Cultura e audiovisual: transformações, turbulências e perspectivas

Como revisar conceitos e estratégias em ambiente de terra arrasada

Pixabay

A produção cultural brasileira vive o pior momento da sua história. Não bastassem os 3 D que já explicavam uma percepção antieconômica e antiempresarial por parte da sociedade (desconhecimento, desinformação e desinteresse), agregou-se ao quadro um quarto D. Agora, o contexto tem seu "modo moderno" em 4 D, melancolicamente encenado por ineptas convicções ideológicas, que encontram no setor cultural as raízes para uma "guerra" desmesurada. Daí, o D da destruição, como alvo maior do que se chama "guerra cultural".

Longe de me atrever nas discussões filosóficas cabíveis para tamanho absurdo, embora que não deixe de ignorar esse "crime contra a identidade nacional" tão latente, parece-me oportuno reconhecer as consequências de todo esse massacre e apostar noutros caminhos de sobrevida. É "juntar os cacos" e seguir, conforme compôs Paulo Vanzolini num dos seus célebres sambas: "reconhece a queda, mas não desanima; levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima".

Justo nesse espírito de compromisso com a retomada, que propus uma breve agenda entre alguns produtores, numa forma de seminário. Assim, no início da próxima semana, minha esperança é extrair dessa reunião os primeiros passos sobre uma melhor compreensão desse momento inglório. Para que, a partir desse, a gente possa esboçar o enfrentamento de novos desafios. Afinal, não apenas a pandemia, em si, proporcionou-nos válvulas de escape para meios de sobrevivência, até então inusitados. As tendências pré-crise sanitária já apontavam para algo novo, ditado pelas inovações tecnológicas, de tal sorte  que aquele advento crítico apenas encurtou um caminho, que muitas vezes os produtores culturais se negavam a segui-lo. Que o diga aqui o ritmo da transformação ocorrida no audiovisual, quando a oferta de conteúdos parece efetivar sua plena submissão às plataformas digitais ditadas pela demanda. Ou seja, o setor audiovisual passa a encarar a soberania do consumidor como um fato irreversível. 

Creio que agora o tempo chegou, para que a sociedade comece a perceber que a cultura tem dimensão econômica. Assim, tão importante quanto mostrar essa magnitude é poder também demonstrar os limites que levam até o porquê da urgência das políticas públicas. Assim como, até onde se pode exercer o viés do real empreendedorismo, sem que essas amarras públicas seja tão necessárias. Revisar conceitos, ajustar-se às transformações ainda em voga e moldar-se às estratégias sustentáveis parecem ser apostas que o setor cultural carece enfrentar.

Bem, a ideia é que esse encontro do Recife seja o passo inicial. Para temperar esses temas, na intenção de que o setor precisa ser encarado como parte prioritária do que chamo de um plano nacional de desenvolvinento sustentável, não seria dispensável ouvir opiniões de quem pode contribuir com o apontar de tendências, em aéreas correlatas. Será uma honra acompanhar duas importantes lideranças políticas, de indiscutíveis capacidades técnicas: Cristóvam Buarque e Luiz Henrique Mandetta. O primeiro poderá nos trazer uma visão estratégica vital, quando destacar o diferencial que advém do olhar prioritário na educação. Por sua vez, Mandetta trará um outro olhar, no campo da politica social, que já nos fez entender com a pandemia, o quanto a saúde pública é vital. Não apenas pela plenitude de uma cidadania ainda incompleta no Brasil. Mas, que nos dê também a segurança do quanto poderemos estar preparados para enfrentar desafios sanitários inesperados, mas que causem menos impactos nas nossas atividades econômicas. 

Que a ideia de contarmos com uma produção cultural restaurada e preparada para novos ares, depois de tantas adversidades, possa ter seu momento inicial no seminário. Tomara que surja esse novo ciclo. Penso assim e torço por isto.

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