Ter, 17 de Março

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Marcella Balthar

Movimento União BR e a construção de um novo padrão de reconstrução no Rio Grande do Sul

Felipe Sander/Movimento União BR

Muçum me ensinou, de novo, que reconstrução não é um ato. É um processo. E, no Brasil, a gente ainda trata esse processo como se fosse um intervalo entre uma tragédia e a próxima.

Muçum não foi atingida “uma vez”. Muçum foi atravessada por eventos extremos repetidos em pouco tempo. Três vezes, em dois anos, a cidade viu a água levar casas, ruas, comércio, memórias, documentos, colchões, fotografias e o que mais parece “pequeno” até o dia em que tudo some. Quando isso acontece de forma recorrente, a destruição vira método. E o medo vira rotina. A pergunta deixa de ser “se vai acontecer de novo” e passa a ser “quando”.

Foi com esse peso que começamos a desenhar o Legado Habitação RS. Não como resposta simbólica, nem como vitrine, mas como um compromisso com uma ideia simples e radical ao mesmo tempo: ninguém recomeça de verdade se o recomeço já nasce provisório. Em tragédias climáticas, o tempo tem duas velocidades. A primeira é a urgência do resgate e da comida chegando. A segunda é a urgência silenciosa do depois, quando as manchetes passam e a vida continua sem teto, sem endereço, sem chão.

Por isso, em Muçum, a escolha do terreno foi uma decisão tão importante quanto a casa. O local precisava estar fora da área historicamente atingida, fora da mancha da enchente, em um ponto seguro. Não dava para reconstruir no mesmo lugar e chamar isso de solução. Dava para reconstruir, sim, mas seria condenar famílias a um ciclo de perda. A primeira dignidade é a segurança.

A segunda é a casa em si. Uma casa de verdade, definitiva, com conforto, preparada para o clima que mudou e continuará mudando. Casas construídas em Light Steel Frame, com processo industrializado, desperdício mínimo, isolamento térmico e acústico, climatização, e entregues mobiliadas para que a vida possa voltar no mesmo dia em que a chave é entregue. Isso muda tudo. Muda o jeito como uma mãe dorme. Muda a forma como uma criança volta à escola. Muda a relação com a chuva.

Nessa semana, concluímos uma etapa decisiva em Muçum. Foram entregues 42 moradias definitivas, com mais unidades em finalização até completar 50. Parece número. Mas, quando você está ali, olhando as pessoas atravessarem uma porta e dizerem “agora é meu”, você entende que é outra coisa. É uma espécie de reparo do mundo, mesmo que parcial. É emocionante porque não é só estrutura. É lar. E lar é o contrário do abrigo. Abrigo é pausa. Lar é futuro.

Ao longo do projeto, uma das coisas que mais me marcou foi perceber que reconstrução também pode ser uma chance de fazer diferente. A gente montou um arranjo que uniu poder público e iniciativa privada com clareza de responsabilidades. O Governo do Estado aportou recursos para infraestrutura e pavimentação do loteamento. A Prefeitura viabilizou o terreno e a terraplanagem. A operação teve apoio logístico no campus da Ulbra, em Canoas. E a construção, executada pela SteelCorp, mostrou que tecnologia, quando encontra propósito, acelera o que importa.

Teve, ainda, um componente que eu considero indispensável quando falamos de legado: gente do próprio território fazendo parte da solução. Em parceria com a ONG Mulheres em Construção, 500 mulheres desabrigadas foram capacitadas para atuar na linha de produção. Isso não é detalhe social para foto. Isso é reconstrução com lastro. É renda, é autonomia, é pertencimento. É uma parte do futuro ficando na mão de quem vai viver nele.

Nada disso acontece sem confiança e sem rede. E eu faço questão de registrar, com gratidão e respeito, o papel dos doadores que tornaram esse projeto possível. O investimento passou de R$ 12 milhões, com apoio de organizações e empresas como Itaú Unibanco, Itaúsa, SteelCorp, Neymar Jr., Vibra, Leroy Merlin, Instituto Leroy Merlin e Obramax, Vedacit e Instituto Vedacit, Astra, Japi, Instituto Oliva, Cosan, Rumo, Siemens, Siemens Energy, Siemens Healthineers e Siemens Caring Hands, Latam, Gerdau, Instituto Helda Gerdau e Regenera RS, Banco Safra, Febraban, Instituto PHI, Instituto da Criança, VNP Advogados, Grant Thornton, FSB Holding, Esportes da Sorte, Esmaltec, C6 Bank, Instituto Stone, Instituto Quadra, BrazilFoundation, Parque Caracol, Banco Santander, Suvinil, Hops Company, Brewing Hope RS, Tramontina, Vakinha, Zurich Seguros e Zurich Santander, além de tantos outros parceiros que sustentaram etapas diferentes dessa entrega.

Eu sei que listar nomes, em um artigo de opinião, pode parecer pouco literário. Mas, no campo da reconstrução, dar nome é dar responsabilidade e reconhecer compromisso. O Brasil precisa aprender a valorizar quem faz a parte difícil, não só quem comenta a parte pronta.

Muçum também deixa uma pergunta incômoda. Se uma cidade pode ser destruída repetidas vezes, por que a gente ainda reconstrói como se o clima fosse o mesmo de antes. Resiliência climática não é palavra bonita para relatório. É a diferença entre voltar a viver e voltar a perder. É planejamento urbano, escolha de terreno, método construtivo, infraestrutura, governança, integração com emprego, saúde e educação. É um pacote inteiro, humano e técnico, porque a vida é assim.

O que eu levo de Muçum é a certeza de que reconstrução precisa deixar de ser improviso. Precisa virar política, cultura e padrão. Porque eventos extremos não serão raros. Raro, hoje, ainda é o recomeço definitivo.

E quando ele acontece, a gente sente. No silêncio de uma sala com sofá novo, na cama montada, na porta que fecha, no gesto de alguém guardando a primeira panela no armário como quem devolve ordem ao caos. É nessas cenas pequenas que o país inteiro se explica.

Se Muçum virou símbolo, que seja pelo motivo certo. Não pela enchente. Mas pela coragem de romper o ciclo.

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