Um sentimento artístico é saber exercer a arte de sobreviver (Parte II)

Os desafios da reconquista no âmbito economia do audiovisual

Estúdio de TV - zzbfoto/Freepik

No texto da coluna passada, no bojo da capacidade da cultura e do audiovisual serem setores resistentes às costumeiras turbulências políticas e econômicas que sofrem, anunciei a importância de que, neste momento de revigor, saibam como encontrar os melhores caminhos. 

Nessas novas condições, as atitudes em torno da sustentabilidade, não devem ser ativadas como meros discursos. É preciso que os ofícios produtivos façam-na valer na prática. Como afirmei, sinto-me na obrigação de um alerta, em duas direções. A primeira, como momento adequado para reforçar o valor econômico, tanto da cultura, quanto do audiovisual. A segunda, é impedir que os discurso carredados de preconceitos, que dão sentido ao contexto antieconômico, não se disseminem, por eventuais falhas de procedimento nas políticas públicas. 

O alerta econômico é algo que tenho contemporizado nos meus atos públicos, desde quando publiquei, lá em 2008, um até então inédito livro sobre a Economia da Cultura (também titulo do mesmo). É uma pena constatar que desse esforço inicial, mesmo que depois irrigado pela diversidade e riqueza de textos e exposições até mais entusiasmados, pouco ou nada tenha-se evoluído. A verdade que se apresenta é de um contexto, no qual uma grande parcela da sociedade, ignora a capacidade da cultura e do audiovisual serem dignas expressões econômicas, por quaisquer que sejam as variáveis tomadas (renda e emprego, sobretudo).

Infelizmente, pevalece um comportamento dissimulado de se esconder um preconceito de raiz estrutural, no qual os distintos conteúdos artístico-culturais são desacreditados nos seus valores econômicos. Décadas se passaram e sequer sabemos, por exemplo, um real conceito do que seja cultura, para que daí se estabeleçam indicadores econômicos oficiais, que meçam seus verdadeiros impactos. Tudo é achismo e pressuposto. E, assim, a sociedade segue no seu juízo de valor, que termina por impor à cultura uma espécie de "atividade marginal". E isso ocorre nos tempos onde os conteúdos audiovisuais dão provas incontestes de expressão  econômica. Mais um, entre tantos paradoxos que fazem o DNA nacional.

No bojo desse argumento  e na ideia defensável de fazer valer o lado mais exuberante da identidade brasileira, surge a segunda direção dessa analise, que me revela outro graus de preocupação desafiador. Refiro-me à valiosa oportunidade de uma política pública, vista pelas lentes da essência da Lei Paulo Gustavo (LPG). Sem dúvida, um primeiro e grandioso exercício de descentralização de recursos e com pleno respeito à diversidade, em todos sentidos possíveis. Só que o tamanho dessa atitude pública tão meritória, talvez pela urgência dos procedimentos, poderá se revelar num vetor econômico, capaz de nutrir o discurso adversário. Justo aquele que dá sentido aos que enxergam a cultura pelo viés antieconômico.

Minha preocupação nasce do provável despreparo de centenas ou milhares de municípios, em saber conduzir a gestão de recursos que estão por aplicar. Como a maior parte desse dinheiro advêm do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), a ideia de somente comprometê-lo com conteúdos (filmes) pode gerar distorções. Ou por não fazê-los exequíveis com os recursos liberados. Ou por não fazê-los, na condição de uma devolução por falta de proponentes. No primeiro caso, porque conteúdo audiovisual é caro e carece de captações financeiras, de modo que o disponibilizado não garante o montante necessário para concluir o produto. No segundo caso, poderemos ter situações por falha de procedimento do gestor municipal, ou mesmo, por falta de produtores interessados (sobretudo, em municípios menores). Nem quero aqui abordar sobre outros riscos de distorções, mas o ideal mesmo seria aplicar os recursos em educação audiovisual (formação) e, se forem os casos, em recuperação ou criação de espaços para exibições de conteúdos. Outro paradoxo à vista.

Quero encerrar essa breve análise com a seguinte conclusão: pior que os paradoxos, é vislumbrar a possibilidade do discurso  econômico não prevalecer. Afinal, corre-se um velho risco, no qual os que não entendem o setor continuem a ter nas mãos sua nitroglicerina de sempre. E aí os ataques contrários sustentam a ignorância dos seus conceitos.

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