Aneurisma cerebral: silencioso e traiçoeiro

Dr. Carlos Abaht, especialista em neurorradiologia e grande referência em PE - Livro Inspiração Saúde

Em plena pandemia, onde o anúncio  diário de centenas de vítimas da COVID-19 tornou-se rotina no Brasil, uma morte em especial tocou e comoveu os brasileiros. Em 01/02/2020, véspera do dia de finados, foi encontrado morto o “Louro José”. Não o personagem, mas o jovem ator, Tom Veiga, de 47 anos, que lhe dava vida e graça.  Saudável, jovem, simpático e bem humorado, surpreendeu a todos o seu falecimento súbito. “De que morreu o Louro José ?” A esta pergunta, frequente no Google e redes sociais, respondeu o IML após realizar a autópsia: acidente vascular hemorrágico consequente a rotura de aneurisma cerebral.

Que doença é esta afinal, tão fatal e traiçoeira? O aneurisma cerebral é uma bolha que se forma na parede de uma artéria cerebral, devido a uma fragilidade localizada em determinado ponto do vaso, com dilatação progressiva e lenta ao longo do tempo. Acomete de 1% a 5% da população em geral, sendo mais frequente no sexo feminino, numa proporção de 3/1. Ao contrário do que muitos pensam, o aneurisma não parece ser congênito, já que é muito raro sua detecção em crianças. Provavelmente, o paciente nasce com uma falha estrutural na parede da artéria, determinada ou não por alterações genéticas,  que leva a uma dilatação sacular progressiva, com formação do aneurisma.

 O aneurisma, por suas pequenas dimensões, segue desapercebido por muitos anos, até que se torne, em casos mais raros, bastante volumoso, a ponto de comprimir estruturas nervosas, causando  algum sintoma. Infelizmente, na maioria das vezes, o aneurisma segue silencioso até a sua rotura, quando o paciente é acometido de uma dor de cabeça intensa, náusea e vômitos, perda da consciência, déficits neurológicos, e eventualmente morte súbita. A chance anual de rotura nos pacientes portadores de aneurisma cerebral é em torno de 1% a 2%. Porém , as consequências da rotura são bastante graves, com 1/3 dos pacientes evoluindo para o óbito, 1/3 permanecendo com sequelas neurológicas, e apenas 1/3 evoluindo favoravelmente.

Hoje em dia, com o uso frequente de exames de imagem, como a tomografia computadorizada e a ressonância magnética, muitos aneurismas cerebrais são descobertos incidentalmente, propiciando um tratamento precoce, antes de sua rotura.

O tratamento clássico do aneurisma era feito através do posicionamento de um clip, na  base do aneurisma, através de abertura do crânio com uma serra cirúrgica, e posterior manipulação e afastamento do cérebro para identificação da lesão, e clipagem do aneurisma, sob visão direta. Esta técnica, ainda usada atualmente para casos específicos, vem sendo gradualmente substituída, na maioria dos casos, por métodos menos invasivos, através da introdução de um pequeno tubo (cateter) na artéria femoral, ao nível da virilha. Guiado por imagens de raios-X e reconstruções tridimensionais dos vasos cerebrais, o aneurisma é localizado, e um microcateter é posicionado no seu interior, para posterior introdução de micromolas de platina, até completa obliteração da cavidade aneurismática. Este processo, conhecido como embolização, foi o primeiro procedimento intervencionista utilizado  como alternativa às cirurgias abertas, mais invasivas. Hoje, além das espirais metálicas, existem outros dispositivos e substâncias, metálicos ou líquidos, que podem ser empregados com a mesma finalidade. Mais recentemente, micro-tubos metálicos específicos, a exemplo dos stents coronários, foram desenvolvidos para excluir os aneurismas cerebrais, sem necessidade de preencher a cavidade do aneurisma, o que , eventualmente poderia ocasionar a sua rotura, por perfuração de sua frágil paredes pelas espiras metálicas.

Estes stents específicos, com uma malha muito cerrada, desvia o fluxo do aneurisma para o vaso originário da lesão, acarretando uma regressão progressiva da cavidade aneurismática. Esta técnica, realizada pelo implante de stents diversores e fluxo, simplificou bastante o ato cirúrgico, sendo executada em menos de trinta minutos,  com alta cirúrgica e retorno às atividades profissionais e sociais do paciente em 48 horas.

Se identificado precocemente, antes de sua rotura e potencias graves consequências, o aneurisma cerebral pode ser tratado de forma eficaz e segura pelas técnicas de Neurorradiologia Intervencionista, deixando de significar uma sentença de morte!

Carlos Abath é recifense, nascido em 1960. Prestou vestibular para medicina em 1978, conquistando o primeiro lugar geral da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Fez residência em Radiologia e Diagnóstico por Imagens no Centro Radiológico de Brasília, concluindo em 1985, quando retorna ao Recife para iniciar sua carreira como radiologista no Hospital Oswaldo Cruz e no UNIRAD. Posteriormente, especializa-se em Radiologia Intervencionista no Hospital da Beneficência Portuguesa de São Paulo. De volta à capital pernambucana, começa a promover a subespecialidade, realizando procedimentos inéditos na América Latina. Em 1990, funda a Angiorad, hoje reconhecida nacionalmente pela excelência técnica e qualidade dos seus treinamentos. Em 1998, especializa-se em Neurorradiologia Intervencionista pela Fundação Rothschild, em Paris. Fundou e presidiu a Sociedade Brasileira de Radiologia Intervencionista e esteve à frente da Sociedade Pernambucana de Radiologia. É também sócio da Sociedade Brasileira de Cirurgia Vascular, membro titular da Sociedade Brasileira de Neurorradiologia Diagnóstica e Terapêutica e sócio honorário da Sociedade Uruguaia de Cirurgia Vascular.

 

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