Desnutrição, obesidade e mortalidade infantil expõem desafios da infância brasileira
Estudo da Fundação Abrinq revela que o país ainda convive com a desnutrição
Estudo da Fundação Abrinq revela que o país ainda convive com a desnutrição enquanto registra avanço da obesidade e interrupção na queda da mortalidade infantil.
A Fundação Abrinq lança uma nova edição do Cenário da Infância e Adolescência no Brasil, publicação anual produzida desde 2014 que sistematiza dados oficiais e apresenta um panorama atualizado das condições de vida de crianças e adolescentes no país.
Os principais indicadores sociais e de saúde reunidos no estudo revelam que o Brasil atravessa um momento de inflexão na garantia de direitos da infância. Após décadas de avanços consistentes, especialmente na redução da mortalidade infantil, o país passa a conviver com a estagnação de indicadores centrais, o agravamento da vulnerabilidade social e sinais preocupantes nas condições de nascimento e nutrição.
O principal avanço recente é a continuidade da queda na gravidez na adolescência, um progresso relevante, mas ainda insuficiente para compensar os retrocessos observados em outras áreas.
MORTALIDADE INFANTIL
A estagnação da mortalidade infantil é um dos dados mais sensíveis do estudo. As informações de 2024 sobre óbitos de crianças com até 1 ano e com até 5 anos permitem o cálculo das taxas no período de dez anos e confirmam a interrupção do avanço observado nas décadas anteriores.
Na média da década, a taxa de mortalidade infantil manteve-se em 12,6 óbitos por mil nascidos vivos, repetindo o patamar registrado em 2022 e 2023. Já a mortalidade na infância ficou em 14,9 por mil em 2024.
Após a queda registrada em 2020, quando a taxa chegou a 11,5, os indicadores voltaram a subir e retornaram aos níveis verificados nos primeiros anos da série analisada. O cenário indica estagnação e ausência de avanço consistente na redução das mortes evitáveis.
Mesmo sem novo crescimento, a estabilidade por três anos consecutivos já configura sinal de alerta. A mortalidade infantil é um indicador diretamente associado às condições de vida, ao acesso à atenção primária e à qualidade do pré-natal. Quando deixa de cair, revela limites na capacidade de ampliar proteção às crianças mais vulneráveis.
As desigualdades regionais permanecem expressivas. Em 2024, a mortalidade infantil foi de 15,7 por mil na Região Norte e 13,5 no Nordeste, acima da média nacional. No Sul, o índice ficou em 10,4, o menor do país. O Sudeste registrou 11,7 e o Centro Oeste, 12,6. A diferença entre regiões evidencia que os avanços na saúde infantil seguem desigualmente distribuídos no território brasileiro.
BAIXO PESO E OBESIDADE
Outro indicador que acende alerta é o baixo peso ao nascer. Em 2024, 9,5% dos bebês nasceram com menos de 2,5 quilos, o maior percentual da série histórica e o terceiro ano consecutivo em patamar elevado. Em 2000, essa proporção era de 7,7%, o que evidencia uma mudança importante no perfil de nascimentos ao longo das últimas décadas.
O baixo peso ao nascer está diretamente associado às condições de saúde materna, à qualidade e regularidade do pré-natal, à insegurança alimentar e a fatores sociais como renda, escolaridade e acesso a serviços públicos. Bebês que nascem abaixo do peso apresentam maior risco de complicações no desenvolvimento e maior vulnerabilidade a doenças ao longo da vida.
No campo da nutrição infantil, Em 2024, 3,6% das crianças de até 5 anos estavam com baixo peso para a idade. O déficit de altura baixa ou muito baixa atingia 11,7% das crianças dessa faixa etária. Embora esse percentual tenha recuado em relação a 2019, quando alcançou 13,4%, ainda representa mais de uma em cada dez crianças com comprometimento no crescimento.
Ao mesmo tempo, o excesso de peso permanece elevado. Entre crianças de até 5 anos, 5,8% estavam acima do peso recomendado em 2024, aproximadamente 451 mil crianças, a menor proporção da década. Em 2015, o índice era de 8,0%. Já entre crianças de 5 a 10 anos, a obesidade atingia 9,0% em 2024. O percentual chegou a 10,4% em 2021 e, embora tenha recuado, permanece acima dos níveis observados no início da série histórica. Em números absolutos, mais de 588 mil crianças de 5 a 10 anos estavam em situação de obesidade no país em 2024.
