Uma economia às cegas diante de temerários apagões

Ilustração: Hugo Carvalho/Folha de Pernambuco

O conceito filosófico do obscurantismo, que hoje se propaga por força de uma linha ideológica negacionista, deu também substância a sequência de "apagões" que a sociedade brasileira assiste incrédula. Não obstante o fato do País continuar submetido à gravidade de uma pandemia, que foi mais um repertório desse negacionismo engajado, outros ingredientes deram sentido a um quadro temerário de "apagões". Um contexto que se traduz por efeitos que comprometem uma dinâmica econômica já afetada pelas incertezas e volatilidades que instabilizam os mercados.

Um primeiro apagão, mais genérico, foi decorrência de um ato recente do Ministério da Saúde, ainda a respeito da pandemia. De fato, foi apagada uma mensagem sensata sobre o agravamento recente do quadro de contaminações por COVID, horas depois tornada indisponível nas redes sociais. Isso para se manter um alinhamento ao discurso de se negar a pandemia, o que reforça as atitudes erráticas comuns ao Governo. Num dia, o Ministério alinha uma decisão científica que desconsidera os benefícios dos medicamentos e sinaliza para o isolamento social como solução única. Num outro, recua porque a linha central do Governo impõe sua ideologia acima do conhecimento científico. Nessa dialética, que realça uma falta de coordenação e planejamento, a situação da economia fica à deriva. Afinal, numa nova decisão por isolamento social ou não, os impactos socioeconômicos são imensos. Rebatem à frente na estimativa do PIB, no nível de emprego e na extensão dos programas sociais. A macroeconomia fica condicionada ao que irá dizer a pandemia, até antes das vacinas. Isso se não negarem o valor delas. 

Um segundo apagão, de caráter mais específico, é também fruto desse negacionismo contumaz. Refiro-me ao esforço ideológico para demostrar o desapreço pelas questões ambientais. Além do conceito firmado pela ideologia, o danado é que o Governo tem levado essa desavença para o campo da diplomacia. Isso se dá justo num quadro onde historicamente o Brasil sempre atuou com sensatez política e equilíbrio na facilitação de negócios multilaterais. Esse apagão que deriva da irrelevância dada aos temas que tratam do meio ambiente, evidentenente que tem efeitos colaterais sobre a economia. Assim, o equívoco de uma política ambiental que compromete as relações exteriores do Estado, devido ao verniz ideológico do Governo, traduz-se por perdas econômicas. Não só pelos fundos diretamente associados à causa, como pela agenda dos investimentos externos, hoje pautada na atenção aos países que respeitam regras ambientais. 

Por fim, um terceiro apagão desse quadro de obscurantismo ideológico, decorre de um efetivo blecaute no Amapá. Um fato que revela a ineficiência e ineficácia da política energética brasileira. A primeira percepção é uma evidência pontual, resultante dos descasos técnico e fiscalizatório, de entes privado e público que precisam ser cobrados. Só que esse trágico episódio expõe a fratura de um modelo que se mostra operante sob riscos iminentes, o que reforça a ausência de uma política econômica que sinalize para a retomada dos investimentos em infraestrutura. Se privados, onde estão as privatizações anunciadas? Se públicos, de onde virão os recursos, nessa situação irreversível de fragilidade fiscal? 

Enfim, são apagões que comprometem a economia no curto prazo. E tudo acontece num contexto em que se chega à segunda quinzena de novembro e o Governo sequer tem seu orçamento aprovado para 2021. A insegurança paira no ar.

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