A Cultura está viva. Viva a Cultura!

Tartaruga em Porto de Galinhas - Ana Reis

Como sobrevivente aos 21 anos de ditadura, vinte e um anos de medo, silêncios, censura e resistências, tenho a memória do que passamos e o que nos ajudou a viver uma juventude o menos depressiva possível. Naquela época, aliás, ninguém deprimia: ficava na fossa. E tínhamos uma necessária angústia existencial.

Apesar da censura e da repressão, muitos movimentos culturais surgiram sob a ditadura, no teatro, na música, na literatura. E mudaram a sociedade. Muito desbunde também, como desdenhava a esquerda cueca samba canção. Como lembra Umberto Ecco em O nome da Rosa, o riso é subversivo, em sociedades dominadas pelo rigor estéril dos fundamentalismos.

O prazer da arte é subversivo. Das artes que trazem beleza, das artes que nos fazem pensar, de artistas que inspirem a nossa criatividade. As artes desafiam, aliviam dores, nos fazem sonhar, nos levam por mundos que nos mostram a transcendência, nos tiram das realidades opressoras. A aprender por outras linguagens, pela poesia, pela música. Ninguém vive uma vida plena sem arte.

Não é só por inveja que regimes de ódio, dominadores, querem destruir as artes que abram caminhos, que estimulem o gosto pela liberdade. Sabem perfeitamente do que se trata. Não foi por capricho que se eliminou o Ministério da Cultura e que se tenta fazer desaparecer qualquer manifestação artística que mereça esse nome.

Mas a força da cultura brasileira, que é, predominantemente a cultura negra, rica de séculos de resistência, é maior que as amarras e a falta de apoio estatal.

Mais que nunca, em tempos de internet, a criatividade corre célere pelas redes. Comparando com os anos 1960 agora temos um festival da Record por dia! (Galera, era outra Record...).

O teatro de Arena e o teatro Oficina que tiveram impacto na época, sobretudo em São Paulo, tinham menos que 100 lugares. Hoje, as produções feitas em casa, em pleno isolamento pandêmico, estão abertas para milhões de pessoas. Quando sonharíamos com um processo de formação de público dessa grandeza?

Artistas consagrados chamam criadores talentosos, conhecidos em pequenos círculos, para divulgarem seus trabalhos. O pessoal do teatro vem trazer textos inovadores, ou contam histórias para crianças, nos fazem esquecer o isolamento.

E a tela passa a ser uma quarta parede... esquisita, digamos.

É certo que a emoção no teatro, no cinema ou nas casas de espetáculos, no coletivo presencial, é outra. Mas é um bálsamo, depois de ler ou ouvir as contagens cotidianas dos mortos, pelos quais não temos lágrimas suficientes que os chorem,

saber que podemos escolher uma live, por exemplo, da Teresa Cristina ou a última postagem da Monica Salmaso.

E haja slam das jovens negras, e a explosão de expressões das periferias, que vêm vindo numa onda pra qualquer maio de 68 ficar de boca aberta.

Que venham muitas mais, nos alimentar e alentar. A revolução cultural sempre é vitoriosa quando vem das raízes do povo, vence a mediocridade, a mesquinhez e a arrogância dos autoritários.

A Cultura está viva. Viva a Cultura!

*Ana Reis, 73 anos, é feminista. São dela as fotos que ilustram a coluna. A 2ª, Tartarugas em Porto de Galinhas.