Notas avulsas de efeitos econômicos: os fatos são tudo

Ilustração: Greg/Folha de Pernambuco

Em 1857, Gustave Flaubert lança uma obra literária marcante: Madame Bovary. De fato,  tamanho reconhecimento se deu por ela consagrar o inicio do Realismo, um movimento de forte significado cultural, que propagou variadas formas de influência. E esse marco se deu, justo no ano de morte de Auguste Comte, cuja filosofia do Positivismo pautou não só esse movimento cultural, como muitos outros aspectos de uma sociedade em efervescência.

Anos depois, em 1881, o Brasil conhece de perto a genialidade de Machado de Assis, cuja obra "Memórias Póstumas de Brás Cubas" inaugurou o "realismo brasileiro". No ano seguinte (1882), ele escreveu para a "Gazeta de Notícias" um conto chamado "O Espelho", também parte integrante do livro "Papéis Avulsos", para mim o ápice literário do autor. Naquela narrativa, ele bem retratou a personalidade contraditória do homem e do brasileiro, em particular. Lá no meio desse texto, há uma frase simples, despretensiosa, mas bastante emblemática: "os fatos explicarão melhor os sentimentos - os fatos são tudo".

Com base nesse prenuncio, recorro-me à literatura, ao realismo machadiano e, por fim, à simplicidade pragmática dessa frase, justo para fazer alguns breves comentários sobre algumas posturas públicas, que comprometem as expectativas em torno do cotidiano econômico. Assim, ao trazer para este campo a realidade do espelho contraditório relatado pela literatura, por estar tão fiel ao que se assiste na política, assumo aqui uma enorme preocupação com os efeitos econômicos de fatos reais, embora para mim inverossímeis. Na verdade, os exercícios de artilharia têm sido de "tiros no pé". Irei aos pontos.

POLÍTICA EXTERNA> Mantém-se um silêncio quase solitário, que soa como mero confrontacionismo. Em nome de uma ideologia extrema de interesse do Governo, quebram-se o protocolo da excelência diplomática do Estado brasileiro e as expectativas alvissareiras pelos acordos comerciais. Um tiro no pé da nossa economia. 

QUESTÃO AMBIENTAL 1>  O discurso inicial no G20, para fazer denuncismo por importações ilegais de madeira, é um bom exemplo do espelho: viu-se incoerência e contradição. Além do escape de retórica, a questão passa antes por controles internos, que dão legalidade às exportações. Isso sem falar que só 10% das vendas de madeira se destinam ao exterior. Segundo tiro no pé. 

QUESTÃO AMBIENTAL 2> Fazer da defesa do agronegócio outro escape de retórica representou apenas mais um risco para os acordos comerciais desse setor. E aqui me refiro aos segmentos mais racionais e competentes da cadeia do agronegócio, os que entendem sua dimensão comercial como algo bem além de uma postura negacionista e que cumpre regras ambientais. Outro tiro no pé, que expõe esse setor dinâmico a interpretações ainda  divergentes.

COVID> A infeliz retomada dos casos de COVID no País já poderia ser uma oportunidade de fazer agora o que já faltou no início da pandemia: coordenação e planejamento. Justo agora no momento de favorecer um cronograma seguro de cumprimento das possibilidades de vacinação em massa (com toda experiência do SUS na causa), em ação  concomitante com protocolos de segurança, que possam garantir minimamente o funcionamento de certas atividades econômicas. A histórica baixa empatia  pela solução do problema, em comunhão com os desencontros gerados pela politização da pandemia, parecem se repetir, de novo. Outro tiro no pé, que reforçará a ordem de grandeza dos efeitos que recairão sobre a economia brasileira.

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