Entre telas e brincadeiras: os desafios da infância contemporânea
No Dia do Brincar, explicam como atividades lúdicas fortalecem o desenvolvimento
O contato de crianças com equipamentos eletrônicos como smartphones, tablets e com plataformas digitais está começando cada vez mais cedo no Brasil. Segundo o levantamento da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, em 2015, apenas 9% das crianças de 0 a 2 anos utilizavam internet, percentual que saltou para 44% em 2024. Entre as faixas de 3 a 5 anos e 6 a 8 anos, os índices passaram de 26% para 71% e de 41% para 82%, respectivamente, no mesmo período.
No Dia do Brincar, celebrado em 28 de maio, especialistas detalham os efeitos das brincadeiras no desenvolvimento das crianças e os riscos do avanço precoce da tecnologia, e mostram que a resposta para essa questão pode ser algo tão simples como a brincadeira.
O brincar e o desenvolvimento infantil: o que a ciência e a prática mostram
Para a professora Maria de Remédios Cardoso, diretora pedagógica da Educação Infantil do Programa Regular da Escola Móbile, o brincar contribui para estruturar o cérebro infantil de uma forma que nenhuma tela consegue replicar. “Brincar é essencial, pois, diferentemente das telas, que muitas vezes oferecem estímulos passivos e recompensas rápidas de dopamina, é ativo, o que auxilia na estruturação do cérebro infantil ainda em formação. As telas colocam a criança no papel de espectadora, já o brincar devolve a ela o papel de protagonista”, afirma. Segundo Maria, as habilidades desenvolvidas durante as brincadeiras incluem resolução de problemas, memória, linguagem, planejamento, criatividade, flexibilidade, autorregulação, controle inibitório e empatia. “Brincando, a criança movimenta o corpo, manipula objetos, ativa áreas do cérebro ligadas à coordenação motora fina e global, à percepção espacial, trabalha com a resolução de problemas junto a seus pares, aprende noções de tamanho, forma. É também por meio das brincadeiras que a criança aprende a ler e escrever ou faz, por exemplo, experimentos físicos, a partir dos quais começa a entender descobre que a ciência é muito mais simples e fascinante do que ela imaginava”, completa.
Tatiana Almendra, diretora pedagógica do Programa Bilíngue da Escola Móbile, reforça que o brincar pode ser uma atividade de alta complexidade cognitiva. “Em uma brincadeira de construção, por exemplo, a criança formula hipóteses, planeja, testa possibilidades e revisa estratégias quando algo não funciona como imaginava. Já nas brincadeiras em grupo, aprende a negociar regras, esperar a sua vez, lidar com frustrações, argumentar, cooperar e resolver conflitos. Enquanto brinca, a criança pensa, cria, se comunica, movimenta o corpo e aprende sobre si, sobre o outro e sobre o mundo”.
A Pedagogia do Brincar na prática
Tatiana Almendra explica que, na Educação Infantil, a brincadeira e a ludicidade permeiam toda a rotina escolar e por isso o brincar deve ser o eixo central da proposta pedagógica, não um intervalo entre atividades. “Na Móbile, o brincar atravessa toda a experiência da criança. Ele aparece nas propostas planejadas pelos professores, carregadas de intencionalidade sobre o que se pretende estimular, na construção e reinvenção de espaços que convidam as crianças a interagir, explorar e pesquisar. Também está nas brincadeiras simbólicas, nas experiências com água, areia, tinta, construção, música e movimento, assim comonas interações espontâneas entre as crianças. Entendemos que a criança aprende quando participa ativamente da experiência e atribui sentido ao que vive.”
Os riscos do excesso de telas e o papel da família
Maria Cardoso lista os impactos já comprovados do uso excessivo de dispositivos na infância: dificuldade de concentração, atraso de linguagem, comprometimento das funções executivas (memória, planejamento e raciocínio lógico), baixa tolerância à frustração, ansiedade, isolamento social, problemas de saúde ocular e distúrbios do sono. A educadora também aponta que o cérebro infantil, por sua alta neuroplasticidade, é especialmente vulnerável. “O excesso de estímulos digitais rápidos e passivos pode viciar o cérebro infantil em recompensas imediatas de dopamina”. Sobre o possível equilíbrio entre tecnologia e brincadeira, ela explica: “até 3 anos de idade, as crianças não deveriam ser expostas às telas, por uma questão de desenvolvimento cerebral. A partir dos 4 anos, a tela deve ser encarada como ferramenta de criação e aprendizado e nunca como um instrumento de consumo passivo. Horários de refeições, de dormir (até 1 hora antes) devem ser livres de telas. A família também precisa estar atenta, pois a criança segue modelos familiares. Se todos estão da casa estão utilizando celulares, ela também vai querer, mas se todos se sentarem para jogar ou brincar, a criança certamente vai se engajar”, explica Maria. Tatiana Almendra reforça o custo direto quando a brincadeira perde espaço: “a infância precisa de tempo, corpo e experiência concreta. Quando o tempo de tela rouba o tempo da brincadeira, estamos certamente privando o desenvolvimento pleno da infância”, conclui.
Sobre a Escola Móbile (www.escolamobile.com.br) – Desde 1975, a Escola Móbile dedicase a oferecer uma educação democrática, plural e inovadora que une excelência acadêmica e desenvolvimento socioemocional dos estudantes. Reconhecida por suas metodologias próprias e conteúdos autorais, a Móbile combina tradição e inovação para preparar crianças e jovens para os desafios do mundo contemporâneo. Com seu nome inspirado nos móbiles − esculturas cinéticas em constante movimento, mas sempre em equilíbrio − criados pelo artista estadunidense Alexander Calder, a instituição promove o conhecimento em suas múltiplas dimensões: social, cultural, artística e científica. A Escola Móbile conta com dois programas na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, um regular, em período parcial, e um bilíngue, em período integral. Os alunos de ambos os programas se encontram no Ensino Médio, que acontece em período semi-integral. A Escola conta, ainda, com um Departamento de Estudos Internacionais, que oferece todo o suporte aos estudantes que desejam vivenciar experiências acadêmicas no exterior. A Móbile é uma escola do grupo global Nord Anglia Education.



