A pátria que pariu um pária: a segunda dimensão da crise

Hugo Carvalho/Folha de Pernambuco

Por conceber a política externa como um vetor significante, na minha modesta visão de compreender a dinâmica da economia brasileira, julgo que tenha sido aqui bem insistente nas análises críticas que fiz sobre o tema. Afinal, os erros e omissões executados pela autoridade diplomática desde 2019 causaram tantos estragos, que qualquer senso de diálogo e recuperação exigirá tempo para uma reparação.

Trata-se de um infeliz contrassenso. Isso porque a diplomacia brasileira sempre foi pautada pelos seus convencionais exemplos de equilíbrio político e competência técnica. Portanto, um histórico desempenho institucional muito bem fundamentado e consolidado, que se consagrou por transformar eventuais litígios em acordos ou tratados.

Em pouco mais de dois anos, a banda larga e lúcida da sociedade brasileira assistiu ao desmoronamento da essência do Itamaraty. Longe da excelência de um ofício de moderação com sabedoria, foi então  concebida uma forma de gestão insólita, sustentada por um espectro ideológico devoto das mais intrigantes teses conspiracionistas. Apostou-se na desconstrução e na inação diante da complexidade e da diversidade de um mundo que requer equilíbrio e sensatez. Nesse jeito de ser, a política externa ficou dependente de argumentos e discursos  estéreis, que vêm atuando como agentes catalisadores de combate ao que chamam de globalismo
multilateralismo, climatismo e outras variantes inapropriadas. Trocou-se uma rica história de diplomacia sem ideologia, por um pobre modelo de ideologia sem  diplomacia. Como diagnósticos equivocados criam terapias erradas, fez-se conceber a regência do caos, na diplomacia brasileira. 

Nesse ritmo, o ambiente político interno, permeado pelo dogmatismo extremo, teve uma longa e conturbada "gestação" até a confirmação da pandemia. Infelizmente, essa grave crise sanitária pariu um ser estranho para uma sociedade acostumada a outras conquistas. Assim, esse simbolismo na forma de "gestação", combinado com a gravidade e extensão da pandemia, revelou para a sociedade uma fratura  exposta no seio do Itamaraty. Como o chanceler da ocasião admitiu não ser o isolamento um problema, digo que a pátria pariu um pária. Ou seja, a postura ideológica da nossa diplomacia, que foi capaz de isolar o país pelo conjunto de uma obra de dissabores (sinofobia, política ambiental, direitos humanos e outros temas correlatos), mostrou-se negligente nas articulações políticas e comerciais. Em particular, com relação à falta de solução perante a carência dos imunizantes.

Atingiu-se o fundo do poço. De qualquer forma, é preciso reiniciar o processo de recuperação. Ou seja, diante do que escrevi antes, essa segunda dimensão do problema socioeconômico, agora traduzido pela política externa e agravado pela pandemia, também carece da "esperança do avesso". Esta, significa rever a política externa e reenquadrar o Brasil no ambiente de um mundo realista, que compactue com o estágio da boa consciência pelos novos valores da humanidade. É voltar a fazer do ofício da diplomacia a arte de fazer amigos, diametralmente oposta à prática atual de estimular o confronto e fomentar inimigos.

Enquanto isso, além das nossas fronteiras, a economia mundial dá sinais de retomada do fôlego perdido. Por um lado, os EUA parecem dispostos a puxarem os vagões, mesmo com a resistência da crise, posto que sua economia voltou aos trilhos pelo impulso dos gastos públicos e pelas campanhas de vacinação. Por outro lado, a China, vista pela capacidade de produzir os insumos para imunização e os próprios imunizantes, além da sua capacidade de influir no bom momento vivido pelo mercado de commodities, dá sinais de vitalidade.

Além da insistência por  negar o óbvio, repetir o erro de perder as oportunidades e aprender com as experiências, parecem ser ainda velhos males políticos e econômicos da genética brasileira. 

Mais dificuldades à vista, para uma política externa que tem esperança pelo avesso.

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