinci.  Cumpre o RHP, como grande Hospital que é, a sua função primordial e estatutária o atendimento médico, aos que procuram os seus serviços, independente da sua classe social.
  Neste 2020, como se o destino estivesse previamente determinado, ele, que foi criado na epidemia do cólera dos anos 1850, estava apto, aberto e comprometido com o Sistema Único da Saúde, para atender os portadores da pandemia causada, pelo Covid 19.
  No Ambulatório Maria Fernanda, temporariamente dedicado aos portadores e suspeitos desta enfermidade, até o mês de agosto, foram atendidos 12.400 pernambucanos. 2.500 foram internados, sendo que mais de 400 deles foram encaminhados pelo SUS. 
         As pesquisas médicas, realizadas por várias de suas clínicas, em parceria com universidades brasileiras, americanas e europeias, continuaram, bem como seu muito bem-sucedido programa de residência médica. 
  Como gestor que fui, por quase doze anos, das Secretárias de Saúde do Recife e de Pernambuco, tomo a liberdade e creio que falo em nome de um grande número de pernambucanos, de agradecer a colônia portuguesa de Pernambuco, a Junta Governativa e principalmente ao grande timoneiro, o Provedor Alberto Ferreira da Costa, pelos serviços prestados a nossa gente, por esta Instituição exemplar, o Real Hospital Português de Beneficência de Pernambuco, nestes seus 165 anos de existência.