30 Anos de Sustentabilidade Monetária (3)

Os Valores Democráticos Servem como Alerta para os Riscos de Percurso

Reprodução/Freepik

Passados os tempos do padrão monetário ditado pelos "réis", seja na fase imperial ou republicana, foi comum que a economia brasileira enfrentasse todas mudanças de moedas como um fato natural. Algo absorvido pela sociedade, enquanto uma espécie de cultura impregnada.

Como até 1985 a estabilidade política, em termos de democracia, foi dada por espasmos, situações de convivência com processos inflacionários atuaram como um pacto disfarçado de tolerância, quanto à evidência de reformas no padrão monetário. Mesmo com sinais de inflação, fossem eles manipulados ou não. 

O "Cruzeiro" foi implantado por Vargas em 1942. Sofreu um corte de três zeros em 1967, para ganhar o sobenome "Novo". Mas, logo depois, voltou à sua identidade original (de Cruzeiro) em 1970, embalado pelo controverso discurso econômico do "milagre". A partir de 1974, bastou-se seguir firme numa aposta chamada de II PND (Plano Nacional de Desenvolvimemto) que, como uma bomba de efeito retardado, foram favorecidos os descontroles monetário, fiscal e cambial. Esse tripé emitiu os sinais de vitalidade para uma inflação já elevada, embora reprimida pelo primeiro choque externo (o do petróleo, em 1973) e, depois, nutrida por outros choques externos (petróleo, juros e moratórias, a partir de 1979). 

Em síntese: a economia brasileira, em pleno regime militar, entregou para a sociedade uma escalada inflacionária, que fez saltar a taxa anual de 20% para 200%. Foi nesse ambiente econômico já desorganizado, que se iniciou um gradual retomo das instituições democráticas. E com ela, uma reação contestatória de distintos agentes da sociedade civil. Afinal, todos passaram a expor, abertamente, suas indignações contra a alta desenfreada dos preços. 

Com mais transparência, metodologias revistas e até a criação de outros indicadores, a percepção de uma inflação assimilada pela sociedade, ficou à mercê de uma régua de tolerância, estimulada pela democracia. Ou seja, o "imposto inflacionário", justo por mexer na "sensibilidade do bolso", revelou a real intolerância da população com o descontrole dos preços. 

Nesse contexto, a "banda" política percebeu que carregar a inflação no bolso não se traduzia em votos. Em especial, para aqueles que faziam (e ainda fazem) parte da maioria da população, dignos integrantes da base da pirâmide social. Assim, seja para o bem ou para o mal, as reformas no padrão monetário se revelaram exequíveis. Na sua essência, a democracia deu provas de não se afinar com a escalada inflacionária. Por isso, seus valores contribuem para alertar sobre os riscos de percurso que, ocasionalmente, afetam qualquer estratégia de enfrentamento da inflação. 

Do Cruzado (1986) até a implantação do Real (1994) foram contabilizados 6 (seis) Planos de Estabilização (inclusos, Bresser, Verão, Collor I e Collor II).Todos foram considerados como armas de combate contra índices de preços galopantes. Todos tecnicamente elaborados, mas derivados de decisões políticas respaldadas pela insatisfação popular causada pela inflação.

Com base numa guerra perdida até o início do Plano Real, foi só a partir deste, que o clamor popular também se mostrou controlado. Ou seja, o efeito político que garantiu a vitória de FHC, a renovação do seu governo e, por extensão, a Carta de Lula ao povo brasileiro, tudo isso atuou para fortalecer o alvo da estabilidade monetária. Neste caso do Real, a eterna vigilância democrática soube controlar os riscos dos episódios críticos ocorridos, dado o tripé básico das políticas de sustentação do Plano - câmbio flexível, responsabilidade fiscal e controle monetário. Premissas aceitas pelas células políticas mais comprometidas, cientes da importância de se manter a estabilidade macroeconômica. 

Mesmo com 30 anos de firme resistência, é natural que riscos eventuais incomodem o êxito até aqui alcançado pelo Real. No entanto, por maiores que sejam os instintos populistas ou as travessuras políticas, o sentimento de vigilância da sociedade fala mais alto. Afinal, não dá para imaginar que alguém possa ter saudades das consequências de uma inflação asfixiante.
 

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