Unidas por dignidade e paz em Cabo Delgado, Moçambique

Foto de Solange Rocha.

Aos ciclones IDAI e Kenneth, e à covid-19, se soma outra situação dramática à qual estão expostas mulheres moçambicanas. Há três anos, a população da província de Cabo Delgado, vem sendo alvo de conflitos armados entre insurgentes e as forças de segurança do país.

Mais de mil pessoas, a maioria civis, já morreu em consequência desses confrontos e de ataques marcados por requintes de crueldade. Pelo menos 250 mil pessoas já fugiram dos conflitos na região. Parte delas encontra-se vivendo de modo precário e sem acesso a serviços básicos, em acampamentos, com o apoio de organizações humanitárias e ONGs. 

Em que contexto se dão os conflitos armados em Cabo Delgado?
Pouco se sabe acerca dos reais motivos dessa insurgência e do perfil dos grupos armados que têm realizado essas ações, a não ser a confirmação de que guardam algum tipo de vínculo com o Estado Islâmico, que já reivindicou autoria de alguns dos atentados. 

Segundo o semanário The Continent, em 2020 os ataques voltaram a ser realizados com armamentos sofisticados, artilharia pesada e drones. Além disso, situa-se na região uma das maiores jazidas mundiais de gás, não explorada, atraindo a presença de grandes corporações do setor e suas inúmeras seguranças privadas. 

Há três anos, portanto, nesta terra só a pólvora existe em abundância. 

Diante dessa situação o GMPIS – Grupo de Mulheres de Partilha retoma o lema “mexeu com uma, mexeu com todas!”, com o qual já esteve presente na coluna MULHERES EM MOVIMENTO, para mobilizar a solidariedade internacional e apoio às companheiras do norte de Moçambique, que precisam reconstruir seus cotidianos junto às famílias, retomar a vida em comunidades livres de riscos e ameaças à sua integridade.

O que se passa com as mulheres neste conflito?
As mulheres de todas as idades, cansadas de ver suas casas serem destruídas pelos insurgentes, seus parentes serem mortos, seus corpos tornarem-se objeto de alívio sexual para os homens em guerra e suas filhas, irmãs, primas e amigas serem raptadas e abusadas sexualmente, se viram forçadas a abandonar a terra onde viviam e produziam alimentos para subsistência comum. 

Hoje, vivem em acolhimentos em abrigos, na ausência do mínimo necessário. A situação torna-se ainda mais complexa em tempos de pandemia que coloca em risco, principalmente, as populações que estão em situação de vulnerabilidade social. 

Foto de Solange Rocha.

No último dia 13 de setembro, à beira da estrada R368 que liga Cabo Delgado à Tanzânia, Paulina Chitai, de 48 anos, foi estuprada, espancada e assassinada com 36 tiros de Kalashnikov nas costas, depois que seu filho Moises Mtupa, de 12 anos, foi morto a pauladas. Nós a chamamos Nthuwa, que significa Flor em sua língua materna. Se a vida de Nthuwa lhe foi arrancada, que floresçam outras tantas Nthuwas como símbolo da força e resistência das mulheres.


É com o espírito da resistência e de fazer florescer a vida onde lhes seja possível que as mulheres fogem da guerra e procuram um lugar seguro para aliviar o sofrimento, retomar seus sonhos, seguir adiante na construção de uma vida digna, saudável e em paz. Assim, o GMPIS  solidariza-se e dá as mãos às mulheres em Cabo Delgado para ajudá-las a reconstruir suas vidas.

Foto de Solange Rocha

Que é o Grupo de Mulheres de Partilha de Ideias de Sofala - GMPIS?
É um espaço de partilha de ideias e solidariedade. Articula-se de forma temática e em redes de mulheres. Foi fundado em maio de 2014, na cidade da Beira, localizada na Província de Sofala, em Moçambique. 

Hoje o GMPIS conta com mais de 30 organizações e grupos membros e várias ativistas autonomas que atuam nas provincias de Sofala, Maputo, Gaza e Inhambane. Mantem-se aberto a todas as mulheres interessadas em construir reflexões e ações conjuntas. 

O núcleo mais recente foi criado em setembro. Formado por ativistas em Pemba, capital da província de Cabo Delgado. Esse núcleo vai desempenhar um papel estratégico na distribuição de doações às mulheres afetadas. 

Qual é a proposta do GMPIS?
O GMPIS pretende atuar em duas frentes: ações emergenciais de curto prazo e ações estruturantes mais duradouras.

As ações emergencias serão focadas na compra de produtos básicos para as mulheres refugiadas, como alimentos, roupas, capulanas*, esteiras e máscaras de proteção à covid-19.

Pensando no futuro imediato e no longo prazo, receberão pequenos financiamentos que lhes permita iniciar um processo de empoderamento econômico e, aos poucos, recuperar a sua autonomia financeira.

Como funcionará a administração dos fundos?
Os fundos serão recebidos por uma organização membro do GMPIS, a Associação de Natureza e as Amigos de Cheringoma - ANACHE. A utilização dos mesmos será decidida pela coordenação colegiada em colaboração com o núcleo do GMPIS em Pemba. 

O GMPIS trabalha na base do ativismo feminista e 100% dos recursos irão beneficiar as mulheres em Cabo Delgado. 

Por razões administrativas, a conta do GoFundMe (GFM) foi criada por uma activista do GMPIS e as doações serão transferidas para a conta dela, que os encaminhará para a conta da ANACHE, já que no GFM não é possível fazer transferência diretas para Moçambique. 

Para garantir transparência ao processo, atualizações frequentes sobre o uso das doações e as prestações de contas serão publicadas no site do GFM e na página do facebook  https://www.facebook.com/gmpis.sofala

Esperamos poder contar com o seu apoio. O link para contribuições: http://gf.me/u/y2kj3n 

As fotos que ilustram esta coluna são de Solange Rocha. 
 
*Capulanas: de origem tsonga, é o nome que se dá, em Moçambique, a um pano que, tradicionalmente, é usado pelas mulheres para cingir o corpo, e por vezes a cabeça, fazendo também de saia, podendo ainda cobrir o tronco. O seu uso também vai muito além da moda: o tecido é usado pelas mulheres para carregar os seus filhos nas costas, para carregar trouxas, para inúmeras funções, como toalha, cortina, pano de mesa, etc. (cf Wikipedia)

Informações adicionais sobre a situação em Cabo Delgado podem ser obtidas nestes links:

15/09/2020:
 https://www.dw.com/pt-002/mo%C3%A7ambique-governo-procura-n%C3%BAcleo-de-prepara%C3%A7%C3%A3o-de-v%C3%ADdeos-contra-as-fds/a-54938992
16/09/2020:
 https://www.dw.com/pt-002/cabo-delgado-guerra-%C3%A9-causada-pela-falta-de-partilha-de-recursos/a-54947200
https://www.dw.com/pt-002/amnistia-internacional-execu%C3%A7%C3%A3o-%C3%A9-prova-de-viola%C3%A7%C3%B5es-das-for%C3%A7as-armadas-mo%C3%A7ambicanas/a-54942197
17/09/2020:

https://www.dw.com/pt-002/assassinatos-em-cabo-delgado-renamo-pede-comiss%C3%A3o-de-inqu%C3%A9rito-mas-frelimo-recusa/a-54965291

https://www.dw.com/en/mozambique-condemns-horrifying-execution-of-naked-woman/a-54929695

 

 

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