Mulheres migrantes em tempos de coronavírus, 6º episódio

Vinheta - Solange Rocha

Para situar a minha experiência durante a pandemia, preciso me localizar em um mapa que aproxima Brasil, África do Sul e Moçambique. Brasil, porque aí tenho minhas raízes, aí vive minha família e porque foi do Recife que parti, para residir na África do Sul, onde vivo há 13 anos com minha companheira Susan e com as outras famílias escolhidas; e Moçambique, por ser o meu lugar de integração e vínculo ao movimento feminista, a partir do qual me situo política e profissionalmente. A narrativa a seguir está baseada em duas reflexões realizadas como prosa dialógica nos dias 13 e 14 de julho.

O primeiro sentimento percebido no período que estamos vivendo foi de surpresa. Não pela pandemia, que sabíamos estar em curso, mas pela rapidez com que as autoridades na África do Sul e em Moçambique responderam ao problema. No dia 5 de março, confirma-se o primeiro caso de Covid-19 aqui, na África do Sul, e dias depois, a 16 de março, viajei para Maputo a fim de organizar os trabalhos que desenvolvia por lá. Estava previsto de passar 15 dias na capital moçambicana, mas os dois governos agiram com ações tais como lockdown e fechamento de fronteiras, o que me fez retornar três dias depois para a Cidade do Cabo. Foi um sufoco! A South Africa Arlines estava encerrando seus vôos e foi uma correria para conseguir voltar pra casa. Finalmente, consegui embarcar no dia 19 de março, praticamente, no penúltimo vôo, antes do encerramento total das fronteiras entre os dois países. Então, senti um pouco esse estresse.

Ao chegar em casa, os desafios se mostraram outros. Como Susan tem doença auto-imune, era preciso encontrar modos de administrar a vida cotidiana e não ceder ao pânico e à angústia; precisávamos manter o equilíbrio para poder lidar com a situação. Avalio que conseguimos encontrar um balanceamento. O fato de termos uma situação de classe privilegiada evidente que fez diferença: onde moramos nos sentimos seguras; há apenas duas pessoas convivendo e conseguimos manter trabalhos, que foram adaptados ao mundo virtual.

Nesse contexto, o meu maior desespero estava relacionado ao pensar no Brasil - desde a preocupação com minha mãe e minha filha até os desmandos do Governo Bolsonaro me davam uma angústia que se estende até hoje. A minha mãe ficou bem protegida e em paz durante esses meses, o que me deixou em paz também. Minha filha Dandara, que mora no Rio, teve uma forte gripe, achamos que poderia ser covid-19 e o contexto da pandemia me impedia de tomar um avião caso se confirmasse o diagnóstico. Sempre me preparei para casos de emergência: pegar um avião, cruzar o oceano e retornar ao Brasil pelo tempo que fosse necessário. A situação gerou uma angústia, que foi baixando com a recuperação de saúde dela alguns dias depois. Mas eu fiquei com medo dessa ameaça invisível. Sentia-me impotente e isso me assustou. E fiquei profundamente triste com cada morte dos conhecidos e desconhecidos. Chorei e chorei muitas vezes.

Solange Rocha, por Solange.Escreva a legenda aqui

Do ponto de vista econômico, é difícil e doloroso acompanhar tantas famílias com dificuldades. Isso inclui a minha família no Brasil. Aqui, na África de Sul, as políticas sociais são insuficientes; em Moçambique, inexistentes. Nesse sentido, eu e Susan vimos fazendo tudo o que é possível para ajudar nas campanhas, apoiar iniciativas que visem dar condições mínimas para a população de rua e das townships. Minha forma de ajudar o Brasil foi participando de dezenas de campanhas para pressionar o Congresso Nacional e o poder Executivo a implantarem políticas sociais com rendimento básico para a população mais atingida economicamente pela pandemia.

Atualmente, a África do Sul encontra-se entre os cinco países com o maior número de infecções apesar da baixa mortalidade. O país tomou uma direção inicial de enfrentar o problema com um lockdown de três meses, que resultou em uma bem coordenada e estruturada política de contenção. Posteriormente, cedeu às pressões da política econômica, contudo, ainda é cedo para afirmar se a abertura gradual foi antes da hora. Neste final de agosto, ainda temos toque de recolher (22h às 4h); o uso de máscaras em ambientes fechados e nos espaços públicos e o distanciamento social são obrigatórios; as atividades com mais de 50 pessoas estão proibidas.

Olhando esses últimos quatro meses com certo distanciamento, posso afirmar que é uma experiência angustiante, mas também percebemos que é preciso cuidar do presente. Seguimos tentando fazer todas as coisas para estar bem emocionalmente. Mas no inicio, quando não se podia sair para caminhar, para fazer exercícios, tornava-se mais difícil... Viver com o sentimento de falta de liberdade é como estar numa caixa, onde não é possível sequer se mover. Agora só saímos esporadicamente para dar uma caminhada ou fazer compras. Ainda me surpreendo ao olhar as pessoas de máscara e perceber como criamos novos hábitos. Quando as pessoas passam na rua, fazem uma espécie de balé, se afastando umas das outras. Ao mesmo tempo, me percebi fazendo muito julgamento sobre os comportamentos: “as pessoas não usam máscara? Como as pessoas são irresponsáveis!” no dia em que as regras distenderam para o lockdown 4, que a gente passou a poder sair pra caminhar, estávamos todos tão irritadas/os na rua! E eu parei para me perguntar: “que irritação é essa?” Porque não era expressão de uma indignação com isso, mas sim a expressão de uma irritação com toda uma contenção de sentimentos sobre o que significa ficar todos esses meses confinadas/os. Essa pandemia expõe o “osso” de nossas fragilidades e fortalezas.

