O Inescrupuloso Dinheiro Fácil e a Marcha Fúnebre da Ética Nacional

Causa-me espanto a capacidade de certos brasileiros atuarem como vendedores de ilusão. Fazem questão de provar que o "curso de teoria e prática de pilantragens" proporcionou-lhes tal ofício. Um aprendizado que não se oferece em escolas e universidades. E se a vida for capaz de formar tal fenômeno, isso se deve a valores educacionais, éticos e filosóficos próprios.

De fato, é impressionante a "cara de pau" deles. Oferecem terreno na lua, geladeira para esquimó, mandacaru para sertanejo, revista de moda para franciscano, pente para careca e cartilha do Kama Sutra para eunuco. Tudo num ritmo de "esporte nacional". E o que é pior: agora nessa rotina absurda, lastreada pelas dores da pandemia.

Em adição, causa também indignação assistir às cenas de amadorismo generalizado, que emanam do outro lado do balcão, precisamente na gestão pública. Os exemplos recentes do Ministério da Saúde não representam apenas a confirmação de uma débil estratégia de combate à pandemia. Há bem mais deslizes.

De fato, esse amadorismo pode ser visto pelas repetidas cenas de desencontros e trapalhadas. Daí, não há uma palavra que resuma os erros, omissões e malfeitos. Um desastre indefensável, capaz de ser percebido pelo mais arguto dos idiotas de plantão. E haja consumo de óleo de peroba para praticantes e devotos. Não serve para mentes brilhantes, como poderiam pensar. No entanto, lustra a estupidez estampada nas caras, como jamais pensariam. 

A insistência nessa tragédia nacional representa a amostragem de uma sociedade que nega até seus pudores. Afinal, ela não se impõe como expressão do real sentimento pela coisa pública. O que resta para os lúcidos da sociedade é um certo ultraje, porque os malfeitos jogam a ética num saco sem fundo. Em suma: nada é tão ruim que não possa piorar.

A questão que se extrai desse desfigurado retrato brasileiro é a seguinte: até onde a certeza da impunidade afeta o modo de ser e agir do "cara de pau" tropical? Como referências, creio que três economistas, amparados em sólidas bases filosóficas e estudiosos da ética, poderão ajudar a interpretar o desalinho desse comportamento.

De pronto, destaco dois ganhadores de Nobel: George Stigler (1982) e Amartya Sen (1998). Stigler é contudente numa observação comportamental do indivíduo, pois "no confronto entre o interesse e a ética, o primeiro prevalece na maioria das vezes". Noutra perspectiva, dadas suas análises sobre a liberdade humana e o desenvolvimento, Sen também traz à tona alguns ensaios sobre o comportamento, justo em situações onde os interesses próprios e os valores éticos pregados se mostram em constante conflito.

Embora por aqui o debate acadêmico seja mais discreto, minha referência nacional recai sobre as obras do economista e filósofo Eduardo Giannetti. Para isso, remonto-me ao ano de 1998, quando foi publicado seu livro "Autoengano". De fato, a fuga do diálogo sincero com nós mesmos, por achar que nem sempre somos o que imaginamos ser, foi a essência daquela obra. Dela, penso que Giannetti recompôs toda uma inspiração para o recém-publicado "O Anel de Giges". A narrativa fabular dessa nova obra, traz à tona um conflito comportamental muito próximo do que havia dito Stigler e Sen. Ou seja, numa hipotética condição de estar invisível como Giges, o indivíduo agiria em nome do seu autointeresse ou levaria em conta princípios éticos de honestidade e respeito pelo bem-estar dos outros? 

Qualquer resposta clama por reflexão, embora a gente sinta qual tem sido a reação do brasileiro em geral. Se tal postura é fruto da cota natural de alguns indivíduos, quando isso se junta a tanto tempo de uma cultura sem ética, o resultado é todo esse desmantelo. 

Como desacato à lógica, um enorme paradoxo se revela e parece ser maior que o Brasil.  Nas palavras de Giannetti, "o brasileiro se sente e crê que esteja acima de tudo que aí está, mas o resultado final de todos nós juntos é precisamente tudo isso que aí está". 

O brasileiro parece não ser ele. É sempre o outro. De costas para a ética, segue em marcha fúnebre e a mostrar sua cara.

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