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Provas do Concurso da Negação: o Legado Olímpico e o Revés Educacional

Por menor que seja a conquista, provas e concursos costumam ser expressões de uma afirmação, seja no esporte como na educação. No entanto, num clima adverso, que mais parece favorecer uma espécie de "certame da negação", há como se reconhecer exemplos que contrariam o objeto esperado, também no esporte e na educação. 

Assim, infelizmente, o Brasil tem registros recentes de uma outra face da moeda, seja pelo questionável legado olímpico do Rio 2016, ou mesmo, pelo fiasco educacional, fortalecido pelos dissabores relativos à longevidade da pandemia. Os dois temas confirmaram recentemente os resultados de um legado olímpico quase desprezível, bem como, uma fragilidade ainda maior do nosso sistema educacional, depois desse tsunami pandêmico.

No primeiro caso, a FGV acabou de divulgar os resultados de um trabalho de pesquisa que  comprova que o "legado olímpico" virou "negado olímpico".  Como responsável técnico pelo trabalho, o economista e ex-presidente do IPEA, Marcelo Neri, foi taxativo: "depois dos Jogos, a percepção é de que o Rio se jogou para o outro lado do Olimpo".

De fato, o que o trabalho revela é que do anúncio da realização das Olimpíadas no Rio (2009) até o evento propriamente dito, os resultados socioeconômicos foram satisfatórios. Houve uma melhoria diante de um estado de decadência, com inversão nos indicadores de emprego e pobreza, mesmo que a cidade não tenha avançado em algumas questões de infraestrutura, prometidas nos protocolos de intenções (o exemplo clássico é o da despoluição da baía de Guanabara).

A questão mais importante desse contexto é mesmo a constatação do fracasso  pôs-olímpico. Some-se à timidez dos resultados daqueles esforços prévios, aspectos outros de suma relevância. Destaco aqui a extensão da crise econômica nacional, os problemas da cadeia produtiva do petróleo e os desencontros políticos pautados pelo clima de corrupção que tomou conta dos governos fluminenses. Haja negacionismo, de verdade.

Sobre a questão educacional, já tive oportunidade de expressar nesta coluna minha preocupação e indignação com os resultados que se extraem, a partir do advento da pandemia. Uma vez que a volta às salas de aula está agora em pauta, urge também que se comece a ensaiar uma verdadeira catarse, algo que traga verdadeiramente a educação para o centro do debate político e socioeconômico.

De fato, se o sistema educacional já era um fiasco antes da crise sanitária, o que se poderá esperar do futuro das crianças e adolescentes, quando os esforços em torno das aulas remotas não trouxeram grandes resultados, sobretudo, nas faixas de renda mais vulneráveis. Não só houve pouco acesso ao modelo virtual proposto, como foi constatada uma preocupante disposição discente em favor da evasão. Para reforçar ainda mais a preocupação com esses indicadores, lembro que o país precisa levar em conta, no seu desafio por um desenvolvimento sustentável, que o aumento da desigualdade potencializado na pandemia, exercerá ainda mais pressão sobre a educação. Ao velho negacionismo que se observa na educação, como algo que não se concretiza além do discurso, mostrou-se ainda mais contundente, pelos efeitos causados pela pandemia. 

Diante desses fatos, por mais duros que sejam, prefiro assim mesmo relevá-los como "reais negações", que impõem à sociedade consciência e providência. Outras negações tratadas com a hipocrisia de um realismo que só se vitamina nas redes sociais, não merecem de mim o menor crédito. Estão longe de exercerem os papéis que a sociedade clama: de agentes verdadeiros do desenvolvimento.

Embora a súmula final possa registrar o adágio popular de que "nada é  tão ruim que não possa piorar", sigo a apostar na esperança.

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