Os dados mostram que insegurança alimentar não significa apenas falta de comida. Muitas vezes, significa acesso restrito a alimentos frescos e nutritivos e maior consumo de produtos ultraprocessados, mais baratos e menos saudáveis. O resultado é um cenário em que a pobreza não produz apenas carência, mas também desequilíbrio alimentar.
Reverter esse cenário exige políticas que combinem transferência de renda com educação alimentar e ampliação da merenda escolar com alimentos frescos. Além disso, o investimento em vigilância nutricional contínua é igualmente necessário para monitorar avanços e orientar políticas que garantam o direito à alimentação adequada para todas as crianças.
GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA
A proporção de nascidos vivos de mães com até 19 anos manteve trajetória consistente de queda e atingiu 11,4% em 2024, ante 14,7% em 2019. A redução ao longo dos últimos anos indica avanço na prevenção da gravidez precoce e maior acesso à informação, à educação sexual e a métodos contraceptivos.
A queda é observada em todas as regiões do país, ainda que em ritmos distintos. No Norte, o percentual recuou de 22,1% para 18,5% no período. No Nordeste, passou de 17,8% para 13,7%. Sudeste e Sul registraram os menores índices em 2024, com 8,8% e 8,3%, respectivamente.
Em números absolutos, o Brasil registrou 273.213 nascidos vivos de mães com até 19 anos em 2024, sendo 261.206 entre adolescentes de 15 a 19 anos e 12.004 entre meninas de 10 a 14 anos. Houve ainda três registros de nascimentos de mães com menos de 10 anos.
Embora a tendência seja positiva, os dados mostram que a gravidez na adolescência ainda reflete desigualdades regionais e sociais. Consolidar a redução exige continuidade das políticas públicas e fortalecimento das ações de proteção às meninas mais vulneráveis.
POBREZA
Em 2024, 24,5% da população brasileira, o equivalente a 53,1 milhões de pessoas, viviam em situação de pobreza, com renda mensal domiciliar per capita de até meio salário mínimo, cerca de R$ 706, o equivalente a R$ 23,50 por dia. Pouco mais de 8% estavam em extrema pobreza, com renda de até um quarto do salário mínimo, aproximadamente R$ 353,50 por mês, cerca de R$ 11,70 por dia.
Entre crianças, o impacto é significativamente maior. Segundo o estudo, 40,9% das crianças com até 6 anos e 40,8% das crianças com até 12 anos vivem em situação de pobreza. A pobreza extrema alcança 14,4% das crianças na primeira infância e 14,7% daquelas com até 12 anos. Em outras palavras, quatro em cada dez crianças brasileiras crescem em domicílios com renda insuficiente para garantir condições adequadas de desenvolvimento.
O dado evidencia uma desigualdade estrutural: a pobreza atinge crianças de forma desproporcional quando comparada à média da população. Essa condição compromete acesso à alimentação adequada, moradia digna, educação de qualidade, saneamento básico e serviços de saúde, impactando diretamente o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional.
“A pobreza continua sendo uma das principais causas das violações de direitos na infância. Quando quatro em cada dez crianças vivem com renda insuficiente, isso se reflete na saúde, na aprendizagem e nas oportunidades ao longo de toda a vida. Além disso, a estagnação da mortalidade e o aumento do baixo peso ao nascer indicam que o país precisa recolocar a primeira infância no centro das políticas públicas”, afirma Victor Graça, superintendente da Fundação Abrinq.
Sobre o estudo
O Cenário da Infância e Adolescência no Brasil 2026 reúne dados de fontes oficiais e permite acompanhar tendências essenciais para a formulação de políticas públicas. Publicado anualmente pela Fundação Abrinq com base em estatísticas oficiais e séries históricas, o estudo subsidia gestores públicos, imprensa e sociedade civil no monitoramento dos direitos de crianças e adolescentes e contribui para o acompanhamento das metas nacionais e internacionais relacionadas à infância. O estudo completo está disponível para download gratuito no site da Fundação Abrinq.