Uma experiência positiva foram os muitos encontros virtuais ocorridos: aniversários, conversas, aproximações, cuidados com a família, com minha mãe... Foi lindo o aniversário dela! E, surpreendentemente, descobri ser possível trabalhar nesse mundo louco virtual: existem inovações, outras formas possíveis de se comunicar e de se relacionar com as pessoas; não é por estarmos à distância, mediadas/os por um computador que perdemos essa coisa essencial que é o cuidado, de cuidar da energia uma/um das/os outras/os. Aqui, o toque é substituído por outras formas de expressão que é a expressão do olhar. 

Houve sessões de trabalho em que realizamos reflexão com grupos de 50 pessoas pela internet, mescladas com dança e práticas orientais de relaxamento e exercícios para circulação de energia, como o Chi-kung, Tai-chi, Jin Shin Jyutsu, já adotadas no âmbito pessoal. Utilizar essas práticas e a meditação tem me salvado energeticamente porque ressignifica meu corpo, minha energia, dando possibilidade de externar a raiva e a frustração e estar mais presente no dia-a-dia. Além, claro, de fazer sessões de embelezamento, como pintar cabelo, cortar cabelo, massagens, máscaras, pintar unhas, namorar (risos)... O desafio é administrar tudo isso com o tempo para o trabalho, fazer vida social na internet e arrumar a casa, comprar comida, lavar embalagens, lavar roupa ao chegar em casa, meditar, respirar, e... Gente! Agora isso tudo virou uma rotina de tripla jornada de trabalho! (risos). Antes, a faxineira limpava a casa; agora, garantimos o emprego dela com a manutenção do salário mas ela não vem à nossa casa. O lado interessante é que estou a dedicar-me muito ao cuidado das plantas e em cozinhar bonito e gostoso - sou uma chef e às vezes é estressante experimentar a vida reprodutiva em toda a sua intensidade.

Também gostaria de compartilhar a relação entre “dentro’ e “fora”. Vivo todo o tempo permeado por uma descoberta ou um agir consciente de me ver “dentro” - de mim, da casa, da cidade, país - e o significado de estar “fora”. É o período mais longo em que me vejo em casa sem viajar desde que cheguei à África do Sul, há 13 anos. Tenho saudades de estar fora, mas estou gostando da experiência de estar dentro. É um processo de autoconhecimento a partir de outro lugar e, ao mesmo tempo, uma diferente consciência de que sou estrangeira aqui porque muita da minha energia está mobilizada no Brasil. É também uma consciência mais profunda de que, desse modo, eu me fiz dentro-fora. 

Lua e pássaro, por Solange.Escreva a legenda aqui

O lugar onde moro parece uma vitrine ou um aquário: tem uma janela enorme de vidro que nos faz sentir expostas e também com uma visão extraordinária da vida de vários vizinhos que antes não “víamos”. Fizemos novas amizades, nos cumprimentamos, já sabemos nomes; e a outras pessoas atribuímos nomes e trabalhos fictícios. Criamos um mundo de relações e fantasias com o que se encontra lá fora e que, em tempos de pandemia, tornou-se tão “íntimo”. Diariamente, acompanhamos a rotina de, pelo menos, sete apartamentos. É bem divertido, um mix de voyeurismo com o singelo sentimento de que estamos juntas. Contribuiu para essa atmosfera a realização de um ritual noturno, encerrado com o lockdown 3: todas as noites, às 20h, havia palmas para a linha de frente dos serviços de saúde, projeção de fotos nas paredes dos edifícios, e shows musicais com hino nacional tocado no trompete, DJ discotecando músicas sobre prevenção e nós tínhamos sinos. Houve festas de aniversários partilhados com parabéns nas janelas/ varandas... Tudo isso ajudou nos momentos difíceis, criando comunidade.

Por fim, essa relação entre o nosso ambiente privado e o da vizinhança, que inclui a vasta população de pessoas em situação de rua, tornou-se intimamente pública. E, diga-se de passagem, isso se estende para as redes sociais: nunca, até aqui, falei e postei tanto sobre mim e minha casa. O que antes era protegido no privado, agora é sobrevivência no público. 

Assim, o tema dentro e fora tem me mobilizado bastante. Seja pela extensão do tempo sem sair de casa nessa e em tantas situações anteriores que fiz ao longo da vida, mas também pela condição de estrangeira, capaz de gerar um sentimento de pertença aqui na África do Sul, Moçambique e Brasil. O que é sentir-se em casa? Cada lugar tem um jeito seu de ser parte da casa. E o reconhecimento quando estou dentro e fora desses gera diferentes pertencimentos. 

Só dizer que aprendi muito nessa pandemia. Hoje, me conheço muito mais do que achei que fosse possível numa situação de crise tão profunda. 

Vixe! Animei-me! Obrigada, gostei de fazer esse resgate.

*Solange Rocha é doutora em Serviço Social pela UFPE, pesquisadora, educadora e ativista feminista. Reside na Cidade do Cabo (África do Sul), e trabalha no MUVA - incubadora de projetos sociais, sediada em Moçambique, e focada na elaboração de abordagens inovadoras para o empoderamento econômico de mulheres. As fotos também são de sua autoria. 

Na África do Sul, township designa zonas urbanas precarizadas e racialmente segregadas pelo apartheid. Moçambique conheceu a mesma situação quando colônia portuguesa: a segregação racial na estrutura urbana se revelava nos chamados “bairros de caniço” e “bairros indígenas”, onde viva a população negra (chamada de índios).

A editoria da série “Mulheres migrantes em tempos de coronavírus - Um caleidoscópio de experiências” é da jornalista e pesquisadora Márcia Larangeira, a quem Mulheres em Movimento agradece a parceria.

 

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