Campanha digital incentiva o voto em mulheres negras e feministas

Acervo do Projeto - Eu Voto em Negra

“Está na hora da gente enegrecer a política, está na hora de votar em negra"  

(Itanacy de Oliveira, CMN) 

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, Pernambuco é o estado com menor proporção de candidatas (32%). Entre as autodeclaradas pretas, o crescimento foi de 440 candidaturas no pleito anterior, para 668 agora. Estes números não significam que haverá expressivo aumento de presença delas nos postos dos executivos ou legislativos municipais. Por isso, campanhas como  Eu Voto em Negra são tão importantes e urgentes. Os  espaços de decisão de políticas públicas precisam ganhar maior representatividade. 

O incremento de mulheres na disputa às prefeituras e câmaras municipais ganha reforço com as decisões tomadas por tribunais superiores sobre as cotas de gênero, nos anos 90, e as cotas de distribuição de verbas para campanhas e propaganda eleitoral para negros/as,  com aprovação recente. 

A existência de cotas para mulheres e cotas para distribuição de recursos, porem, não corresponde à realização da lei, uma vez que o racismo/machismo/sexismo ainda estruturam as desigualdades na sociedade e nos espaços de representação, no Brasil. Se as mulheres e negras continuam em uma disputa desigual pela sobrevivência física e econômica, dentro dos seus partidos não é diferente. A lógica de investimento financeiro dos partidos prioriza os homens brancos, que têm uma trajetória e/ou histórico familiar de carreira política. Depois os outros homens (negros, indígenas, ciganos,...), as mulheres brancas e por último as mulheres negras. Se elas forem trans, lésbicas, encontram outras barreiras, impostas pela heteronormatividade. 

Um outro obstáculo para as candidatas mulheres é a ideia arraigada  de que lugar de mulher é em casa, e de que elas não entendem de política. Nós fomos socializadas e educadas, de forma geral, para a vida privada - o cuidado do lar, de filhos, marido, etc -, não para a vida pública, embora boa parte das mulheres, ao longo dos séculos, venham mudando esse perfil que lhes foi imposto como destino. 

O que queremos salientar é que uma cultura disseminada e fincada no cerceamento da liberdade das mulheres definirem o que Ser e Fazer de suas vidas, não ajuda muito na tomada de decisão das pessoas quando elas vão fazer suas escolhas de voto nas eleições.  Ainda toleram, digamos, as candidaturas femininas brancas. Mas raras são as mulheres negras que chegam a assumir um cargo político,  e o  esforço é ainda maior se ela vem da periferia.    

Outra cultura que reaparece fortemente em tempos de eleição é a do clientelismo e do assistencialismo. Práticas como pagar por um voto, trocar voto por compra de remédio, levar a pessoa ao local de votação, entre tantas outras conhecidas. Isto não te remete aos tempos do coronelismo? Não é uma prática coronelista querer obrigar as pessoas que são cargos comissionados a votarem em quem o prefeito ou o governador indicar? O que mudou no que continua abusivo?  E como estamos atuando para mudar essas práticas?

Em um ano atípico, por causa da covid-19, as disputas políticas estão centradas nas redes sociais. Ao aproximar das eleições, com isolamento social, o meio digital é o canal de diálogo para a população conhecer os programas e projetos das candidaturas.  Defendemos que estes são importantes para a escolha e para o acompanhamento dos mandatos no futuro. 

Um grande desafio para as mulheres negras e periféricas é a falta de recursos para garantirem suas propagandas eleitorais nos meios de comunicação, ou material gráfico que chame a atenção da população para suas propostas. Como serão ouvidas? Elas têm que deixar de lado o medo de contaminação pelo coronavírus ao se levantarem a cada manhã e saírem para dialogar com a comunidade, mesmo tendo os cuidados necessários. Se tivessem os recursos que candidatos/as brancos/as às prefeituras têm, a eleição seria mais igualitária, com o eleitorado tendo a oportunidade de conhecê-las mais de perto. 

Acervo do Projeto/Eu Voto em Negra
Acervo do Projeto/Eu Voto em Negra
 

Nas últimas eleições, muitos candidatos se elegeram investindo em fakes News (falsas notícias), que se alastraram como praga numa plantação, sem que se tivesse tempo de averiguar a veracidade das informações. Assumiram vantagem diante da alienação, credulidade, falta de senso crítico sobre o que é veiculado pelos meios de comunicação, igrejas, empresariado. 

Embora não estejamos lidando, na mesma dimensão, com esse tipo de ação antipolítica e antidemocrática, permanece a demonização de alguns partidos de esquerda, propagada de maneira estruturada para que a população acredite. Dito isso, as mulheres negras que fazem parte desse conjunto de partidos de esquerda, defendem o bem comum e o bem viver, correm o risco de não receberem votos diante da desinformação e disseminação proposital de quem diz querer “representar o povo”. 

Para contribuir com as candidaturas que estão se deparando com esses obstáculos, foi criada a Campanha Eu Voto em Negra, uma iniciativa da Casa da Mulher do Nordeste (CMN), Centro das Mulheres do Cabo (CMC) e do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTR-NE). Contam com a parceria da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, Rede de Mulheres Negras do Nordeste, Enegrecer a política, Meu Voto será Feminista, a Partida e o Elas por Elas. E o apoio do Fundo de Mujeres del Sur, uma fundação que promove os direitos das Mulheres e pessoas LGBTQI+ também na Argentina, Uruguai e Paraguai. 

A campanha se soma a outras iniciativas que visam contribuir para a ampliação/diversificação das vozes de mulheres nos espaços de poder do nosso país. Para que tenham uma maior representatividade, para que não sejam “engolidas” se forem as únicas numa câmara municipal ou pioneiras em prefeituras. É de fato garantir que mulheres negras, neste momento político, sejam eleitas para serem vereadoras e prefeitas. Que as mulheres negras possam gestar, pensar e contribuir para os seus municípios e munícipes.

Com a campanha, as organizações assumiram o compromisso de fortalecer as mulheres negras do Nordeste que pleiteiam candidaturas nesta eleição, não apenas estimulando as pessoas a votarem em mulheres negras comprometidas, mas realizando uma escuta e possibilitando a elas serem ouvidas desde as pré-candidaturas, o momento de confirmação de sua presença nas convenções de seus partidos, até o processo eleitoral. 

Sabemos que muitas sequer têm um espaço no guia eleitoral.  Por isso foi criado um espaço virtual para que elas, diante da falta de recursos, sejam apoiadas por  organizações  e pessoas que são solidárias a essa luta e resistência. 

A luta não iniciou agora e nem vai terminar com esta eleição. A ideia é manter o acolhimento quando saírem desse processo desigual das eleições. Sejam vencedoras ou não. Nós estaremos aqui, para seguirmos juntas! Firmes e fortes!

Saiba mais em:

www.euvotoemnegra.com.br

@euvotoemnegra

Youtube: euvotoemnegra

Mulheres Negras e Democracia é um projeto que tem o objetivo de fortalecer mulheres negras rurais e populares a partir da perspectiva feminista decolonial para enfrentar os contextos de crise democrática no Brasil e na América Latina, a partir do trabalho de lideranças, voz-agência e participação política das mulheres. A Campanha é uma das suas iniciativas e está em todo o Nordeste.

*Manú Castro é assessora de comunicação do Projeto Mulheres Negras e Democracia e Rosa Marques é integrante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e da Rede de Mulheres Negras do Nordeste.

Não deixe de votar. Vote consciente. Tome todos os cuidados necessários para evitar a covid-19, se proteger e às outras pessoas, no dia de votação. 

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