Seg, 20 de Abril

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Marcella Balthar

Entre tecnologia e pessoas: uma reflexão que atravessou o SXSW

Quem caminhou pelas ruas de Austin durante o SXSW esperava ser bombardeado por conversas sobre o futuro da tecnologia, inovação e algoritmos revolucionários. E isso, de fato, aconteceu. Mas, em meio a esse cenário de vanguarda, algumas discussões chamaram atenção por trazerem uma provocação mais silenciosa e bastante humana: por que as pessoas parecem tão desinteressadas?

Essa percepção aparece em diferentes contextos: na alta rotatividade dentro das empresas, na dificuldade de engajar jovens talentos e no desafio crescente das marcas em criar vínculos com uma geração que nunca esteve tão conectada e, ao mesmo tempo, tão distante.

A explicação mais imediata poderia apontar para uma suposta falta de comprometimento das novas gerações. Mas, em diferentes painéis e conversas ao longo do festival, surgiu uma leitura mais profunda: a ausência de pertencimento.

Nesse contexto, alguns especialistas vêm utilizando o termo “Unmattering” para descrever uma sensação de invisibilidade e irrelevância, em que o indivíduo não percebe impacto real em sua presença ou ausência. Os números ajudam a ilustrar esse cenário: cerca de 70% dos trabalhadores se dizem desengajados. E, muitas vezes, não por falta de esforço, mas por não enxergarem significado no que fazem.

Para entender esse comportamento, é inevitável olhar para a Geração Z. Formada em ambientes digitais como o TikTok, essa geração cresceu habituada a estímulos rápidos e ciclos constantes de feedback. Isso reconfigurou suas expectativas: carreiras deixaram de ser trajetórias lineares e passaram a ser experiências mais fluidas, muitas vezes combinando diferentes interesses e projetos.

Curiosamente, o movimento de resgate de tecnologias analógicas, como vinis e câmeras fotográficas, não parece estar ligado à tecnologia em si, mas a um desejo por experiências mais tangíveis e conexões que façam sentido.

Dentro desse contexto, apareceu com frequência o conceito de “Mattering”, definido pela jornalista Jennifer Breheny Wallace como a necessidade humana de se sentir valorizado e, ao mesmo tempo, perceber que gera valor para os outros. Uma ideia simples, mas que ajuda a explicar parte do cenário atual. Como foi dito em um dos painéis: “Quando as pessoas sentem que importam, elas aparecem.”

O desinteresse, nesse sentido, não necessariamente indica falta de vontade, pode indicar falta de significado.

Para empresas e lideranças, essa discussão traz implicações relevantes. Modelos tradicionais de gestão, centrados exclusivamente em produtividade e métricas, passam a conviver com a necessidade de olhar para o indivíduo de forma mais ampla, considerando também o impacto das relações e do ambiente de trabalho no engajamento.

Entre as abordagens apresentadas, chamou atenção o modelo SAID, que organiza essa lógica em quatro dimensões.

Significativas: sentir-se visto e compreendido.
Apreciadas: receber reconhecimento pelas contribuições.
Investimento: perceber apoio ao desenvolvimento.
Dependem: entender que sua atuação faz diferença para os outros.

Um exemplo citado para ilustrar esse cuidado veio do varejo japonês. Na tradicional papelaria Itoya, em Tóquio, até a compra mais simples é tratada com atenção aos detalhes. Um gesto pequeno, mas que comunica algo essencial: “você importa”.

O SXSW se manteve como um espaço de debate sobre o futuro, tecnológico, econômico e cultural. Mas, entre tantas discussões sobre o que vem pela frente, ficou também a impressão de que algumas das perguntas mais relevantes continuam sendo bastante antigas.

Talvez uma delas seja justamente essa: como criar ambientes, de trabalho, de consumo e de convivência, em que as pessoas sintam que fazem diferença?
 

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